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Posts Tagged ‘Clarice Lispector’

Eu tenho à medida que designo e este é o esplendor de se ter linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscar – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho de ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção é que tenho o que ela não conseguiu.

A paixão segundo G.H, Clarice Lispector

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Moça com brinco de pérola, Johannes Vermeer

Conto

Dias ralos e rasteiros. A menina solta bolhas no quintal cheio de luz. São tantas que ela desespera-se na ânsia de todas tocar. Quer atingir cada uma delas, exercer ali o seu poder de interferir no mundo, de perfurar aquela delicada estrutura. Elas dançam em torno dela e ela vai existindo dentro das bolhas. Pintadas pela luz são elas roxas, verdes, amarelas. Desenhadas pelo vácuo do tempo, são elas grandes, médias ou pequenas. Olhá-las é uma festa, uma permanência no presente, um deleite cravejado das mais doces emoções. Mas ela está por demais concentrada em si mesma para poder voltar.
Corre para dentro do quarto. Escuro. As paredes cansadas daquele mesmo ar, ela pensa na solidez que trazem, na firmeza em existir como aquele lugar. Tudo tão calmo, reto, pálido, como ela haveria de ser dali pra frente. Nada de fantasias, arroubos, sonhos, agora era tempo de equilíbrio, interna realização. E ela estava realizada. Sim, estava. Em cima da cama esparramara as últimas joias. Uma opulência! Chegava a ser opressivo de tão belo. Brilhantes, rubis, esmeraldas, colares de ouro, prata, anéis, brincos, pérolas…
As pérolas. Inteiras, circulares, fechadas em torno de si. Por elas a luz não poderia passar como passava pelo interior das bolhas da menina que festejava a vida do lado de fora. Ela estava condenada aos interiores. Deveria cuidar do interior de si mesma, polir-se tal como uma pérola, tornar-se delicada, nobre e sublime como aquela joia, aquele simples quase pedaço de pedra.
Pendurou apenas um dos brincos no fino pescoço e mirou-se enfeitiçada. Tinha consciência de como era bela. O rosto muito bem harmonizado, todos os traços, todas as formas, o tamanho. O tom da pele nem claro, nem escuro. O cabelo castanho com alguns fios dourados do tempo em que andava sob o sol. Os olhos escuros e pequenos, emoldurados por grossas pestanas que lhe davam um aspecto de uma bravura serena, de uma ansiedade doce. A boca grossa e vermelha escondendo os dentes brancos, muito brancos e perfeitos em uma linha contínua e premeditada. Era um escândalo, tão bonita quanto aquele brinco de pérola.
Quando conhecera o marido tinha uma violência burra. Uma vontade de ser que ultrapassava os limites do corpo e do tempo. Era uma alma aventureira, cheia de sonhos, mas tinha um coração ansiosamente delicado que batia em ritmo acelerado, acompanhando o irromper frenético dos insanos e intermináveis pensamentos que habitavam sua mente. Era um fluxo contínuo, era um existir demasiado intenso, ninguém ao seu lado deixava de ser atingido. Saía-se danificado e nada se podia fazer. Tudo nela atormentava, desde a beleza até a profundidade de sua alma.
O espelho refletindo-a, as paredes protegendo-a de si mesma. O médico sempre lhe dissera. Mantenha o controle, não pense demais, mas pense o necessário para se controlar. Tranquilize-se. E desde então ela se tranquilizara. Resumira sua vida aos afazeres domésticos e a cuidar do marido e naquele dia, como em qualquer outro, ela o esperava. Só não imaginara aquelas bolhas coloridas a voar do lado de fora.
O lado de fora. Não, ela não poderia chegar até ele. O espelho já lhe mostrava em toda sua serena calma arduamente conquistada. Não perdera a beleza, ela ainda estava lá, e adornada pelo sublime brinco de pérola que ela quase que obscenamente dependurara de apenas uma das orelhas. A pérola enfim começou quase a sussurrar, ela ouvia um murmúrio, um barulho quase anestesiado. As forças passaram a se confundir, a estrutura sólida da pérola aos poucos ia contorcendo-se toda, amolecendo e alternando-se conforme os picos de luz. Mistura de terror e fascinação, atração e repulsa. A pérola aos poucos tocava levemente a superfície da bolha. Ávidas elas se enroscavam. A solidez da pérola desmanchava-se toda ao aproximar-se do frágil da bolha. Suas cores se fundiam, as espessuras se desintegravam, os círculos encaixaram-se perfeitamente, o grito era agora insuportável. Até que o barulho silencioso daquele espasmo pareceu atravessar a bolha desmanchando-a em pleno ar e a pérola escapou do furo da orelha e escorregou, sedutora, suada, em direção ao chão.
A mulher tombou. Recostou-se na superfície árida em busca da pérola, seus olhos perscrutaram a escuridão. Quem a visse divisaria um perfeito gato com olhos faiscantes e completos, portadores de uma completude mística e selvagem. Seus olhos roçavam o chão frio e, no entanto, queimavam de tão quentes. Tinham dentro de sua órbita circular e ardente todo o mistério do mundo. Não havia mais deslocamento no tempo ou no espaço. Tais como os olhos do gato, ali se poderiam ver as horas do mundo, as horas da vida, da morte, os desejos da carne, a vontade de pertencer. Eles ainda buscavam a pérola e ofereciam em troca a nostalgia molhada das lágrimas.
Um ponto brilhou no arfar da escuridão. Os dedos o tomaram. Era ela, inteira, perfeitamente polida, bela, sem qualquer mancha. De súbito, voltou a penetrar o furo da orelha. Ela não poderia mais perder nada. Mesmo assim, algo dela já não conseguia mais se levantar. Faltava-lhe força. Olhando para o chão ela podia ver, quase sentir, toda a forma do seu sofrimento. Tudo voltava. E os outros, o que os outros pensariam? O que ela tinha feito dela mesma? Tudo voltava.
Em esperas arrastadas e sonolentas eu às vezes decidia pensar em mim mesma. Em um movimento ingênuo e um pouco egoísta eu gostaria, não sei se desejava, despojar-me de toda uma certa beleza indefinida que sobrava a mim e estranhava-me diante do outro. Talvez por sentir no ar certo mal estar diante do belo, eu acabara por vestir-me de um mal estar diante de mim mesma. Gostaria de ser feia. Feia e selvagem. Arredia, cabelos desencontrados, olhares que eram simplesmente olhares. Estátuas frias e geladas. Gostaria de ser comum. Ansiara vivamente por ela. Ausência de desejo. Mas eu queria sim o diferente, o místico, o selvagem, a floresta que simplesmente não se avista do mar da cidade. Mas eu também queria o igual e não queria ceder às exigências da minha vaidade. Porque algo em mim ainda gostava…Mesmo querendo ser curta eu era longa, um infinito fio de pérolas profanas desamarradas.
Como eu queria não ter nada na cabeça. Ser como uma bolha de sabão. Inesperada e rápida. Normal e líquida. Ai como desejo aquela liquidez da bolha e como inesperadamente adquiri a solidez da pérola! As bolhas são mais ingênuas, as bolhas só esperam por algum sopro de vento e, depois, deixam-se levar por ele. As pérolas exigem muito mais. E, no entanto, eu as escolhi. As pérolas permanecem as mesmas com o passar do tempo, as bolhas não. Elas mudam, elas nascem e pouco tempo duram. Não há o tempo do sofrimento para as bolhas, sequer o do tédio porque as bolhas são livres e completas demais para isso. E o mais incrível, as bolhas são visíveis em sua inteireza, por dentro e por fora. As pérolas ocultam o interior empoeirado e fazem ver apenas a superfície pintada por um brilho opaco.
Meu olhar atravessou o chão frio, quase acompanhando a náusea de um movimento de dor, e só então pude ver erguerem-se do solo algumas leves bolhas de sabão. Minha filha as soprava, ela agora estava ali dentro, imersa na escuridão, e deitara o pequeno corpinho ao meu lado, no mesmo chão frio, para ver crescerem, de baixo pra cima, suas bolhas que salpicavam a harmonia daquela escura noite de minha alma.
Olhei-a e era como se olhasse a mim mesma com uma súbita e inesperada emoção e, com alívio, deixei de entender. Sobre mim, eu apenas assistia o belo bailar das bolhas que caíam, de cima para baixo, e estouravam bem rente ao meu corpo. Meus ouvidos agora distinguiam mil risos e mil vozes, notas, compassos, dissonâncias, modulações, versos, letras e canções, mas meu coração pulsava em silêncio esperando, agora leve e inteiro, pelo rompimento da última bolha que molharia, quem sabe, aquele meu seco brinco de pérola.

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A visão daquele olhar que me incomodava tanto. Dentro dele eu ia dissolvendo-me toda, mais do que já estava. Olhava e não mais me encontrava. Perdida estive em alguma parte escura do caminho, em meus fluxos intermitentes de sensações, em minha raiva ressecada e endurecida. Eu ia me anulando em doses mínimas, eu ia fazendo de mim o pouco que se reconhece de si mesmo até que um dia eu olhasse no espelho e encontrasse o nada que tanto procurava. O nada que eu nunca vira e apenas imaginava. Invisível e obediente. Quieta e insanamente revoltada. Meus escrúpulos param-me vez ou outra, ainda tenho vergonha de dizer o que digo. Mas ando tendo tão poucas coisas. O que tenho são restos, a sobra do que sobra de alguém que esqueceu de olhar pra si mesma, iludindo-se com olhares de outros tão distantes e rasteiros. Eu, que queria tanto ser livre, não sei sequer se ainda sou. Se posso um dia chegar a ser. Contorna-se sobre o eu as ausências que me comprometem e, aos poucos, me perdem. E não há nada que me entenda, nada que faça o meu empoeirado estado de espírito brilhar outra vez. Apenas certos olhares me confundem por querer eu, ainda, unir-me a eles. Tornar-me animal, selvagem, olhar com brandura e, ao mesmo tempo, domínio, certeza. Certeza de uma ignorância que sabe, que espreita. Pra espreitar tua partida no tempo, tua chegada deslocada e fugidia. De mim as coisas estão sempre a partir, sempre, porque talvez seja eu que viva partindo eternamente de mim mesma. Como uma louca obcecada por entender e ser, como um fio curto e sensível demais para continuar a tecer.

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OLHOS QUE ARDEM

E é como se cada instante se desintegrasse
ao redor de mim.
Tento amar minha casa,
habitar este espaço que me rodeia,
esse ar que de repente me exclui
e tento em vão disciplinar meus sonhos.
Nesse rio por onde corre minha vida
imagino uma história sem fim,
ando nas costas da minha vertigem
atingindo limiares e mais limiares de dor.
Vou arrastando os dias
nada mais vegeta em minha solidão
apenas eu pairo sobre tudo.
Misturo minhas lágrimas ao cair da chuva
preciso saber existir na minha paz
abandonar essa ferida que me cutuca.
Os dias têm sido insuportáveis,
eu desperdiço o tempo
acreditando ser ele infinito,
quem sabe outras dimensões sequem meu
interior molhado e inerte…
Eu desperdiço a solidão
eu faço dela perdida e triste
estou desembaraçando esta canção…

M.V

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Clarice Lispector


Não vou aqui fazer uma análise crítica, resenha ou qualquer outra coisa parecida para falar de um livro que me rouba todas as possíveis palavras. Se as usasse, não teria garantia nenhuma de que elas não mentiriam por mim. Do livro A Paixão segundo G.H de Clarice Lispector, limito-me a dizer que, como diz a autora, apenas para quem tem a alma já formada, é uma leitura obrigatória e fascinante. Uma viagem às entranhas da alma, às suas regiões mais gélidas e selvagens. Um re-encontro consigo mesmo, uma náusea, uma angústia, um sentimento que se volta para o que não é humano, para o que existe além dele. O livro não chega até a alma, tampouco até nossas raízes mais profundas, pois, segundo as próprias palavras de Clarice, não se chega até as raízes profundas que desenham a identidade do ser humano e sua alma. Elas existem, mas são inalcançáveis.

O livro é uma entrega completa e verdadeira rumo ao desconhecido, uma leitura onde quem lê vai além das letras, das entrelinhas, além da própria sensibilidade. Uma tradução da paixão – arrebatadora, fascinante, vertiginosa, a aceitação e descoberta de si mesmo, a experimentação da vida e da morte.

“A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro”, repetia Clarice loucamente em sua busca pela essência humana.

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Era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade. […] Eu tinha que cair na danação de minha alma, a curiosidade me consumia. […] Mas meu medo não era o de quem estivesse indo para a loucura, e sim para uma verdade – meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse a não querer, uma verdade infamante que me fizesse rastejar e ser do nível da barata. Meus primeiros contatos com as verdades sempre me difamaram.

Clarice Lispector em A Paixão segundo G.H

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