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Archive for the ‘Os Contos’ Category

A resposta de Penélope (2012), publicado pela AG-Book/Clube dos Autores, reúne alguns contos recentes de minha autoria e outros mais antigos. Narrativas curtas, a primeira delas evoca a figura de Rosa Luxemburgo e de Penélope, personagem da Odisseia, de Homero, em uma referência indireta à clássica personagem de Ulisses, Molly Bloom. Os fatos do cotidiano de uma jovem se cruzam com fragmentos íntimos da vida da revolucionária alemã e também trazem à tona a atitude de Penélope que se entrega ao trabalho sem fim de costurar uma mortalha durante o dia e desmanchá-la durante a noite. O desmanchar é outra figura constante das demais narrativas. Em Quase Morte, a modernização conservadora e o fim da ditadura brasileira são o cenário da história de um pequeno grupo de moradores de um prédio antigo. Em Em Memória, há um convite em devassar as regiões interiores, onde se pode recordar ou não. Em Noite de Maio, um episódio busca representar a sutil passagem da adolescência para a idade adulta. As histórias de uma família do sertão brasileiro aparecem em Buracos de Formiga e, por fim, alguns pequenos contos, espalhados entre os maiores, trazem devaneios, conflitos, dores, sonhos, momentos de morte e nascimento, e esboçam, ainda que provisória, uma resposta.

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Solicanção (2012) é uma reunião de minhas mais recentes poesias. De versos livres, as poesias têm um caráter intimista e tratam de questões do cotidiano e sentimentos experimentados pela maioria das pessoas. Os grandes temas são o amor e a solidão, passando pela infância e também pelas questões próprias do mundo moderno, como o tempo que, nos dias atuais, adquire uma específica dimensão.

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Nas primeiras horas do dia, ainda levemente adormecida, eu me pus a imaginar a copa daquelas árvores que, logo ao abrir a janela de meu quarto para receber a fresca luz da manhã, invadiriam meu rosto com seu verde vibrante e sua promessa de calma e eternidade. Logo as pensei floridas, amarelas como costumeiramente ficavam, contendo em si um pouco do calor e da vida da estação primaveril que as fazia desabrochar. Como me deixa entusiasmada a primavera! Não sei se por suas cores variadas, se por suas formas delicadas, se pelos cenários de devaneio que suas paisagens docemente sempre me reservam, ou se pela sua sempre renovada promessa, ou se por tudo isso. E meu dia começava…acompanhando os sons harmônicos e distintos que vinham de pássaros que eu não via, mas que, ao escutar, profundamente os acolhia.

Os compromissos do dia me acordaram de uma noite bastante longa, povoada de lembranças. Acordei com dificuldade, tomei do relógio e ao colocá-lo já percebi como era tarde. Apressada, fui em direção ao supermercado. Não havia outro dia e quando a ideia em mim se fixava não havia noite mal dormida, tampouco um tempo cinzento e desconfiado, como o que então fazia, que a tirava de meus planos mentais.

Não me sentia propriamente mal, embora ligeiramente cansada, e tal estado não me parecia dos melhores frente à tarefa da economia doméstica a que eu me destinava. No semáforo lotado parei como de costume e olhei com olhos esfumaçados os carros passando sem parar. Quase não tinha tempo de distinguir os rostos. Incrível! As pessoas escondidas dentro destas “carruagens do infinito”, tão habilmente lhes privando do contato com o mundo.

Pararam. O silêncio dos motores moveu minhas pernas: instinto de urbanidade. Ao chegar, tomei o carrinho de compras e não pude deixar de pensar na semelhança e também na diferença entre este que usamos para depositar produtos que nos mantêm vivos e sadios, corpo e casa em ordem, e aqueles nos quais quase cegamente nos depositamos para vencer as distâncias, travar o conhecimento das presenças e dos lugares.

Começava sempre pela primeira prateleira. Shampoos, condicionadores, absorventes, produtos de beleza, sabonetes, pasta de dente, gel, cremes para o corpo, pentes de cabelo, esmalte para as unhas, os cuidados do corpo e os papéis higiênicos. Olhei bem, mas não havia papéis de carta. Era deles que eu precisava. Que eu realmente precisava. Os outros já estavam lá. Todos eles. Os produtos. Alguns funcionários apenas os colocavam na prateleira, mas eles pulavam de suas mãos prontinhos. Quanta coisa deveria existir em um simples shampoo, em um esmalte de unha, e nada disso aparecia aos meus olhos. Tudo já estava pronto e, como o mais perfeito dos feitiços, aqueles objetos não iriam se decompor nas milhares de mãos e horas que os produziram, tampouco nas árvores, frutas, nas matérias-primas da natureza que o fizeram chegar aqui nesta forma que têm agora, permaneceriam encantados ainda que meu relógio marcasse meia-noite.

Como os preços dessa parte eram elevados! E também nunca me foi revelado o porquê. Talvez tenham dado mais trabalho, talvez a matéria-prima seja mais cara, ou, simplesmente, a carga simbólica em torno deles justifique o valor com que são trocados pelo meu dinheiro gravado no cartão de crédito. Enfim, muito pensamento pra pouco tempo…

Tomei coisa e outra rápido e parti para as frutas. Belas, coloridas e mais baratas. Não podia deixar de me incomodar a atmosfera em que elas se amontoavam. Umidificadores espalhados pelo teto tentavam reproduzir a atmosfera dos campos e ambientes onde elas naturalmente crescem. Era uma boa propaganda. Nas paredes podiam-se ler pintadas em cores vivias frases do tipo: “fresquinhos todo dia”!

Era importante que eu comprasse muitas dessas peças “fresquinhas”. Não só pelo sabor, mas por pura questão de necessidade. Orgânica e vital. O estômago que já não ia bem há tempos e se aproximava de completos destroços e ruínas agradeceria essa alimentação mais, digamos, “fresquinha”.

Pulei a fila dos congelados em consideração a ele (ao estômago). Nada de sabores artificiais. “Como se os anteriores não fossem”. Mas há coisas que é melhor nem pensar, ou disfarçar, e eu tentava esquecer os pesadelos da noite e o tédio das tarefas do dia de uma mulher sozinha que, depois do supermercado ainda teria que faxinar a casa e separar a roupa que, sem falta, deveria esfregar-se corajosamente no tanque para depois girar freneticamente na máquina no dia seguinte.

Não pude deixar de notar os ovos de páscoa que formavam uma espécie de telhado de papel colorido sobre minha cabeça, e as crianças atirando-se a eles. Ávidas e encantadas. Enfeitiçadas menos pelos sabor do chocolate e mais por alguma outra coisa que vinha junto com ele. O papel, as cores, nunca soube o que era essa “outra coisa”.

E não só os ovos de páscoa, mas muitas outras coisas tinham “a outra coisa”. As crianças pulavam em direção a eles, se jogavam dos braços da mãe e imploravam: “compra, compra! Compra mãe!”. Logo se deitavam no chão, esperneavam, desenhavam um sofrimento existencial tão primitivo que nem sei se chegava a um sofrimento, talvez mero grito diante dessa vida em que se deseja, em que se quer, em que a lágrima e o sorriso possuem o mesmo gosto, a mesma seiva divina.

Mas eu fugira do exercício das compras. Tinha esquecido alguns itens da minha lista e o relógio logo tocaria aquela música estridente, e que eu realmente adorava como uma sonata de Mozart, a música quase monotonal do meu despertador a me lembrar que o tempo daquela tarefa já tinha se ido e que logo eu deveria estar chamando o táxi, indo de volta para casa e novamente programando o relógio para a nova tarefa do dia.

Corri pelas prateleiras diante dessa iminente ameaça. Tudo menos ouvir a música! Precisava terminar antes, eu realmente precisava terminar antes. E assim foram leites, sucos, danones, macarrão instantâneo, pacotes e mais pacotes, o instantâneo tem tudo haver com o mundo moderno, pensei. Bobagem! Enfim, queijos, massas, molhos e um vinho, por que não?

A prateleira dos vinhos tinha lá as suas peculiaridades, como a das frutas. Uvas de plástico caíam de um telhado planejado para cobrir quem passasse e criar toda uma atmosfera…O mundo da criação, as uvas de plástico, as mil e uma garrafas de vinho, tantas para escolher, tanto, mas tanto. Nada e menos nada, menos nada, nada.

Embriagada pelo cheiro preso nas garrafas, pelas uvas que nunca seriam naturais, posto que eram de plástico, nada mais que plástico, minha cabeça virou, revirou, esmagou o travesseiro, o encharcou de lágrimas… Por que a visão daqueles objetos tinha que voltar? As peças do meu criado mudo, do meu primeiro quarto em que vivi meus primeiros anos. Tão tristes. Eu sentia saudade delas, eu que me perdera delas, que não sabia mais como encontrá-las, sequer onde estavam, o que teria sido feito delas… Uma fotografia tinha me ajudado a lembrar, embora eu já lembrasse. Eram algumas peças delicadas de porcelana, um urso pintando um quadro, um porta joias cuja base era um coração e cujo topo imitava as extremidades de um telefone. Onde estavam eles agora, o que teria sido feito deles? De novo eu me perguntava e sentia uma profunda tristeza por os ter perdido, por não os ter levado comigo. Eles pertenciam à minha infância, à minha memória, e nem isso mais eu tinha. No bolso apenas um impotente cartão de crédito que serviria para levar pra casa tudo aquilo que eu juntara sem perceber naquele inútil carrinho. E era como um verdadeiro sufoco, amortecido e, ao mesmo tempo, nulo esse renunciar aos pequenos adornos da vida.

Mãos cruéis os teriam tocado, jogado em qualquer lixo para engrossar as montanhas dos resíduos que jogamos fora, que não valem mais nada. Mas como podem dizer isso? Eles valiam, as coisas valem em si, têm vida, como não? E eles tinham em si a minha vida, e eis que tão longamente adormecidos de repente voltaram, quando eu estava mais velha, quando tudo estava mais velho, quando eu já tinha enterrado aquele quarto e já passara por tantos outros em solidões sucessivas e renovadas, que não se curavam, fossem quais fossem as paredes, seus enfeites, seus quadros.

Coisas que eu não tinha mais. Como naquele dia em que senti uma tristeza tão grande vendo aqueles búfalos sem poder fazer nada. Em que vi a tragédia da guerra desfilando ao meu lado, toda a tragédia da guerra. Privados de seus vastos campos, belos, regados de sol, coloridos pelas marcas das estações, esse animais grandes, fortes, de olhos tão meigos, eram agora simples transportadores de carga, sujeitos aos açoites mesquinhos daquele soldado que me dava náuseas e que os maltratava dizendo que os homens também não eram tratados de forma diferente. Pra que ter piedade? Eu a tinha. Não por eles somente, mas por mim. Impotente, enjaulada, condenada a ver seus olhos tristes e não poder fazer nada, a ver os meus olhos cansados e mesmo assim ter de resistir, ler, trabalhar pela causa, pelo partido, a causa que eu intimamente poderia ter abandonado. Mas onde estava meu íntimo?

Se eu pudesse escolher… todos sabem. Eu seria feliz em alguma casa de campo, com um dos meu amores, o ávido revolucionário ou meu menininho sonhador, ou sozinha, ou com Mimi, mas seria feliz apenas olhando os animais, cuidando das plantas, multiplicando meu herbário. Leria grandes obras. Jamais abandonaria Goethe, Shakespeare, meu tão amado Tolstoi, nem tampouco as músicas, Beethoven, Mozart, Schubert, quem sabe aprenderia a tocar piano e não precisaria mais sonhar aquele sonho em que eu cortava as pontas dos meus dedos para desculpar-me de que não poderia tocar aquela bela sonata.

Viveria das primaveras, esperando pelo calor do verão. Andaria pelos campos, amaria, poderia dedicar-me à família. Não teria deixado de ver meu pai antes que ele morresse, como deixei por falta de tempo, pelo meu compromisso de salvar a humanidade, de trabalhar pela felicidade universal, ah, pela liberdade.

E hoje sou como esse búfalo, estou sem ela, sofro açoites cruéis, de meu estômago, de meus nervos, e afundo-me ainda mais em uma tristeza muda, sem nome. Quando penso, como ele, nas minhas verdes e viçosas pastagens da Romênia, distantes, perdidas em algum lugar…

Mas me mantenho tranquila e alegre, pois assim é a vida, não é. Temos de aceitá-la com tudo de bom e ruim que ela trouxer, entender a beleza e talvez a necessidade de suas tempestades, viver a doce expectativa de um dia de sol. Sempre tranquilos e alegres…

Prestar atenção nas paisagens, nos silêncios, nas vozes que vêm da rua. Lá, naqueles dias sem liberdade, a solidão era tanta que as vozes de fora me falavam nitidamente, e eu passava a acompanhá-las e também a esperar por elas. O latido do cachorro me fazia lembrar de uma vida tranquila, de crianças gritando dentro da casa, do marido fumando na janela, da mulher lhe preparando a comida. O choro de um bebê me fazia recordar meus próprios choros noturnos, minhas insônias frequentes, esse gritar diante de um nada, esse gritar pela existência, acalmado com três ou quatro tapinhas.

Eu e meus sonhos, minhas vontades simples. Eu e a causa operária. Quais serão os motivos de uma vida? Dziodzio passearemos ainda de barco, verdade? Sinto que não tenho em nenhum lugar o meu canto, que não existo em lugar algum e não vivo como eu mesma. Mas os sonhos, quantos eu fiz, quantos eu tive. Como contei os dias, preparei a casa, comprei móveis…Sempre esperava pelo meu momento, por alguma chegada, mas vivia pela revolução, também ela uma espera, entre eu e ela. Mas devem ser assim as grandes causas, elas tiram um pouco de nós, nos convertem em sonhos, mas de repente são mesmo nós, valem a pena e mesmo derrotadas vencem, por um momento, por uma frase, por uma lágrima verdadeira, vencem nesta terra onde cadáveres se movimentam sem perceber que estão mortos.

Nunca me será permitido? Nunca? E a essas figuras que pensam, que ousam parar no meio da multidão? Que se retiram… Aos que se sentem perdidos e repousam as mãos sob o queixo e simplesmente se entregam a uma longa e por vezes triste reflexão. Se pararmos para olhar seremos todos tão tristes e profundamente felizes. Não tocados por uma tristeza da impotência ou da resignação, mas pela tristeza que percebe como um mundo belo, tão belo, também serve de palco para outro tão egoísta e mesquinho.

Como aquele senhor já velho, guarda da prisão, que soletrava as notícias policiais sem sequer entender propriamente o que vinha dizendo, pelo simples prazer da literatura. Ou aquele velho que simplesmente canta canções já antigas, ninguém presta muita atenção, talvez ele também não entenda muitas dessas canções, ou do mundo, ou da vida, mas ele já viveu…viveu…

Permanecer sendo um ser humano. Ser humano é o mais importante de tudo. E isso significa: ser firme, claro e alegre, sim, alegre apesar de tudo e de todos, pois choramingar é ocupação para os fracos. Ser humano significa atirar com alegria sua vida inteira “na grande balança do destino” se for preciso, mas ao mesmo tempo se alegrar a cada dia claro, a cada bela nuvem, ah, eu não sei dar uma receita de como ser humano, eu só sei como se pode sê-lo […] O mundo é tão belo, com todo o seu horror, e seria ainda mais belo se não houvesse nele os fracos e covardes.

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A tarde quase morria por trás do pequeno sobrado que era a última construção de uma rua sem saída. Já as folhas iam quase todas caídas nos fins daquele outono que insistia em demorar-se. Os mesmos silêncios, as mesmas coisas de sempre. A menina, quase moça, do primeiro andar, escrevia ligeiramente atenta, mirando e imaginando as imagens que ela ia aos poucos fazendo brotar do papel. A caneta repetia seus indecisos movimentos de ida e vinda, ida e vinda. Circulava, pontuava, grifava, rabiscava…
A mulher do andar logo acima esfregava a roupa no tanque. O pano esticava, enrugava, molhava, torcia, secava e, mesmo assim, a limpeza não superava o encardido dos dias. O moço, vizinho, do mesmo andar, fitava por trás da máquina de fotografia a mulher debruçada sobre o tanque e fazia com que a lente buscasse as suas pernas entreabertas que também já iam encardidas pelo seu próprio tempo. Elas, não as pernas, as lentes, dilatavam, apertavam, aproximavam, afastavam, escondiam, mostravam e fugiam em direção a um corpo que insistia em esquivar-se delas.
No último andar, o velho solitário espiava da sua cadeira de balanço o festejar do Nada na rua lá em baixo. As primeiras formas corriam, as últimas desaceleravam. A cadeira ia pra frente pra trás, e depois repetia, pra frente pra trás, nunca mais parava.
Ao pé do prédio, as formigas faziam seu trabalho. Corriam alinhadas, levavam a comida e depois buscavam. Fugiam dos pedestres apressados e muito trabalhavam.
Nada demais nos ritmos aqui esboçados. Ao olhar todos juntos e separados, a caneta que deslizava sobre o papel, a roupa que sobre o tanque se esfregava, a lente que abria e fechava, a cadeira que ia e recuava, alguma voz ainda faltava.
No primeiro andar, a jovem menina Francisca escrevia o que lhe acontecera naquele dia. Havia passado por duas reprovações, uma delas de natureza puramente prática, outra espiritual. Como podem duas coisas tão opostas emergirem juntas? Mas assim fora. O que faltou pra passar nas provas do semestre foi apenas um ponto vírgula setenta e cinco; e o que faltou para que ele enfim lhe olhasse foi apenas uma esquina e mais alguns segundos. As faltas venceram as vontades e a prova ficou por não passar, o olhar por não encontrar. Tinha esperança de que as pobres letras a compreendessem. Ah! Tão solicitadas essas linhas informes e precipitadas! Ela não rimava muito bem os versos que recebiam as memórias de seu dia. Mas isso não tinha a menor importância. Meninas gostam de poesia, assim como os meninos gostam das mocinhas, assim como aquela tarde que quase caía gostava, enquanto o escondia, do dia que já se ia.
Tais como as letras de Francisca, as lentes de João, o fotógrafo do segundo andar, também não tinham lá aquela técnica e até fugiam, mas sempre tremiam. Buscavam Paula, a das pernas, mas não a conseguiam enquadrar. Não se sabe ao certo se lente ou corpo, mas algo sempre escapulia. Uma coisa apenas não se ia: o sonho e o desejo de tocá-la, imobilizando-a entre braços, lentes ou armadilha.
Olho escondido na lente e João sonhava em ser aquele pano. Sujo, encardido, molhado. Mas ele estaria ali, entre seus dedos aconchegado. Ela esfregaria suas mãos nele, e o torceria virando um pouco pra cá, um pouco pra lá. Ela o jogaria contra a pedra do tanque, fazendo-o vir de cima pra baixo, de baixo pra cima, e ela o molharia todinho, com água fria, acariciando suas bordas pra que todo sabão pudesse enfim desfazer-se, para que o pano limpo de novo pudesse ficar, um novo velho pano, sem as tantas manchas de antes, mas com ainda algumas manchas de outrora, quase seco, quase livre. Mas de repente, era ele homem assim somente. Tão pouco, fotografando um instante tão distante quanto desejado, imobilizando-se com ele.
E se os instantes para João eram longos e imóveis, os dias sempre eram curtos para Paula que cuidava da casa e dos dois filhos pequenos. O marido, sempre em dias arrastados no chão da fábrica, tinha noites mais longas ainda quando chegava em casa e nunca a deixava dormir. Zé de Deus sonhava com o barulho das engrenagens, com os gritos do patrão, com a lerdeza dos seus encarregados. Era ele funcionário do setor de montagem de uma grande fábrica de automóveis que refletia o progresso daqueles tempos e sinalizava permanência desse mesmo progresso para o futuro. Até que gostava do emprego, falava muito a Paula de como os carros saíam modernos, brilhantes, feito estrelas ofuscantes da linha de montagem para irem brilhar nas ruas pavimentadas, nas casas enormes dos homens do dinheiro que ajudavam o país e o povo brasileiro a ver do que eles eram capazes. Zé quase os ouvia dizer de como no Brasil, das mãos brutas dos trabalhadores, vinham peças finas, delicadas, tão modernas como a pátria jamais sonhara!

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Henry Matisse, Mulher lendo

No lento sussurrar
da saudade, dúvidas
mil invadem. Mas
o futuro, este não
é mais que miragem.

Os interiores são regiões abruptas da alma. Fétidas. Expulsam bom senso e as demais moralidades, servem-se fartamente de suas próprias leis, enlamam-se em misérias e toda sorte de perversões. Cinzentas, avermelhadas, negras, suas variações são múltiplas, suas delicadezas profundas, sua sensualidade quente e rasteira. Os interiores não são para qualquer um. Solitários e úmidos, às vezes, ou cheios de barulho e melancólicos quando sofridos por qualquer onda de frio. Pacientes, esperam pela mudança que nunca vem, pelos ciclos eternamente a repetirem-se. Porque é dos interiores a mudança que nada muda, o silêncio perpétuo que só na forma de grito se escuta.
As histórias ali são muitas. Contadas e recontadas servem para alimentar sua cadeia interminável de misérias e vãs piedades e inspirar boas condutas ou potencializar as más. Foi assim que em uma pequena vila completamente esquecida e desencontrada, plantada nos interiores do Brasil, ouviu-se dizer de duas mulheres que viviam juntas. Uma era avó e a outra sua neta. A primeira já era mulher havia um bom tempo, contava já os seus sessenta anos, enquanto a segunda apenas começava a trajetória nem sempre fácil de ser mulher. Viviam em casa simples, pequena e mofada. Antiga, a construção nunca mudara e esboçava nos trincos nas paredes as marcas do tempo, na tinta já descascada os humores dos climas quentes daquelas paragens e, no cheiro forte e denso, os sinais de solidão e do esquecimento.
As duas nunca saíam. Nunca tinham visto nada que não fosse a vila onde viviam. A velha lhe decorara os campos secos e as ruas sem árvores, onde as poucas e espalhadas casas se expunham ao sol forte de quase todos os dias ou às chuvas que vinham de vez em quando pelas beiradas. Nunca vira o mar ou outras paisagens, montanhas só as imaginava, metida que estava no meio de toda aquela planície que nunca mais acabava. Só conhecia estradas retas, rios tímidos e acanhadas árvores. Mas não tinha vontade de conhecer outras geografias. A sua lhe bastava. E bastou-lhe tanto que ela agora passava os dias deitada em um sofá que a prima Dinorá trouxera de Paris, todo moderno, cheio de luxos e cores, vindo do exterior, a contrastar com aquele pedaço de vida que se comprazia em descansar sem estar cansada, em olhar para tudo sem olhar para nada. Um interior seco, tão seco como o que a abrigava.
Dona Marina enlouquecera sem que ninguém nunca lhe soubesse propriamente a causa. Ela inclusive parecia mais sã do que todos ao seu redor, mas, ao mesmo tempo, parecia mais louca do que todo um hospício. Desgostara-lhe a vida, era o que diziam as comadres vizinhas, e da depressão e fastio veio a demência, a fragilidade, a enorme dependência, a infantilização quando velha, a humilhação nem sempre percebida, a insegurança de quem nunca esteve onde gostaria. Camas variadas a abrigaram antes de chegar a esse sofá vindo de tão longe, chique e pomposo, muitas delas bastante sujas e ensebadas. Marina quando chegara ao vilarejo, ainda menina, logo caíra nas graças da prostituição, que da capital rapidamente se espalhava rumo ao interior. A mãe pusera-se ensandecida depois que o pai a abandonou por uma dessas mulatas quentes e oferecidas. Nesse meio tempo, Marina tornou-se protegida de uma mulher com excessivo cheiro de perfume barato que era dona de uma escondida e quase imperceptível casa de mulheres que a educou e também a iniciou nos prazeres da vida. Eulália, que assim se chamava a benfeitora de Marina, apresentou à então moça os homens mais abastados da região, políticos da vila e das cidades maiores que a cercavam, padres, advogados, professores, empresários, velhos, moços, artistas, homens vazios e cheios de espírito, homens sedentos de amor e outros sequiosos de vícios.
Por um dos tantos homens apaixonou-se, já sabendo que essa seria a grande desgraça da sua vida. Ela ia por essas épocas com vinte e tantos anos e era ele da mesma idade. Grávida e abandonada, Marina continuou vivendo sob os favores de Eulália e continuou trabalhando enquanto pode, mesmo com todos os riscos. Muitos anos depois, viu escorrer-lhe por entre os dedos a filha que, assim como ela, seguira o mesmo destino. Muitos ao comentar o episódio diziam que não podia ser diferente já que ainda na barriga da mãe a filha já escutava os gemidos dos prazeres forçados e o cheiro dos ambientes mais libertinos. Fugida com um aproveitador de quinta, a única filha de Marina foi morrer em um desses hospitais que mais parecem cortiços espalhados por esses interiores sem fim, e deixou a neta que agora acompanha a avó miseravelmente ensandecida. Marina prometera para si mesma que a neta nunca teria que se deitar com quem ela não queria, sentindo aquelas barrigas encharcadas de suor, aqueles bafos de pinga barata, aquelas mãos ásperas, aquele gozo doentio e alucinado ou correndo o risco de quem sabe apaixonar-se por homens que nunca a mereceriam de fato.
A neta seria diferente. E realmente fora. Mas como de destino não se foge, a diferença veio lhe ser fatal.
Nina desde sempre enfastiara-se daquela cena sem mudanças, de uma imobilidade mórbida, inócua, ofuscada. Quando a mãe a deixara, ela tinha uns dez anos de idade e a avó já alcançava os cinquenta. Nesse tempo já não exercia mais os antigos ofícios e não podia mais contar com Eulália que falecera. Vivia de trabalhos de costura e de ajudas de antigos clientes que fizeram-se amigos por uma razão ou outra. Muitos sempre buscaram em Marina apenas uma companheira que lhes desse conselhos, talvez, essas coisas só sejam acreditadas por corações ingênuos, mas eis que elas existem, e muitos dos amigos de Marina até hoje a ajudavam em troca de pequenas palavras que lhes provocavam grandes efeitos na alma.
Os primeiros dez anos passaram-se assim muito bem. Até que a avó começou a perder o juízo e ficar naquele estado que há pouco descrevemos. Nesse tempo, a existência compartilhada com uma avó da qual não se podia extrair qualquer tipo de certeza em relação ao estado mental e temperamento, apenas reforçara o imenso tédio que as regiões interioranas causavam a Nina. Alguns fatores, no entanto, atípicos para a solidão e isolamento de sua existência fizeram dela tudo que, por causas naturais, ela não viria a ser.

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Salvador Dalí

Conto

Ele era só tristeza. Parado. Corpo todo esburacado. Humor ensimesmado. Não conseguia ficar alegre com a alegria dos outros, ela mesma o sufocava. Arrastava corpo em chão frio e não sentia nada. Era só tristeza misturada com a gota da ventania. Os olhos a revelavam. Insincera, desnorteada. Tristeza crua que olhar nada não olhava. Parava e ia se ficando pelos rumos de uma vida meio desencontrada. Não sabia por que ela vinha, tinha incertezas e alguns medos achegados. Sofria de amor sem nunca ter amado. Se olhava e via apenas os restos, a vida renegada. Nem em mudanças ele mais acreditava. Por trás do verão sempre havia o mesmo inverno, por trás do mesmo inverno, sempre havia desnaturado verão. Sentia desconfiança perto dos que acreditavam e vergonha por não conseguir mais acreditar. Sei não, mas algo nele sempre se tocaiava. Sempre assim, meio no mundo, meio no infinito, meio sem casca de fim. As mulheres então, detestava. Não gostava delas, do seu ar valente, da sua vontade de ser de repente. Desconfiava de seus olhares mansos, doces e tão traiçoeiros. Tudo sempre o abandonava, desde o conforto do tempo até o cheiro da mulher nunca amada. Ele ficava pelos últimos, sempre sozinho, virado para o silêncio. A solidão o desconjuntava demais, talvez ela é que fosse apagando suas esperanças. Ouvia apenas vozes distantes e da sua já nem lembrava o tom. Ia gostando mais das coisas, menos das gentes. O momento de ver uma flor crescer lhe dava certa emoção, ainda, coisa rara. As pétalas despontando como santas sublimes, a luz do sol iluminando todas as suas escondidas partes que de repente se abriam para um escolhido que, pobre, elas nem percebiam, que na primeira chuva a abandonariam. Nisso ele via os comuns entre flores e mulheres, as mais belas geralmente eram as mais sozinhas, as outras tinham medo de chegar perto e o sol as iluminava apenas um pouco, pensando que elas já tivessem muito, as deixavam sem nada, sempre sozinhas. Assim ele também se sentia, o que deixava flores mais próximas ainda. O crescer de um corpo. Não havia coisa mais bela! E em breve ele dançaria, divino e límpido, comungando céu e terra, escorrendo beleza, beleza infinita. Que também o entristecia. Pra que tão bela se logo vem o tempo, erva daninha, e explode as rosas tão meninas. Marcando tudo que vê, mudando sem mudar nada, levando sem deixar nada. E ali ele indagava pra que toda essa vida? Sim, reconhecia vez ou outra alguns momentos de felicidade, não propriamente nele, ele não os tinha, mas nas pessoas ao seu redor, mas não os achava tão infinitos e logo via a tristeza, crescer feito trepadeira escondendo tudo, sombreando, tudo era ciclo, ele sabia, mas os ciclos doíam demais e, nada, nada, permanecia. Até o amor, ora vejam, que ele um dia tentou acreditar lhe pareceu pálido certo dia. Amor, feito criança, nunca vivia a ponto de envelhecer, nunca persistia. Assim eram as tempestades, mas assim também eram as alegrias. E os sonhos, ah, os sonhos estavam cansados. Cansados de existir sozinhos onde na verdade eles não existiam. Cansados e burros, mansos feito ovelhinhas. No destino ele vez ou outra pensava, único pensamento que quem sabe o consolava, pois do consolo só ele mesmo sabe, pensava que seu destino fosse mesmo a tristeza, já que não conseguia se livrar dela, ao fugir, para ela corria. E pensava que a vida também tinha seu destino, ser provisória e sozinha, como as flores belas jogadas no jardim. Pensou em levantar, ir até o portão, mas estava sem vontade de ver a vida, era sempre a mesma coisa, pernas vinham e iam…

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Conto

As casas estendiam-se na planície tímidas, envoltas em certa melancolia doce. Salpicadas iam por toda grama verde, pontos distantes para quem olhasse de cima, pontos enormes para quem as visse de baixo. O clima daquelas paragens era seco e íntimo, fazendo com que todos fossem de certa forma muito próximos de todos.
Zé do Tempo viu o sol nascer por entre os quadrados enferrujados de sua janela. Olhou o caminho de ida e sem querer já imaginava o caminho de volta. Impregnou-se do cheiro das flores cruas e pálidas e, no mesmo instante de todas as mesmas manhãs, lembrou-se de uma mulher.
Em silêncio esperou que Serena viesse lhe fazer companhia. A onça apareceu desconjuntada como quem quase não dormira. O corpo ia soerguendo-se aos poucos. A boca escancarou revelando os dentes afiados e secos. Os olhos faiscaram em chama, tomados, sem querer do fogo que vinha do sol. Recostou-se em Zé do Tempo e ali ficou, sonolenta e árida, a esperar.
Do outro lado da rua, Ana da Lida descia, levando nas mãos sua bacia cheia de roupa. De uma beleza murcha, gasta. Uns diziam que ela de tanto amar já enlouquecido havia, outros a tinham como santa, embora ninguém soubesse exatamente o porquê.
– Bom dia Zé do Tempo. Hoje venho mais tarde, tenho contas a contar.
– Pois aqui estou esperando a desfiar.
Ela olhou sem medo na direção de Serena e dando-lhe as costas seguiu para as bordas do rio.
– Se aprume Serena. Lá vem a triste bela.
E por trás do sol da manhã, choveu por todo aquele dia até o começo da noite. Uma chuva sôfrega e ansiosa, entremeada por um ou outro arco-íris, que caía, feito vários fios de plásticos, rompendo a gravidade.
Assim que o tempo seco de pronto se refez, Ana apareceu e pôs princípio ao seu falar:
– Eu ontem conheci um moço. Chega a dar medo de tão bonito. Ele me viu de longe, mas eu era como se estivesse ali perto. Foi na festa da igreja, bem nos cantos do olho do padre. Ai mas quanto frio que me deu. Os olhos encheram de água, dessas que a gente vê só em dia de chuva, assim como hoje e só, e demoram a voltar. Coração dava pulos, e a alma, a alma se existe acho que se foi de tão espremido que senti todinho o respirar. Aí ele foi chegando, com os olhos, me olhou feito caçador quando espreita a presa, e eu adorei aquele olho. Nem sei se de paixão ou de puro desejo, mas me vi dentro dele, tão dentro que nem tive mais medo do padre. Eu senti que sentia, isso nunca aconteceu comigo e nem sei se ainda acontece um dia. Depois eu me perdi dos olhos dele que fugiram rápido. Olharam um pouco, faiscaram de certa dor e suaram certa indiferença malandra, mas foi justo daí que tirei todo esse gosto e um engomado desassossego.
-Serena guarda pra você. Quando quiser de novo já sabe.
– Sei Zé e Deus lhe abençoe pela chuva.
Tão logo os passos delicados de Ana saíram, os pés enormes e brutos de João Justiça entraram.
– Bom seu Zé, vou logo dizendo. Não é que eu assim arrependido esteja. Arrependimento é coisa de frouxo e eu, soldado do povo que só, não sou frouxo, apenas defendo o que defendido deve de ser. Mas queria guardar um pedaço de uma luta de hoje. Foi bem ali nas beira do riachão. Matei uns doze, de uma só. Vieram encrencar com o patrão e pra mim ordem é só essa, eu mato pra defender. Mas gostei do sofrer de um deles. Tremia, como quem morre de medo até da vida. Olhei bem no fundo pra ele e, pode crê, Zé, vi eu a morte misturada com a vida. Sei que assim não pode ser, mas os olhos aqui de cá viram. Tavam parecendo filhotinho quando nasce e cobra quando morre, uns olhos assim de esperança e sono. E eu, ali, encravinhado em mim mesmo, vendo como se passado e futuro juntos. Bonito né! Por demais. Quero ver de novo, guarda aê.
– Já é teu. Sempre.
Zé do Tempo me guarde o primeiro sorriso do meu filho, me guarde o último abraço de minha mãe, me guarde o som daquela música, me guarde o suor daquela noite, me guarde as flores da última primavera, me guarde a história daquele velho amigo, me guarde o caminho, me guarde o primeiro e o último e o durante também, me guarde o sabor daquele doce, me guarde o sono daquela tarde, o fugircismar da paisagem…
Zé do Tempo guardava sem pedir nada em troca, e velho ia ficando de guardar e dar. Serena sugando com os olhos todo seu pensar.
Zé da Justiça voltou dias depois para olhar. Penetrou bem fundo no fundo do olho da onça, sem medo, apenas a olhar. O homem de muitas mortes que dar conta, chorava e vivia de novo a mesma emoção de quando assistira vida e morte se encontrar.
Ana da Lida cada vez que vinha olhava a onça quase como se apaixonada por ela já estivesse ou ainda fosse ficar. E via de novo o olhar de seu belo moço, rasteiro e senvergonhiciando, feito menina ela se dilatava em redes tantas de amar.
Várias eram as Anas, os Joãos, as Lidas, as Justiças, as alegrias e as amarguras a rumarem todos em busca de um só Tempo que, sozinho, se ia sendo.
– Vem cá Serena. Descanse cá teus olhos. Mas ora veja, aqui nem há nada, quanto fogo quanto for o sonho, quanto sonho, quanto for o acreditar, mas fazemos o bem, para quem às vezes pelo mal vagueia demais. Não me deixe esquecer de ver o padre. A cada dia vejo que dos mandamentos o mais difícil de cumprir ou aceitar é aquele a falar sobre o falso testemunho. Como? Se faz mentir tão bem! Deixe ver um pouco também. Quem sabe não a reencontro. Em acreditando, tudo se vê.
E não é que vejo. Já vem se desnudando a forma daquele sorriso, o calor daquele corpo, o fogo daquele tempo. Sei, assim como sei deste tempo, desta chuva, deste sol, desta seca de arfar coração, sei que a vida não se guarda, tampouco se leva. Ela se faz e só. Mas como é bom te olhar. Serena.

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CONTO

Já houve quem dissesse que os olhos são o espelho da alma. Reveladores das mais obscuras profundezas do ser. Para mim não. Para mim os olhos sempre foram estátuas, testemunhas do enigma do outro, da impossibilidade de enxergá-lo de fato. Inútil.
Daquele dia, eu me lembro do trote largo dos cavalos. Ela observava a cena debruçada na janela branca, bem branca do seu quarto. Eles saíram em grupo. Eram quase seis e voavam em direção ao horizonte de suas vistas redondas e castanhas. Um belo movimento ia desfilando em torno dos meus olhos. O corpo perfeito. Os membros fortes, o pelo brilhando, chegava a faiscar emoldurado que era pela luz do sol. As crinas dançavam ao vento, feito cabelos esvoaçantes. Os cascos certeiros levantavam com certo charme a poeira do chão.
Eles simplesmente corriam…
Eram como uma menina que se reconhece pela primeira vez em frente ao espelho e avança ávida em direção a si mesma, na busca eterna da sua própria imagem fugidia e rasteira.
– Pai! Eu quero um quadro. Um quadro bem bonito pra pendurar aqui na parede bem do lado da minha cama e quero um quadro de cavalos. Correndo.
– Ah! Meninas! Não têm mais o que inventar. Depois…
Depois de alguns dias ela conseguiu o quadro. Tia Zumira comprou no mercado lá da cidade. Era bem bonito! Ela escutou seu pedido quieta, como quase sempre estava e, quieta, como quase sempre fazia, comprou junto com as suas compras para o almoço de todos os dias, o quadro mais bonito que na loja havia.
– É lindo! Você vai adorar. Podemos pensar agora onde vamos pendurar. Aqui bem pertinho vai ficar bom? O que você acha?
– Só quero correr com eles. Viver correndo, com os cabelos assim oh, bem alto, voando…
– Humm menina! Sonho assim demais não pode fazer bem a ninguém. Teu pai é tão bom, te dá tudo que precisa. Olha esse quarto que lindo. Todo branquinho, cheio de enfeite! Ele colocou um mundo aqui dentro pra você. Um mundo só seu. E você ainda reclama.
– Ele criou aqui dentro o mundo dele, o mundo que ele quer dar pra mim. Eu não sou feliz.
– Mas nem com o quadro que eu te trouxe? Ah, achei tão lindo. Corri pra comprar achando que você poderia ficar mais alegrinha! Já te disse: não confronta. Se você é a parte mais fraca não confronta, desvia.
– Meu quarto. Qual é o meu mundo? Por que ele não quer que eu saia, que eu veja nada?
– Beleza! Beleza quando vem demais nunca é boa. Igual amor, fortuna e sorte. Já dizem os provérbios, desconfie quando eles estiverem sorrindo pra você. Seu pai sabe que a beleza lhe sorriu demais e ele teme perdê-la para um mundo que ele também não dominou, sobre o qual ele não tem controle. Um mundo que pode te levar embora. Pra longe, pra um lugar distante dos olhos dele.
-Ele me mata. Ele está me matando um pouco todo dia. Eu nem sei mais quem eu sou e mesmo assim eu ainda sonho! E como sonho! Mas eu vivo e gosto de um mundo que não existe, porque eu não sei qual é o mundo que existe. Ninguém me deixou nunca ver.
– Acalma seu coração criança. Vou te deixar…
A menina ainda pode escutar depois que ela cerrou por trás de si a porta. “Idade complicada essa. 20 anos”!
Depois, ao longo de todo vácuo das noites, apenas ouvia o sussurro do vento, o respirar da lua e o mexer do tempo que ia passando orquestrado pelo choro baixo e quase imperceptível da sua querida Zumira. Era assim todas as noites. Ela sabia que Zumira não era feliz, deixara pelo caminho muitos sonhos. Mas sentia que ela também não era infeliz.
O quadro ficou belo na parede branca do seu quarto. Um mundo representado, pintado, emoldurado às costas de um mundo real. De vez em quando tirava os olhos das páginas dos livros e contemplava obliquamente a sua corrida imóvel. Quando a história de uma tradicional família surpreendida com a chegada de um parente distante ou a história de uma mulher de alegrias genuínas e suaves onduladas em pranto e superstição, dava uma trégua, ela então podia olhar os músculos a remexerem-se no limite ínfimo da superfície de uma tela.
Hoje à noite dormiria pensando no destino de Estela, no castigo de Ariadne, na sorte de João, na solidão de Ana. Guardaria as palavras do velho Sebastião e ouviria o canto da mesma sereia que perseguiu os olhos e os pensamentos do mais astuto dos marujos por uma vida inteira, e tentaria, em vão, imitar os gestos da dança de Rubi, cujas formas perfeitas do corpo e perversões dos olhares eram capazes de nunca mais se fazerem esquecer pelo mais cristão de todos os sensatos. Mas no fim, ela seria apenas aquela menina que gostava de sentar ao lado dos mais velhos e ouvir em silêncio as suas histórias.
Pela manhã, Zumira acordou com o barulho do balanço. Engraçado! Desde muito tempo ninguém se balançava ali. Apenas a menina quando nascera o pai deixara que ela se balançasse em suas mãos um pouquinho. Como se fosse ontem, ela ainda o escutava dizendo: “Ela vai se chamar Rosa. Mas Rosa Seu Antônio? Por quê? Porque as rosas não são deste mundo”. Foi uma das poucas vezes que ele lhe respondeu sem dizer que não era da sua conta, acho que foi de tanta felicidade. Ele não queria perder mais nada. A mulher já se fora depois do parto. Sem saber que contra o destino pouco adianta cautela, quando foi Rosa crescendo, ele guardou-a para si, guardando-a de si.
O rangido de metal velho, gasto pelos anos, atormentou os seus ouvidos remoendo as suas lembranças que feito porcelana quebrada insistiam em querer reencontrar-se. Quis ver a menina. Passou pelo quarto do pai. Ele ainda dormia. A porta mantinha-se entreaberta para que ele não perdesse o sopro do mundo diante de si, mas a respiração já era funda, denunciando o estado de quem do mundo, ao menos por alguns instantes, já se perdeu.
Ela descobriu a porta de Rosa fechada. Como sempre. Girou a chave que só ela e ele tinham. Mas os olhos não olharam a menina sobre a cama. Foram sugados pelo quadro. E detiveram-se no olhar, no pequeno e quase inconcebível olhar de um dos cavalos que corria desatinado. Zumira que sempre acreditara nos poderes do destino, que sempre tivera medo e saudade, que nunca fora feliz nem infeliz, mas que tinha o coração mais puro de todo o mundo de aí fora, sentiu então, pela primeira vez em seus anos de mundo, uma profunda tristeza como nunca então sentira. Nunca vira um olhar tão triste, tão feito de pura tristeza. Dos cavalos do conjunto era o único que mirava para fora do quadro, não o perscrutava por dentro. Não olhava o horizonte da corrida como os demais. Olhava de fora pra dentro. Talvez não quisesse ele correr ou olhasse para outra corrida. Mas a tristeza era pura, de uma pureza crua e dura, e os olhos diziam, falavam a sua língua, inexistentes eles existiam para Zumira que, mesmo não vendo, se alguém lhe contasse, acreditaria.
Do fundo da garganta soltou um grito de terror.
A morte tem olhos arregalados – de vida. Só então olhou para a menina que delicadamente estava deitada protegida pelo seu cobertor florido. O mais belo de toda região, com flores pintadas, eram rosas, margaridas e girassóis. Todas elas, como ela, ausentes desse mundo,inclinadas para algum mundo próximo, distante, inapreensível. As mãos pousadas segurando a face esquerda. As pernas bem encolhidas. A mesma fundura de sempre.
A resposta ao olhar que vinha da parede foi certeira e ali, de dentro do seu quarto, vivendo as emoções e os amores de um mundo que nunca existiu, ela escapou, como o orvalho que escapa da madrugada, sangrou por entre os dedos do pai e partiu, para a mais bela das corridas

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