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Posts Tagged ‘amor’

Matisse

Matisse

(12)

Arcaica. Vejo-a sentada de costas. Um corpo reto, correto, as formas sutis dividindo a paisagem. Os cabelos presos, negros, o corpo todo à mostra, sem vestes. Os braços escondidos em sua frente não se deixam ver. Ela se reserva. Mostra a curvatura sensual da cintura, a timidez dos movimentos breves. Pode estar lendo um livro, ouvindo uma música, ou simplesmente de olhos imóveis arrastados pelo chão. Pode estar pensando feliz. Ou perseguindo-se triste. A tristeza sem nome, a tristeza tão desavisada. Pode ter todas as idades. As costas denunciam uma firmeza atemporal, uma eternidade constante, fora do tempo, no tempo ontem amanhã. Conquistadora de todos que seu olhar atravessam. Persistente feiticeira de graças infindáveis, jeito doce, movimentos como que sedentos de vontade, não cabendo em si de tanta beleza, de tanta sedução infatigável. Vejo-a inteligente concentrada. Passando pelo conhecimento de toda poesia, de toda matemática. Da sabedoria prudente. Também entre sombras pode ser encontrada. Sabe-se lá que névoas a perturbam, que noites de todas as noites, que descida aos infernos, que trama enredada no limiar da vida. Fértil, sempre fértil. Seu largo quadril assentado sobre a cadeira revela tamanha força, expressão de vida selvagem, moldada com a cera da origem quase incendiária. Ela poderia mostrar-me o rosto. Deixar-me ver seus tons, suas marcas. Mas não há chance de olhar-me. Luta em segredo. Contra o mundo, contra si mesma. Nunca. Nunca a saberá por inteira. O outro lado. Alma educada na liberdade. Um verso perdido no corpo pelo vinho sacralizado. Beleza de gestos cheios de saudade. Olhar-te sem dúvida apavora. Mas pedes o que quiser. Mulher.

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Magritte

Magritte

Antes eu tinha saudade do que
não tinha tempo. E ficava a olhar
teu tempo farto em tudo aquilo
que nem com todas as minhas mãos
eu poderia pegar. Que nem com todos
os meus livros e rituais eu deixaria de amar.

Antes eu tinha uma velocidade que
hoje eu nem tento mais. E rasgava
minha voz com todos os meus gritos
e gestos, com todos os meus escândalos
insanos e insaciados por dentro, por dentro
sedentos de tudo que ficasse depois do vento.

Antes eu tinha as graças da desrazão e
você. E você sem muito esforço me
arrastava para o mar, me condenava a
te olhar, como se soubesse, e eu ficava.
Como se pudesse, em repetida ascese,
trazer de mim a parte que não me conhece.

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Gianlorenzo Bernini, O êxtase de Santa Teresa (1646-1652)

Gianlorenzo Bernini, O êxtase de Santa Teresa (1646-1652)

(8)

Foi quando eu encostei de novo meu rosto no teu, e ficamos ali, apenas escutando o sopro alucinado da respiração, adiando o instante do beijo, do gosto tardio, sempre lembrado. Os olhos molhados, saturados de desejo, imaginando as formas do corpo, o cheiro, a intensidade do toque, a lógica mil vezes repetida, sempre única da atração. E eu via tua boca, via minhas mãos, eu escutava como uma louca em êxtase o quanto pulsava meu coração. Revia todos os lugares, a praia tão reta e calma, a mata densa, a noite em derramamento de estrela, a dedicatória, a aula, o escondido, o sorriso, via todo o medo que nascia de mim, e morria, assim que me encontrava a vontade. Escutava as mesmas músicas, andava no ritmo das mesmas caminhadas, e conversava muda, calada, o diálogo de todos os nossos séculos. E, renascendo a surpresa do primeiro encontro, te encontrava de novo, e de novo, e de novo, no mesmo respirar enlouquecido, no mesmo beijo violento e delicado, e eu ouvia os gritos, e eu sentia minhas lágrimas. Nada, nada além de eternidade, tua alma entregue em tempo de saudade. E agora, no silêncio, você vai dizer.

Read Full Post »

Imagem: DivulgaçãoPodes ver a passagem
do caos ao cosmo.
Perceber escondida
nas vestes da nobreza
os ardis profundos
da morte.

Pode se fartar
no banquete.
Dividindo a vastidão
com a pobreza,
embriagando-se com
intermináveis deleites.

Podes conceber o prazer
depois de nascer da beleza.
Podes implorar o perdão
de todos os deuses.
Mas não há de trair
a sua natureza.

Podes plantar
armadilhas
das quais a maior
será contra ti mesmo.
Pois há em ti
tanta miséria
quanto há fartura.

E apenas aquela
que deixaste vagar
responde aos teus instintos.
Por viver nela
o denso erotismo
que só junto ao teu
se pode salvar. (MV)

Feliz ano Eros a todos os leitores!

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(1)

Fecho a cortina. Já que não pode cair a tempestade. E eu só pedia pela tempestade. Longa e forte, forte e longa, contrariando as expectativas de que o que é longo não pode ser forte e vice-versa. Mas não veio minha tempestade longa. Deixou-me na imaginação o desejo do céu escuro, cinza, em potência de desabamento. O desabamento de tudo. As roupas estendidas no varal. A moça lavando a calçada na mais perfeita calma de seus dias iguais. Os livros (inúteis) enfileirados na estante, jogados no chão, abertos em páginas voluntariosas, os livros encerrados em caixas, esquecidos. As caixas. Os vasos de flores em cima da mesa. Os enfeites de Natal. As bolas coloridas. As comidas dentro da geladeira. Os pratos, copos, louças, xícaras, pires nos armários! As roupas multicores no guarda-roupa. Pra que tanta roupa? As maquiagens, os desodorantes, os sabonetes, os perfumes. Os contratos de aluguel, os papeis de corrupção. Sim, as peças de baixo, ah, as peças de teatro. Os personagens. Os passos de dança. A cama onde deito para não dormir. A cama onde contemplo a vida, onde percebo a insistência dos pensamentos. Não veio a tempestade. Longa e forte. O meu desejo de que tudo fosse pelos ares. Explosão! As coisinhas de que não gosto. A casa. A dor. A velha fotografia. (MV)

da série Caprichos, Goya

da série Caprichos, Goya

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Imagem: Divulgação

“Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamentos e estados d’alma (em prosa e em verso) nos diários de capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou pombinhos brancos levando um coração no bico. Nos diários mais simples,cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro. Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de mulher casada só podia ser bandalheira. Restava o recurso do cadernão do dia-a-dia, onde, de mistura com os gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim do mês, elas ousavam escrever alguma lembrança ou uma confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola” (p.14)

“Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas,
ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se
deles, dizem coisas amáveis, mas guardam
certa distância, não invadem o casulo
imantado que envolve os amantes e que pode
explodir como um terreno minado, muita
cautela ao pisar nesse terreno. Com sua
disciplina indisciplinada, os amantes
são seres diferentes e o ser diferente é
excluído porque vira desafio, ameaça. Se o
amor na sua doação absoluta os faz mais
frágeis, ao mesmo tempo os protege como
uma armadura. Os apaixonados voltaram
ao Jardim do Paraído, provaram da
Árvore do Conhecimento e agora sabem”.

Lygia Fagundes Telles, A disciplina do amor (1980)

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Dizem do fim o que termina,
o que não mais se deixa ver.
Tudo que escorre pelos dedos,
aquilo que corta e faz doer.

Deixa na alma a ausência,
a certeza de um nunca mais.
Pode até disfarçar uma presença,
mas não há como voltar atrás.

De amor, de casamento, de ano…
Os fins às vezes enganam.
São tão misteriosos quanto
o destino daqueles que amam.

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