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Posts Tagged ‘Chagall’

Imagem: Chagall-ManWoman

Eu que te chamo
Pra falar de mim
Pra te fazer escutar
Minhas dores, calafrios e amores
E te acho justa
Pra exprimir minhas cores
Todos os meus sonhos
Em ti todos os meus temores
Eu que te uso
Como corpo gasto
Em fim de noite
E pago muito
(Te vendes por pouco)
Eu que te desejo
Como o mais desassossegado dos amores
Minha taça de vinho
Meu resto de sol
Minha dança mil sabores
Em ti me seguro
Pra que não caia
E o solo é fundo
Abismo fim do mundo
Quem não te conhece
Padece mudo
Em ti sou puro delírio
Líquido
Bruto

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Chagall, 1915

Chagall, 1915

Não estaria dado seu recado,
nem pregado às voltas de
todo aquele som desafinando
meu passado. Eu nem teria contado.

Dados todos jogados e você
a olhar assim imaculado.
Como quem promete no fim
do dia. O tal beijo roubado.

Coroado de todos os lados
desde o início até o sim
do pecado. De teu amor só
meu amado. Mudado.

Entoado o ritmo cantado
do tempo de anos vastos e
velados. Eu escolhi verter em
seus lábios. Um sutil obrigado.

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Chagall

Foi em uma noite de maio. Céu claro, vento quente, a lua grande e as estrelas entregues à eternidade do seu momento. A dimensão do espaço era incrivelmente aberta, fresca, transparente. Carregava um delicado perfume do novo e tinhas aquelas cores vivas experimentadas quando dos primeiros sentimentos. Não será tão cedo o dia em que se tornará opaca nos tecidos da sua memória, a lembrança daquela doce noite de maio.
Embalado pelos sussurros e sonhos da noite, o parque se estendia livre, salpicado de luzes, vozes e cores. Com movimentos múltiplos e ocasionais, os brinquedos espalhados por ele se guiavam, giravam sobre si mesmos, davam voltas e mais voltas, impulsionavam-se em direção ao céu, derramavam-se em busca da terra… Nada ali permanecia estático por muito tempo, tudo se mexia.
As pessoas se mexiam. Alteravam-se junto com as máquinas pueris e coloridas ou voltavam a habitar um canto delas mesmas por algum motivo perdido, já ido. Os sisudos de repente eram vistos sorrindo, os estridentes surpreendiam-se serenos, as crianças viviam ainda mais plenamente, sem futuro, ansiosas apenas pelo próximo giro, pela inesperada surpresa; e as coisas iam passando, como sempre passam. As coisas iam sendo.
Naquela noite, ela estava com um grupo de amigas. Iam a uma festa que tinha como um dos cenários aquele singelo parque de diversões. Seu ânimo não era dos melhores e ela conciliava dentro de si sentimentos totalmente opostos. Desenhava no rosto uma satisfação vez ou outra denunciada pela tristeza que não abandonava seu coração. Uma angústia de se estar onde não se devia estar, de existir para os outros, nunca para ela mesma, de sentir a necessidade de ter uma vida, ainda que essa busca conduzisse apenas à falta de qualquer espécie de vida. Ela esboçava felicidades incômodas, sorrisos acomodados, preocupações inventadas, acreditava fingir até mesmo parte de todo esse sofrimento que em alguma instância do seu ser ela acreditava, de fato, que sentia.
O grupo em que se achava estranhamente inserida seguia alegre pelas ruas de terra batida que conduziam às mais diferentes áreas do parque. Os olhares das meninas alternavam-se de um brinquedo a outro, de um rapaz a outro, de um cheiro de bebida a outro de comida. As fomes ali eram várias e novas.
Dentre todas as peças daquele colorido tabuleiro, uma delas palpitou mais do que as outras naquela noite de maio e fez com que os novos olhos das meninas brilhassem mais que o comum. O brinquedo era formado por um círculo que girava alternando luzes brancas e amarelas e a velocidade do giro era tanta que logo elas decidiram por experimentar de toda aquela emoção, de mais aquela emoção na vida que ainda se desnudava virgem para cada uma delas.
Para ela não era apenas o movimento que atraía. De fato, não poderia deixar de ser esteticamente interessante acompanhar um círculo rodando freneticamente e esboçando movimentos de subida e descida enquanto executava uma rota infinitamente circular. Era um balançar espontâneo e harmônico, uma combinação sutil e mágica. O mais interessante, no entanto, e o que a chamou – feito ventania quando chama tempestade – foi a expressão dos rostos daquelas pessoas que ali giravam, inteiras, naquela roda.
Nunca seus olhos lhe revelaram tamanha liberdade. Sim, pela primeira vez ela viu materializar-se aquilo que sempre quisera ver e ter, saber a forma, a aparência, sentir o gosto, o cheiro que fosse. Ali, rodando entre luzes brancas e amarelas, estava a liberdade. Uma olhando a outra. Linda ela lhe pareceu. Tinha a expressão de sorrisos sinceros, largos. Todos os sorrisos que viu naquele pestanejar do instante eram largos. As pessoas riam demais. Por um momento pensou que tanto sorriso assim poderia ser de desespero, o resto do mundo. Mas não. Logo percebeu que aqueles sorrisos não poderiam ser o desespero do mundo, pois o brilho nos olhos de cada um dos que giravam era por demais leve para sustentar o peso de qualquer tipo de desespero. Ali só havia vida, existência circular e risonha.
Só lhe faltava agora experimentar da liberdade que vira. Um sutil trocar de passos, firmes e elegantes, conduziu-a logo atrás de suas amigas para dentro do círculo cheio de luzes e movimentos. Sentou-se e, quando começou a girar, primeiro aos poucos, devagar, depois, rápido, inteiro, ela, pela primeira vez em sua vida de menina, ria com o corpo e com a alma.
Sentiu os cabelos voando em função dos rápidos movimentos, o corpo saindo do assento, ela toda voando. Os braços desprendendo-se aos poucos do local onde o homem que lhe cobrara o ingresso disse para que todos segurassem. Os olhos viam apenas luzes, luzes e vultos mudos e dispersos. O ouvido não escutou nada além dos gritos produzidos espontaneamente por ela e por todos aqueles que estavam ao seu lado. Eram gritos de alívio. Ela se aliviava. Não sabia ao certo de que, mas tampouco lhe interessava, o gritar naturalmente, sem forças, sem nem ao menos precisar, a libertava de tudo, absolutamente de tudo, menos dela mesma.
Ela sorriu. E enquanto sorria, sentia a forma e a expressão do seu sorriso, imaginava como as outras pessoas estariam olhando para ela, como ela aparecia naquele momento para o outro fora dela. Pensava em como este outro veria aquele sorriso que ela tantas vezes em vão forçara na frente do espelho para ver como ficava, para ver se ficava alguma coisa, se algo ainda restava.
Como era estranho ficar fazendo risos forçados, ver-se por si mesmo e não ver-se enquanto você mesma. Sentir-se tão distante e falsa. Agora não. Agora todos deveriam estar achando-a linda, como ela nunca achara. Estariam vendo seus cabelos, o brilho nos seus olhos, estariam porventura ouvindo sua voz. E saindo dali, voltando para casa, ela olhar-se-ia novamente no espelho e, pela primeira vez, ela veria a si mesma. E diria: essa sou eu! E ela girava, girava, girava…
E foi assim que, em uma doce noite de maio, um grupo de meninas que começava ainda a amar e que há muito já sonhava, experimentara a liberdade. A maioria delas não percebera o fato por uma razão ou outra, mas ela, ela sabia que ali fora livre de fato; e que a mesma liberdade não experimentaria tão cedo, pois daquele momento em diante, ela estava saindo em direção à vida, apresentando aos olhos do mundo toda sua forma de menina que a sociedade iria moldar e tomar pra si, que a cultura iria cuidar de fazer cada vez menos livre e de cobrar um preço alto por essa liberdade.
Não que ela não fosse mais ser livre. Não, ela iria. Mas não teria mais Aquela liberdade. Aquela liberdade que girava, fazia rir, voar a alma, os longos fios do cabelo. Aquela liberdade pertencia aos seus 15 anos, àquela roda que girava e piscava suas luzes brancas e amarelas, aos brinquedos da terra, não às promessas do céu. Pertencia àquela doce noite de maio.

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