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Posts Tagged ‘corpo’

Modigliani

Modigliani

Ela descobria seu corpo
sentada diante do espelho.
Pelas mãos arrastadas via escorrer o tempo
em marcas invisíveis acumuladas.
Procurava aquele sinal de antes,
algum resto de fratura de membro.
Aproximava os olhares para ver melhor,
imitando gestos nos lugares de antes
e talvez o fossem amanhã.
Para sentir os tantos dos seus amores
ela encontrava o cheiro daqueles lugares,
daqueles olhares que preferia nem encontrar.
E tampava os olhos com uma mecha de cabelo,
o cabelo agora colorido por várias cores.
Sem querer ela queria voltar,
nem que fosse por um instante.
E abria cada vez mais o peito,
as pernas esticadas para lá.
Como uma mulher cortada ao meio,
ela ainda procurava no seu um outro olhar.
E embaçava o espelho,
dançando sem sair do lugar.

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Picasso

Picasso

(11)

O corpo pede a si mesmo. O corpo pede um outro. Limites, luares, lugares. Era um lugar que quase ia sozinho, ansioso, suado, faltoso. Tudo começava pelo meio. Pelo centro onde a percepção do novo se dava. E se espalhava. Em direção aos pés e às extremidades da cabeça. Cada fio de cabelo espalhado sobre a superfície lisa, com algumas dobras. Os pés procuravam o outro em quem se encostar, ou contorciam-se em si mesmos, girando para fora, para dentro, para fora, para dentro, para fora, para dentro. As pernas faziam curvas no ar, desenhavam o mundo em derramamentos e ascensão. Tinham o seu par equivalente, a conversa ia longa e libidinosa, entre tonta vertigem gostosa. O ventre se expulsava de si, esticando-se, abrindo todos os seios, encolhendo-se de modo a preparar o próximo movimento. O rosto. Em chamas. A boca vermelha, entre aberta, a língua em constante agitação interna. A secura buscando a água. A imobilidade farejando o momento. O nariz entusiasmado. Os olhos… Ah, estes iam nem abertos nem fechados. Em zona de tempestade e bonança, quase uma onda prestes a estourar, quase um rio aparentando calma, linear. Os olhos eram um sortilégio à parte. No prazer dilatavam, atraíam, faziam que iam e ficavam, iam e ficavam. Lançavam-se sobre os pelos espalhados, sobre o ar com cheiro de suor enfeitiçado, lançavam-se sobre outro olhar perdidos na própria semelhança de estrutura, apenas com desvio de cor, com desvio de brilho. Apenas. Os olhos se fechavam enquanto o centro explodia em festa. Os braços e as mãos agora pousados em estado de morte. Os braços e as mãos que tanto buscaram. Agora pousados, nunca mais sozinhos. Laços, linhas, velas, lamparinas, noite, dia, ávidos, fêmea, macho. Um ao outro destinados pelo erótico abraço.

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Gianlorenzo Bernini, O êxtase de Santa Teresa (1646-1652)

Gianlorenzo Bernini, O êxtase de Santa Teresa (1646-1652)

(8)

Foi quando eu encostei de novo meu rosto no teu, e ficamos ali, apenas escutando o sopro alucinado da respiração, adiando o instante do beijo, do gosto tardio, sempre lembrado. Os olhos molhados, saturados de desejo, imaginando as formas do corpo, o cheiro, a intensidade do toque, a lógica mil vezes repetida, sempre única da atração. E eu via tua boca, via minhas mãos, eu escutava como uma louca em êxtase o quanto pulsava meu coração. Revia todos os lugares, a praia tão reta e calma, a mata densa, a noite em derramamento de estrela, a dedicatória, a aula, o escondido, o sorriso, via todo o medo que nascia de mim, e morria, assim que me encontrava a vontade. Escutava as mesmas músicas, andava no ritmo das mesmas caminhadas, e conversava muda, calada, o diálogo de todos os nossos séculos. E, renascendo a surpresa do primeiro encontro, te encontrava de novo, e de novo, e de novo, no mesmo respirar enlouquecido, no mesmo beijo violento e delicado, e eu ouvia os gritos, e eu sentia minhas lágrimas. Nada, nada além de eternidade, tua alma entregue em tempo de saudade. E agora, no silêncio, você vai dizer.

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Tarsila do Amaral, Estudo: corpo de mulher (Incompleto)

Em corpo reto na posição encostada
verte-se sobre mim uma angústia
que insiste em estar e não passa,
como uma sensação de perda de tempo

nada.

Meu corpo imagina um corredor,
as costas em suor me molham,
as coisas todas me revelam uma dor
e eu não sinto nada mais além dos livros

que me olham.

Há pouco provava do doce ar,
do fresco brincar na vida cor-de-rosa,
mesclando-os com as imagens de um lugar
que na noite escura ainda chora.

————————————

Ainda desce a tarde calma e nova,
derramando um estado de cores
a espreguiçar o tempo que volta
quase como o sangue que de mim

brota.

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Meu corpo se interpõe
entre mim e a página
e revela uma certa angústia.
Sem nome, elevo meus olhos
e ando sobre os campos.
Da flor faço sentidos de ternura,
das folhas secas no chão
faço colares luxos de emoção.
Dos olhares perdidos
que passam por mim,
dou-lhes sentido e qualquer loucura.
Sinto o instante e invejo das árvores a forma,
das bibliotecas os milhares de livros
e assim paro para a poesia.
Essência do que passa e fica.
…………Reticência…………

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