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Posts Tagged ‘Cézanne’

Cézanne

Cézanne

O presente é o melhor
de todos os tempos.
Há nele o ávido do instante
novo.
Nada mais que o existir em
contrastes e contornos
plenos. Nem imagens velhas,
tampouco miragens altas.
Beleza do gesto vivo
em ato.
Calor ainda fresco
do cheiro do mormaço.
Pressente o presente
e nada mais existe.
Só o delírio que nasce daqui
tímido, insiste.

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Paul Cézanne. The Strangled Woman. 1872.

No fundo da madrugada há um silêncio,
e no fundo do silêncio há uma tristeza.
A tristeza que não vejo. Mas de dentro
dessa tristeza sai um grito de desespero,
desespero mudo que não sinto só percebo.

Das bordas de tudo isso fala a dúvida
que eu espreito. E que pode ser só mentira,
vestes sem dono, corpo ou endereço.
E de tudo isso há um copo vazio de vinho
no fundo do qual me admiro no espelho.

Para além de tudo isso todas as minhas
horas e minhas escolhas chorosas.
Na minha falta fica um pouco de mim mesma.
Para além de tudo isso minha cama,
minhas fotos, minha infância, meu medo.

No fundo do qual há um silêncio
longo, desses que ninguém entende.
Escuro, desses que todo mundo teme.

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Cézanne, Crisântemos

No silêncio de almas
tímidas e amenas
pouco se diz, muito se lamenta.
Não é calma o que
ali se representa.
Pode ter os ares do cansaço
ou do sofrimento de quem
afogar-se deixa pela tormenta.
Espíritos mais inquietos
nebulosos tornam-se
com tal passividade de jeitos.
Vão vendo diluir-se sua alegria,
sua fala doce vai compondo
tons de melancolia.
Mas assim ensinam por esta vida…
Pra que tanto ar, tanta voz,
tanta cor, tanta dor,
tanto sonho, tanto mar…
Pra que tudo isso se
no lugar do verde
está o cinza a nos esperar
e o vazio dos olhos mudos,
e o coar do tempo
indiferente a flores ou pedregulho.
E as vontades insanas
prontas para de nós fugir,
rebentando vales e sonhos
do que há de vir.
Mas o que há de vir?
Já aqui estamos a pensar de novo
no tempo depois do aqui
e vozes nos deitarão em silêncio,
seremos secos e sedentos,
porque assim é o homem,
por fora e por dentro.

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Madame Cézanne com saia de listras, 1877
[retrato de Hortense Fiquet-Cézanne, esposa do pintor]
Paul Cézanne (França 1839-1906)
óleo sobre tela, 73 x 56 cm
Museu de Belas Artes de Boston, EUA

Hortense Fiquet-Cézanne era a esposa de Paul Cézanne, artista impressionista francês que revolucionou a pintura moderna. Cézanne pintou alguns retratos de sua esposa que não gostava nem um pouco de posar para o marido. Ela dizia que Cézanne não sabia terminar seus quadros e considerava sua arte limitada e menor que a de muitos artistas da época, como Matisse por exemplo. Para ela, esse caráter inacabado das telas de Cézanne era, antes de tudo, um defeito e não uma qualidade. No entanto, essa atitude de Hortense demonstra que ela passava longe da sensibilidade e da percepção aguçada de um artista como Cézanne para o qual “o acabado é o prazer dos imbecis.”
Ele, como um legítimo impressionista, propunha uma nova maneira de ver e fazer arte. Não importava mais o retrato fiel da realidade, sua cópia quase que fotografada, e sim a reconstrução desta realidade por meio das infinitas possibilidades do real. Cézanne não queria mais aquela arte acadêmica, clássica, que disfarçava as pinceladas. Pelo contrário, ele deixava a nítida marca do pincel em seus quadros, como se fosse uma prova irrefutável da sua passagem por ali, da sua intermediação entre o que ele via e o que ele representava. Ao mesmo tempo, suas pinceladas marcantes visavam ser honestas com o espectador. Para que enganá-lo com uma cena quase idêntica ao real se na verdade qualquer pintura passa pelo filtro do artista, pelos seus sentimentos, traumas e emoções, condicionada e fruto, acima de tudo, de sua capacidade criadora, do rearranjo sutil de elementos que dá aos mesmos significantes significados diferentes, ou de sua criatividade?
Mas o mais interessante, quando pensamos na afirmação de Cézanne de que o acabado é o prazer dos imbecis, é reconhecermos que por trás dela existe o claro objetivo de manter o frescor e a surpresa da criação artística, as suas infinitas possibilidades de conclusão, possíveis somente se o pintor não sabe pintar. No fundo, esse não saber pintar implica outro tipo de saber, o saber que ultrapassa a própria técnica, que a reinventa e a desafia, sem descartá-la, aprimorando-a num eterno saber e não saber. O fato é que o acabado é como uma definição, que limita acima de tudo.
Ao entregar uma obra de arte inacabada amplia-se, de uma forma que ultrapassa qualquer entendimento objetivo, as possibilidades de descoberta, invenção e superação no próprio processo de pintar. Cézanne não queria limitar uma obra, ele queria fazer dela infinita, meio para as mais profundas e incompreendidas emoções. Ele queria que cada um a desse por acabada de acordo com o seu próprio entendimento de fim. É como se ele não usurpasse a função do espectador, preferindo não acabar a obra por ele, deixando que ele a encerrasse na lógica de seu mundo, nos caminhos de sua percepção.
A mim, particularmente, não me atraem os conceitos prontos e acabados. Pra que definir tudo, pra que acabar com perfeição se a maior perfeição é a da liberdade de cada um? A ilusão de dar um fim, que não existe, de materializar uma impressão que muda conforme o passar do dia e o movimento das luzes, é a mais vazia de todas. O acabado pressupõe rótulos, certezas vazias, ausência de criação e limites carregados de racionalidade e secos de emoção. Gosto de dizer que o acabado é uma condenação a uma realidade que se impõe, mas que nem sempre queremos.
Quem vive do acabado e se limita a ele não pode ser feliz de fato, a felicidade por si só não é um conceito acabado, posto que nada é tão difícil de definir quanto ela, afinal, ela carrega em essência o infinito do inacabado, dos sonhos que podemos terminar da maneira que nos parecer melhor. O acabado realmente é o prazer dos imbecis, porque é limitado demais, efêmero demais. O inacabado é o prazer dos que sabem valorizar a gratuidade da liberdade, de fazer-se diferente, é o prazer dos que esperam sempre mais, sem, no entanto, esperar nada.

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