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Posts Tagged ‘duplo’

poesia: ESCUTA

Max Ernst, La Femme 100 Têtes (1929)

Meu amor vive em noite escura
doce pungente amargura.

Altura, queda,
loucura, entrega.

Será salvação e perdição.
Tudo e nada me darás.
Eu, trêmula em trevas.

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Não vou dispensar muitas palavras para falar desta bela novela do escritor chileno Roberto Bolaño, mesmo porque, a forma sintética e, ao mesmo tempo, suficiente com que ele narra os acontecimentos que compõem a sua narrativa mostra que não é preciso dizer muito, em certos casos, para dizer de algo ou contar uma história.

A novela “Estrela distante” é a continuidade de outro projeto literário de Bolaño, “A literatura nazista na América”, mais propriamente do último capítulo em que Bolaño apresenta a figura de Ramírez Hoffman, poeta e torturador à serviço de Pinochet nos anos da ditadura chilena.

A figura do homem que lê poesia ao mesmo tempo em que causa dor e sofrimento é quase que dissecada em “Estrela distante” na figura do personagem Carlos Wieder. Não por acaso “wieder” em alemão quer dizer justamente “outra vez”, uma espécie de etorno retorno desses personagens sombrios, duplos, que sempre têm gestos dúbios, indefiníveis, sorrisos discretos.

Wieder é de início um estudante com nome Ruiz-Tagle que participa de oficinas de poesia junto com outros jovens do Chile ainda sob o governo de Salvador Allende. A história começa nos anos que precedem o golpe de 1973 que leva Pinochet ao poder e é em meio à atmosfera negra e marcada por diversas perdas da ditadura militar que o caráter sombrio de Wieder aos poucos vai se revelando aos colegas próximos que conviviam e não conviviam com ele ao mesmo tempo.

Podemos pensar na novela como uma abordagem bem feita de um personagem, apresentado aos leitores da mesma forma misteriosa como ele se deixava ver pelos outros. Um psicopata, um assassino, um poeta, um aviador que escreve seus versos de morte em pleno ar. Não se sabe muito bem quem são essas pessoas que carregam em si a força destruidora e amarga do nazismo. A autoridade, o gosto em matar, um quase prazer doentio, e uma espécie de relação não muito bem resolvida com a arte.

Só pela apresentação profunda desse personagem a novela de Bolaño já vale, mas ela tem méritos também na linguagem, clara e direta, no texto fluente com um tom de investigação criminal e, principalmente, na sensibilidade das pequenas histórias, dos pequenos personagens que vão compondo o cenário da história maior.

Aos poucos, a mensagem principal do romance parece ser a de que figuras como Carlos Wieder e tempos como o de Pinochet no Chile reforçam, na sensibilidade das pessoas que ainda a têm, o sentido da palavra “nunca mais”.

Roberto Bolaño

O que é curioso, pois se a ideia do eterno retorno e do fantasma do nazismo acompanha a narrativa, é pelas mãos de Wieder e de atores a serviço de ditaduras assassinas, que a sensação do “nunca mais” atravessa a vida de jovens, intelectuais e poetas que perdem pessoas queridas, que perdem a sua própria identidade, que sentem, com a mais delicada das tristezas, que nunca mais verão aquela jovem que fazia versos tão bem.

E tudo fica mesmo como uma estrela distante. O nazismo, seja ele qual for, divide vidas, transforma o tempo, cria seus personagens fantasmas, é capaz de unir ideias opostas como a do “outra vez” e a do “nunca mais” e, nisso, ele é como uma metáfora, ou, como a própria poesia que, dos céus à terra, palpita neste tocante romance.

“Depois voltou a afundar. Nesse momento também não fechou os olhos: moveu a cabeça com calma (a calma de um anestesiado) e buscou com os olhos alguma coisa, qualquer que fosse, mas que fosse bela, para retê-la no momento final. Mas o negror vendava qualquer objeto que pudesse descer junto com seu corpo até as profundezas, e ele nada viu. Então, sua vida, como se costuma dizer, desfilou diante de seus olhos como num filme. Alguns trechos eram em branco e preto e outros em cores. O amor de sua pobre mãe, o orgulho de sua pobre mãe, a exaustão de sua pobre mãe ao abraçá-lo à noite, quando tudo nos vilarejos pobres do Chile parece estar por um fio (em branco e preto), os tremores, as noites em que urinava na cama, os hospitais, os olhares, o zoológico dos olhares (em cores), os amigos que compartilham o pouco que têm, a música que nos consola, a maconha, a beleza revelada em locais inverossímeis (em branco e preto), o amor perfeito e breve como um soneto de Góngora, a certeza fatal (mas cheia de raiva dentro da fatalidade) de que só se vive uma vez. Tomado de súbita coragem, decidiu que não ia morrer. Conta-se que disse é agora ou nunca, e voltou à superfície. A subida lhe parecia interminável; manter-se à tona, quase insuportável, mas conseguiu. Naquela tarde, ele aprendeu a nadar sem braços, como uma enguia ou uma serpente. Matar-se, disse, nessa conjuntura sociopolítica, é absurdo e redundante. Melhor se tornar um poeta secreto”. (p. 72)

“Às cinco da manhã, adormeci no sofá. Fui acordado por Angélica, quatro horas depois. Tomamos café da manhã na cozinha, em silêncio. Ao meio-dia, elas enfiaram duas malas no seu carro, uma Citroneta 1968 verde limão, e partiram para Nacimiento. Nunca mais as vi”. (p.23)

“Mas não são eles que irão se esconder. Eles são os que procuram os que se escondem. E junto com eles entra a noite na casa das irmãs Garmendia. E quinze minutos depois, talvez dez, quando se retiram, a noite volta a sair, subitamente a noite entrava e saía, eficaz e veloz. E os cadáveres jamais serão encontrados, ou sim, há um cadáver, apenas um cadáver que aparecerá anos depois numa fossa comum, o de Angélica Garmendia, minha adorável, minha incomparável Angélica Garmendia, mas somente esse, como que para provar que Carlos Wieder é um homem, e não um deus”. (p.28)

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A tarde quase morria por trás do pequeno sobrado que era a última construção de uma rua sem saída. Já as folhas iam quase todas caídas nos fins daquele outono que insistia em demorar-se. Os mesmos silêncios, as mesmas coisas de sempre. A menina, quase moça, do primeiro andar, escrevia ligeiramente atenta, mirando e imaginando as imagens que ela ia aos poucos fazendo brotar do papel. A caneta repetia seus indecisos movimentos de ida e vinda, ida e vinda. Circulava, pontuava, grifava, rabiscava…
A mulher do andar logo acima esfregava a roupa no tanque. O pano esticava, enrugava, molhava, torcia, secava e, mesmo assim, a limpeza não superava o encardido dos dias. O moço, vizinho, do mesmo andar, fitava por trás da máquina de fotografia a mulher debruçada sobre o tanque e fazia com que a lente buscasse as suas pernas entreabertas que também já iam encardidas pelo seu próprio tempo. Elas, não as pernas, as lentes, dilatavam, apertavam, aproximavam, afastavam, escondiam, mostravam e fugiam em direção a um corpo que insistia em esquivar-se delas.
No último andar, o velho solitário espiava da sua cadeira de balanço o festejar do Nada na rua lá em baixo. As primeiras formas corriam, as últimas desaceleravam. A cadeira ia pra frente pra trás, e depois repetia, pra frente pra trás, nunca mais parava.
Ao pé do prédio, as formigas faziam seu trabalho. Corriam alinhadas, levavam a comida e depois buscavam. Fugiam dos pedestres apressados e muito trabalhavam.
Nada demais nos ritmos aqui esboçados. Ao olhar todos juntos e separados, a caneta que deslizava sobre o papel, a roupa que sobre o tanque se esfregava, a lente que abria e fechava, a cadeira que ia e recuava, alguma voz ainda faltava.
No primeiro andar, a jovem menina Francisca escrevia o que lhe acontecera naquele dia. Havia passado por duas reprovações, uma delas de natureza puramente prática, outra espiritual. Como podem duas coisas tão opostas emergirem juntas? Mas assim fora. O que faltou pra passar nas provas do semestre foi apenas um ponto vírgula setenta e cinco; e o que faltou para que ele enfim lhe olhasse foi apenas uma esquina e mais alguns segundos. As faltas venceram as vontades e a prova ficou por não passar, o olhar por não encontrar. Tinha esperança de que as pobres letras a compreendessem. Ah! Tão solicitadas essas linhas informes e precipitadas! Ela não rimava muito bem os versos que recebiam as memórias de seu dia. Mas isso não tinha a menor importância. Meninas gostam de poesia, assim como os meninos gostam das mocinhas, assim como aquela tarde que quase caía gostava, enquanto o escondia, do dia que já se ia.
Tais como as letras de Francisca, as lentes de João, o fotógrafo do segundo andar, também não tinham lá aquela técnica e até fugiam, mas sempre tremiam. Buscavam Paula, a das pernas, mas não a conseguiam enquadrar. Não se sabe ao certo se lente ou corpo, mas algo sempre escapulia. Uma coisa apenas não se ia: o sonho e o desejo de tocá-la, imobilizando-a entre braços, lentes ou armadilha.
Olho escondido na lente e João sonhava em ser aquele pano. Sujo, encardido, molhado. Mas ele estaria ali, entre seus dedos aconchegado. Ela esfregaria suas mãos nele, e o torceria virando um pouco pra cá, um pouco pra lá. Ela o jogaria contra a pedra do tanque, fazendo-o vir de cima pra baixo, de baixo pra cima, e ela o molharia todinho, com água fria, acariciando suas bordas pra que todo sabão pudesse enfim desfazer-se, para que o pano limpo de novo pudesse ficar, um novo velho pano, sem as tantas manchas de antes, mas com ainda algumas manchas de outrora, quase seco, quase livre. Mas de repente, era ele homem assim somente. Tão pouco, fotografando um instante tão distante quanto desejado, imobilizando-se com ele.
E se os instantes para João eram longos e imóveis, os dias sempre eram curtos para Paula que cuidava da casa e dos dois filhos pequenos. O marido, sempre em dias arrastados no chão da fábrica, tinha noites mais longas ainda quando chegava em casa e nunca a deixava dormir. Zé de Deus sonhava com o barulho das engrenagens, com os gritos do patrão, com a lerdeza dos seus encarregados. Era ele funcionário do setor de montagem de uma grande fábrica de automóveis que refletia o progresso daqueles tempos e sinalizava permanência desse mesmo progresso para o futuro. Até que gostava do emprego, falava muito a Paula de como os carros saíam modernos, brilhantes, feito estrelas ofuscantes da linha de montagem para irem brilhar nas ruas pavimentadas, nas casas enormes dos homens do dinheiro que ajudavam o país e o povo brasileiro a ver do que eles eram capazes. Zé quase os ouvia dizer de como no Brasil, das mãos brutas dos trabalhadores, vinham peças finas, delicadas, tão modernas como a pátria jamais sonhara!

(mais…)

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Tudo se mistura à meia claridade; tal seria a causa da fusão dos vultos, que de dois que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo visto sair nenhum dos gêmeos, mal podia crer que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crendo, mormente depois, que esta única pessoa solitária parecia completá-la interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia bater nela o coração. Estava tão cansada de emoções que tentou erguer-se e ir fora, mas não pôde; as pernas pareciam de chumbo e coladas ao solo. Assim esteve até que a lamparina, ao canto, morreu de todo. Flora teve um sobressalto na poltrona, e ergueu-se:

[Machado de Assis, Esaú e Jacó, p. 209]

A morte não tardou. Veio mais depressa do que se receava agora. Todas e o pai acudiram a rodear o leito, onde os sinais da agonia se precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rápidas, não tanto que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta que de escultura. As janelas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o céu. […] Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria cometido aquela moça, além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a quem, mas amar?

[Machado de Assis, Esaú de Jacó, p. 247]

A propósito do romance machadiano em que o duplo está por todas as partes, isto é, são dois os gêmeos, duas as personalidades, dois os regimes (monarquia e república), duas as Floras (inexplicável e dividida em si mesma, condenada a deixar a vida em plena graça por não conseguir fundir em um só o duplo objeto de sua adoração), que a ideia do duplo fez-se de repente bastante próxima de mim mesma. Comecei a pensar nas costuras duplas do meu destino e, fazendo as devidas relações entre astros e existência, cheguei a uma breve e instigante conclusão. Não só por nascer sob o signo de Gêmeos, constelação na qual Zeus teria transformado os dois irmãos Castor e Pólux (símbolos do amor fraterno) como também por ter nascido no dia 22. Seria esse também um número gêmeo e, não obstante, cada um dos algarismos além de no conjunto formarem um duplo, contêm cada um o seu duplo por serem dois. Talvez, fosse o caso de acrescentar uma razoável instabilidade de sentidos (própria a mim mesma) e mais um adjetivo para descrever essa conclusão que não deixa de ser um pouco fantasmagórica. Não seria se eu acreditasse no puro acaso, mas, como não é o caso, fica assim sendo.

[M.V]

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