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Posts Tagged ‘filme’


Se você tivesse que contar a história do século XX como faria? De quais elementos se utilizaria? Como combinaria esses elementos de modo a ampliar a produção de significados e despertar os mais diferentes sentidos e sensações?
Como falar de um século no qual aconteceram duas grandes guerras mundiais – conflitos bélicos que produziram todo o seu saldo de dor, morte e sofrimento ao lado de cenas únicas, encontradas acima de qualquer descrição que se pretenda objetiva.

Como falar de um século no qual as mulheres passaram a ter outro papel na sociedade, no qual as grandes metrópoles se constituíram, o mundo foi apresentado às novas mídias e tecnologias, o modelo industrial conheceu o seu auge, o conhecimento ultrapassou barreiras, sonhos já eram interpretados e o nosso inconsciente era posto a prova com Freud, as artes conheciam Picasso e as possibilidades de novas tendências na forma de representar o mundo e traduzir em cores e formas na tela a angústia do homem moderno. Como falar de um século que conheceu outro sistema de governo, uma alternativa ao capitalismo que prometia mais igualdade e justiça social: o socialismo.

Como dizer de um século no qual o mundo se dividiu em dois no contexto de uma guerra ideológica, um conflito que se dava de maneira indireta e se estendia a todas as áreas do conhecimento humano: a Guerra Fria. Como falar da construção de muros e da destruição destes, como falar de guerras regionais que só serviram para aumentar o poder e a influência de poucos, aumentando por efeito a pobreza e miséria de muitos. Como falar de um século de sonhos, ideias, poesia, arte, música. De um século que transpôs seus limiares mais imperceptíveis e se fez decisivo para o mundo como o conhecemos hoje.

O grande desafio de Nós que aqui estamos por vós esperamos, filme dirigido por Marcelo Masagão em 1998, é justamente falar do mundo e do homem do século XX. A questão é o caminho que o documentário percorre para falar dele, um caminho no qual o que se percebe claramente é a presença de um uso híbrido da linguagem e dos signos e, neste caso, está implícito todo desafio que se processa para que a hibridrização se materialize no gênero documentarista à medida que este trabalha, acima de tudo, com a tênue e fina fronteira entre ficção e realidade.

A opção que se faz em Nós que aqui estamos por vós esperamos é por uma espécie de vídeo arte. Ele é uma espécie de documentário que foge aos padrões convencionais e é por isso que chama a atenção. Primeiramente, se estrutura com imagens de arquivos, extratos de documentários e de algumas obras clássicas do cinema, até aí nada de novo. A questão é que o uso das imagens não se dá de forma isolada, ela se combina com os acordes de uma música melancólica e emocionante, que marca seus compassos com bastante precisão na alma de quem a ouve.

Além da música, as imagens são associadas ao texto, um dos elementos em semiótica que faz com que a imagem adquira novos significados e, portanto, conote. Mas não se trata de qualquer tipo de texto, os textos utilizados são demasiado poéticos e resgatam valores próximos de cada um de nós. O silêncio também é usado de forma perspicaz ao longo do filme, há momentos em que a música cessa por completo como que a pedir no silêncio um pouco de reflexão sobre o que se está vendo. Ou seja, até aqui percebemos que vários sistemas modelizantes são utilizados para compor essa linguagem híbrida de Nós que aqui estamos por vós esperamos.

Mas, talvez, o elemento mais essencial neste filme seja o tipo de história utilizada para contar alguns episódios que marcam o século XX. Fica clara a preocupação com a humanização do relato que se faz por isso mais próximo, toca em cada um que vê, faz com que os olhos de repente se surpreendam marejados de lágrimas. Isso acontece porque o filme trabalha aquilo que é humano, as dores, os pequenos sonhos, hábitos e as singelas felicidades de cada um deles, que também são as singelas dores e felicidades de cada um de nós, daí essa ligação, “nós que aqui estamos por vós esperamos”, o ‘nós’ de hoje se liga ao ‘eles’ de ontem pelos sonhos, dores e tons,além da ideia de morte que também está implícita, afinal, nossos signos ainda são os mesmos e nos compõem em sutilezas, pequenas frases, como se elas se combinassem e se interpenetrassem com tamanha beleza estética e humana que chega a emudecer.

Nós que aqui estamos por vós esperamos é uma aula de história do século XX, mas, acima de tudo, é uma aula sobre a vida, uma homenagem a cada homem que com seus sonhos e medos fez o século XX. Ao contrário de livros acadêmicos que privilegiam os fatos ao falar da história, este documentário privilegia o homem, aquele que de fato escreve a história, são dele as honras, conquistas, glórias, perdas ou derrotas. E, afinal, nada como o homem para contar a história do próprio homem em certa época.
Nós que aqui estamos por vós esperamos são signos, signos e mais signos, que constroem, desconstroem, compõem, aproximam e investem em todas as suas possibilidades de significação, na composição de uma semiosfera. Realmente, o mundo todo é signo, o signo, assim como o homem, é meio, processo, devir…

E como ele produz o belo, o diferenciado!
Como dizia Nietzsche sobre o ato de escrever, “escrever é traduzir a partir daquilo que se conhece o que não se conhece”. No caso de Nós que aqui estamos por vós esperamos, se escreve por meio de signos de modo a produzir um filme que existe nos abismos, nas zonas essenciais humanas e que bebe das entranhas da sua alma enquanto documentário híbrido, da alma deles do século XX, e da alma de cada um de nós.

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Acabo de assistir ao filme Che, do diretor Steven Soderbergh com Benicio Del Toro, Catalina Sandino Moreno, Rodrigo Santoro, dentre outros. O filme faz e muito bem o que se propõe a fazer: contar um pouco da história deste argentino que foi, antes de tudo, um revolucionário. A todo o momento, o filme confronta o mito e o homem. Ernesto Guevara é visto como o seu tempo o enxergou, um jovem intrépido, idealista, inteligente, acima da própria pátria que ele tanto defendia. Um revolucionário por excelência.
As questões estéticas também não são deixadas de lado no filme. São belas as imagens, dinâmica a forma de contar a história, intercalando passado, presente e futuro e emocionantes as falas de um Che que parece nunca ter se dado conta da dimensão que ele alcançou. A sensação que se tem ao ver o filme é que somos transportados desta nossa realidade, onde o espírito de revolução e mudança parece carecer de qualquer espécie de sentido, para outro tempo onde a revolução e sua lógica existiam, onde o clamor popular era ouvido, onde o sentido de tantas vidas estava em defender com inteligência uma causa. Além de tudo o filme também não deixa de ser um desafio para vários tabus hollywoodianos já que conta um pouco da história de um líder contrário aos EUA e cerca-se de atores latinos sendo filmado na língua certa, o espanhol, como não poderia deixar de ser.
Um acerto do filme é que ele se concentra na figura de Che, nas suas atitudes tão autênticas e surpreendentes, na sua forma de pensar a vida, nos seus valores, naquilo que pra ele era certo e errado. E por se concentrar na figura de Che, o filme não discute se o certo é o capitalismo ou o socialismo, se a revolução cubana foi legítima e justa ou não, se a luta deve ser armada ou pacífica, enfim, o filme não dá sequer margem para que o espectador pense nisso. O que o filme faz pensar e o que ele nos mostra é que sempre há justiça na busca de um sonho ou ideal, seja ele qual for, há justiça e glória na coerência dos atos, na sinceridade das palavras. Um dos momentos que dizem muito no filme é quando a jornalista que entrevista Che lhe pergunta qual é a principal característica que um revolucionário deve ter. Como quem sabe o que diz e como diz, Che responde, simplesmente, que um verdadeiro revolucionário se faz com amor. A jornalista pergunta novamente, incrédula. Amor? E Che com a mesma firmeza e categoria diz que não imagina um revolucionário que não tenha amor pela justiça, pela verdade, pela causa defendida por ele. É este amor do revolucionário o grande sentido de suas vidas. Sem ele não há porque continuar. E este amor fica mais do que claro no decorrer do filme, transborda em cada um dos guerrilheiros, em cada um dos pensamentos e movimentos, em cada um dos sonhos.
Talvez, essa seja a grande mensagem do filme, mostrar através da história do mito que se fez maior que o homem, a glória e a justiça que existe em lutar por um sonho, seja ele qual for. Aqui existe justiça, nos sonhos não há lugar para o certo ou errado, como nas posições ideológicas e geopolíticas. No caso de Che, ele ainda luta pelo que acredita sem abandonar seus princípios, sua moral, mantendo-se coerente até o final – principalmente quando ele se torna ministro e responsável por defender Cuba na ONU – em oposição não só ao capitalismo, mas a todo o resto de um mundo que não caminhou mais pra frente do que a própria Cuba pós-Revolução Cubana. Se Cuba não se fez o paraíso, o restante do mundo também não está tão longe do inferno assim. Neste sentido em que tanto capitalismo como socialismo têm suas falhas e injustiças, fiquemos com a verdade dos nossos sonhos e inspiremo-nos na força e na incrível irreverência de Che para saber lutar por eles e torná-los realidade.
Este é o mérito do filme, falar de Che mais como homem do que como mito, da glória de uma época, da coerência de um sonho, da verdade de uma revolução para os que de fato acreditaram nela. E mais ainda, este é um daqueles filmes que nos transporta, involuntariamente, para a sua história e que nos muda e perturba já que quando voltamos da viagem, carregamos a nostalgia e a inspiração para lutar por uma sociedade mais justa, ainda que capitalista!

Aviso aos navegantes: “A Guerrilha”, segunda parte de “Che” que trata dos 341 dias passados pelo guerrilheiro na selva boliviana, onde ele é capturado e morto, ainda não tem data fixada para estreia no Brasil. Mas vale a pena esperar!

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A cor do silêncio

Qual seria o bom filme? Aquele que nos perturba com uma história bem contada? Aquele que reflete nossa vida, medos, sonhos? Aquele que faz pensar sobre isto ou aquilo? Aquele que muda nossa forma de ver as contradições e particularidades da realidade? Aquele que nos irrita, nos faz torcer? Enfim, um bom filme bebe de muitas fontes e traz muitos elementos para se constituir como tal. Nem sempre todos esses elementos se explicam, porque os melhores filmes não são um simples conjunto de elementos, eles são a construção de um novo conjunto de elementos.

Divago sobre essas questões, pois acabo de assistir a um filme que já deve ser do conhecimento de muitos dos caros navegantes. Seu nome, Cidade do Silêncio (Bodertown). Sua história forte. Sua lição elementar e, aparentemente, cada vez mais distante. De forma resumida, o filme é uma espécie de denúncia aos casos de violência, estupros seguidos de morte, contra mulheres mexicanas funcionárias de uma fábrica que produz computadores e é financiada por capitais norte-americanos. Como é comum na fronteira do México com os EUA, espalham-se as fábricas que usam mão-de-obra barata, explorando-a de modo a alavancar seus lucros e disseminar a miséria, não apenas econômica como também, e mais dolorosas, a miséria humana e moral. A história se passa na cidade de Juarez, no México, e os casos de estupro vão aumentando dia após dia. São sempre funcionárias da fábrica vítimas de uma escuridão que as perde de qualquer espécie de sentido ou reação. A suspeita é de que os crimes sejam cometidos não só por um único assassino, mas por vários, e os métodos são os mais variados e assustadoramente inacreditáveis. Uma jornalista de Chicago, Lauren Adrian, é enviada a Juarez para cobrir os crimes por lá cometidos. O fato é que, se no início ela é apenas uma jornalista interessada em um cargo de correspondente internacional, no final do filme somos apresentados a uma mulher totalmente transformada, marcada por uma história que se confunde com a sua própria história, com seus dramas, traumas e lembranças. Ela conta com a ajuda de um jornalista local, Alfonso Diaz, que insiste em falar sobre os crimes cometidos, mesmo vendo seus jornais serem arrancados todos os dias das ruas, mesmo lutando a cada segundo para que seu jornal não seja fechado. Ele assume seu compromisso com a verdade e ajuda a jornalista, antes de tudo, por amor.

Cena do filme Cidade do Silêncio

Mas o caminho não é fácil e por trás de todo drama, pode-se enxergar uma discussão a respeito do papel do jornalismo. Daqueles que podem contar certas histórias com coragem e responsabilidade, assumindo todos os riscos, perseguindo a verdade mesmo que esta se encontre tão perto da própria morte. Em meio às cenas fortes, somos defrontados com uma conversa de Lauren com o editor do jornal em que ela trabalha em Chicago. Esta cena diz tudo a respeito da desvantagem da verdade na lógica do jornalismo comercial. A matéria de Lauren por ter ido fundo demais, por ter apurado com toda fidelidade uma história, por ter trazido a tona o perfil de uma das vítimas da violência da região – Eva Jimenez, de apenas 16 anos, que sobrevive e vive para ver sua história contada e seus agressores punidos da forma mais humana possível – não pode ser publicada porque afeta interesses comerciais. Porque toca nas feridas sociais de casos que custam menos quando ignorados do que quando denunciados. Lauren não aceita se vender por um cargo que no começo ela tanto queria. E não se conforma que um homem que ela tanto admirava se curve ao interesse econômico com tanta naturalidade traindo a verdade, traindo a história, deixando que outros deem as ordens que só podem ser ditadas pela ética e consciência de cada um. Mas sabemos que essa é uma situação cada vez mais rara atualmente. A maioria dos jornalistas se vende. A maioria não tem coragem para assumir o peso e a responsabilidade da verdade, a maioria não gosta de enfrentar, se omite, carrega o silêncio. São poucos os que dão a vida pela verdade dos fatos, como acontece com Diaz – morto porque falou o que não deveria ter sido dito – porque são poucos os jornalistas que têm firmeza e responsabilidade com o outro. Lauren não permite que a história daquelas mulheres se perca. Para ela, são mulheres que não podem continuar esquecidas e renegadas apenas porque mexicanas consideradas irrelevantes, mesmo porque a própria Lauren começa a se ver como uma delas.
Passeata em protesto contra as mortes de mulheres em Juarez, México

Talvez, toda a insistência e firmeza de Lauren se expliquem em determinada cena do filme em que ela diz a Eva que abdicou da construção de uma vida pessoal em nome de uma carreira. Ela queria construir sua carreira e encontrava nisso todo o sentido para a sua vida. Não poderia deixar de acreditar nela porque se esse dia chegasse sua vida não teria mais sentido. Assim são os verdadeiros jornalistas, se a causa em que acreditam não faz mais sentido, também não faz mais sentido a sua própria existência. São raros, mas que estão por aí, denunciando, enfrentando, cobrando, dando voz àqueles que não têm voz, dando sentido a causas que se perdem na rede promíscua de nossos interesses podres. Só para citar um exemplo recente, estamos aí com o caso da empreiteira Camargo Corrêa sendo denunciado e exposto pelos jornalistas. Um caso grave que merece uma investigação séria e comprometida, atenta à verdade, sem medo de atrasos e autoritarismos dos mais variados.
Cena do filme Cidade do Silêncio

Sempre há o que denunciar, sempre há o que mostrar. Pessoas e fatos precisam de representação. A lógica comercial e os interesses são fortes, com certeza, é difícil fugir deles, mas ser difícil não é ser impossível. No fim, o que realmente importa é o que você quer fazer com a sua profissão. Há sempre duas opções: o caminho fácil e mais cômodo do silêncio, da conivência, que não traz glórias nem verdades, apenas mais do mesmo. E o caminho dos que exercitam cotidianamente o caráter e a inteligência, dos que encontram brechas aqui e ali para contarem a sua história, aquela que vale a pena. Aquela que ao menos legitima a luta de milhares de homens e mulheres que não podem terminar na frustração do esquecimento. E não me venham com os limites de nossa lógica capitalista ou com estrutura hierarquizada e jornalista iludido dizendo que vai mudar o mundo. Não se trata de mudar o mundo, muito menos de ilusão, é tudo uma questão de princípios, habilidade para dizer o que pensa e coragem, muita coragem. Mas isto já vem da história de cada um, dos valores de cada um, do significado e do sentido que cada jornalista quer dar a cada uma das suas palavras.

“Não há fortalezas que não puderam ser vencidas ao longo da história com o uso da inteligência e da perspicácia. Elas perdem parte de seu isolamento com o impacto da razão não com a violência de uma espada. A glória e a satisfação não nascem do silêncio do conformismo, mas das vozes coerentes e eternas da verdade.” (Maura Voltarelli)

*Filme: Cidade do Silêncio (Bodertown)
Gênero: drama
País: EUA
Ano: 2007
Direção: Gregory Nava
Com: Jennifer Lopez, Antonio Banderas, Sonia Braga

*A atriz e cantora Jennifer Lopez recebeu o prêmio da Anistia Internacional por ter produzido e atuado no filme. O prêmio, chamado “Artistas pela Anistia”, foi entregue pelo Primeiro Ministro de Timor Leste, Jose Ramos-Horta.

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“A sociedade acredita que é guiada pela moralidade, mas isto não é verdade. Somos guiados, acima de tudo, pelas leis.” Esta é uma das muitas frases ditas ao longo de O Leitor, filme dirigido por Stephen Daldry, que já está em cartaz na maioria dos cinemas. O Leitor pode ser considerado um daqueles filmes bem feitos, com uma história muito bem contada, temperada com uma doze certa de mistério e sensualidade.
A história, basicamente, gira em torno de um adolescente, Michael, que se envolve com uma mulher mais velha. Inicialmente, ele não sabe sequer o seu nome, mas passa a viver um romance com ela. Depois de alguns encontros, Michael descobre o primeiro nome daquela mulher tão conflituosa, capaz de atitudes um tanto rudes e, ao mesmo tempo, carregadas de sensualidade e prazeres inesperados, seu nome, Hanna. Durante os encontros entre Michael e Hanna, a última pedia para que ele lesse histórias. Todos os dias, Michael chegava com um novo livro e o lia para Hanna, de forma original e até comovente. É fácil notar o fascínio que os livros exercem sobre Hanna. Ela se emociona com cada palavra, ao mesmo tempo, também se irrita e se envergonha diante de outras. Certo dia, Hanna vai embora e Michael a revê apenas oito anos mais tarde, ao acompanhar – como estudante de direito – um julgamento em que Hanna é uma das rés. Na ocasião, lhe é revelado o passado de Hanna como guarda de um campo de concentração nazista durante a II Guerra Mundial. No julgamento em questão, ela é acusada de diversos crimes, entre eles, ter deixado que 300 mulheres morressem queimadas dentro de uma igreja.
A história vai se desenrolando de forma bastante natural e atraente, não pretendo contá-la aqui, o melhor é que todos assistam e sintam, mas quero apenas colocar alguns pontos que me marcaram nesta história de medos e segredos escondidos pelo tempo. A primeira delas é a questão da verdade, do certo e do errado. Como essas idéias são relativas! No filme isso fica claro. É impossível não concordar com a seguinte afirmação de uma das vítimas do campo de concentração: “nutrir pena por alguém que foi tão cruel é obsceno”, mas, ao mesmo tempo, também é impossível deixar de se comover com o final dramático de Hanna e com um dos segredos que habitam o coração desta intrigante mulher. Aqui, entram os equívocos que cometemos quando não olhamos para todos os lados, quando julgamos apressadamente, ou quando não resistimos ao impulso de acusar, apontar.

Cena do filme “O Leitor”

O pano de fundo da trama, recorrendo ao drama e à tragédia dos campos de concentração, nos leva a refletir sobre o fato de que aqueles que estavam dentro das câmeras de gás, não foram as únicas vítimas. Aqueles que fechavam as portas das mesmas câmeras também sofreram, se desconstruíram enquanto seres humanos, sofrendo um processo de desumanização para que se metamorfoseassem em algozes. Hanna, como ela mesma admite várias vezes, cumpria apenas a sua função: era responsável pelos mortos. Quem pode dizer até que ponto ela está certa ou errada? O fato é que as suas culpas, seus fantasmas e seus medos não a abandonam. Eles proporcionaram uma mistura única e criaram uma mulher extremamente endurecida e sensível, que se emociona ao ver crianças cantando, brincando, ao ouvir as palavras de um livro. A segunda delas diz respeito às marcas, sim às marcas que a história e a vida nos deixa, particularmente, marcas deixadas por algumas pessoas que passam pela nossa vida e nunca mais saem dela, passe o tempo que passar. Michael carrega em si a marca de um amor, um amor entre um jovem e uma mulher que o fascinava pelos seus mistérios, pela sua autêntica sensualidade. Uma mulher que ele nunca esqueceu, que se chegou a odiar em alguns momentos do julgamento, concluía que a amava segundos depois, com todas as inseguranças e os impulsos da juventude. A sua atração aumentava na mesma proporção em que os mistérios em torno de Hanna também aumentavam. O fato é que Michael torna-se o único a saber do segredo de Hanna, um segredo capaz de lhe causar mais vergonha do que a responsabilidade direta pela morte de 300 mulheres. Mas, talvez o mais interessante, seja o fato de que ele a conhece tão bem a ponto de saber que esse segredo poderia salvá-la da prisão, mas não da sua própria dignidade, portanto, o mantém secreto. Ele opta por continuar sendo apenas seu Leitor, conduzindo-a de forma emocionante para a mais essencial de todas as sua lições. Por essas e outras, o filme, fruto de um livro, merece ser visto. Ao menos uma coisa eu posso garantir, ele vai levá-lo a questionar todas as suas mais profundas verdades!

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