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Posts Tagged ‘Foucault’

On the Threshold of Eternity, No Limiar da Eternidade (Oléo sobre Tela, 80 x 64cm) Vincent Van Gogh, 1890

Páginas da loucura
quem embalaram meu delírio
que venceram meu cansaço
que sonharam minha mente
que espelharam minha imagem

Páginas da loucura
que nascem de dentro
que arranham a alma
que silenciam o tempo
Belas e ricas
Detalhadas e indefinidas
Mudas e sem idade

Páginas da loucura
Mereceis, enfim, o eco da eternidade!

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.
(Balada para un loco – Astor Piazzolla)

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Michel Foucault

Na era clássica, inútil procurar distinguir entre as terapêuticas físicas e as mediações psicológicas. Pela simples razão de que a psicologia não existe. Quando se prescreve a absorção dos amargos, por exemplo, não se trata de tratamentos físicos, uma vez que se pretende desoxidar tanto a alma quanto o corpo; quando se prescreve a um melancólico a vida simples dos trabalhadores, quando se lhe representa a comédia de seu delírio, não se tem aí uma intervenção psicológica, pois o movimento dos espíritos nos nervos e a densidade dos humores é que estão em jogo, acima de tudo.

Mas num caso trata-se de uma arte da transformação das qualidades, de um técnica na qual a essência da loucura é considerada como natureza e como doença; no outro, trata-se de uma arte do discurso e da restituição da verdade onde a loucura vale como desatino. Quando for dissociada, nos anos que se seguirão, essa grande experiência do desatino, cuja unidade é característica da era clássica, quando a loucura, confiscada inteiramente numa intuição moral, não for mais que doença, então a distinção que acabamos de estabelecer assumirá um outro sentido: o que era doença procederá do orgânico, e o que pertencia ao desatino, à transcendência de seu discurso, será nivelado no psicológico.

E é exatamente aí que nasce a psicologia. Não como verdade da loucura, mas como indício de que a loucura é agora isolada de sua verdade que era o desatino e de que doravante ela não será mais que um fenômeno à deriva, insignificante, na superfície indefinida da natureza. Enigma sem outra verdade senão aquilo que a pode reduzir.

É por isso que se deve ser justo com Freud. Entre as 5 Psicanálises e o cuidadoso inquérito sobre as Médications psychologiques, há mais do que uma descoberta: há a violência soberana de um retorno. Janet enumerava os elementos de uma divisão, enumerava o inventário, anexava aqui e ali, conquistava talvez. Freud retomava a loucura ao nível de sua linguagem, reconstituía um dos elementos essenciais de uma experiência reduzida ao silêncio pelo positivismo. Ele não acrescentava à lista dos tratamentos psicológicos da loucura uma adição maior; reconstiuía, no pensamento médico, a possibilidade de um diálogo com o desatino.

Não nos surpreendamos se o mais “psicológico” dos medicamentos tenha tão rapidamente reencontrado sua vertente e suas confirmações orgânicas. Na Psicanálise, o que está em jogo não é a Psicologia mas, exatamente, uma experiência do desatino que a Psicologia no mundo moderno teve por sentido ocultar
(FOUCAULT, 2009, p. 337 e 338).

Freud: na essência da psicanálise a experiência clássica do desatino, voz original e verdade muda da loucura

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A Nau dos Loucos, Bosch

Neste trecho da obra, fica evidente todo virtuosismo linguístico de Foucault, além de sua capacidade de perceber e refletir criticamente sobre a realidade e seus diversos aspectos, seja no campo da razão, seja no campo da loucura, ou, como acontece nessa obra, construindo um pensamento com base no diálogo e na relação eterna que se dá entre a razão e a loucura.

[…] Esta navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a Passagem absoluta. Num certo sentido, ela não faz mais que desenvolver, ao longo de uma geografia semi-real, semi-imaginária, a situação liminar do louco no horizonte das preocupações do homem medieval – situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao louco de ser fechado às portas da cidade: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode nem deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. […] A água e a navegação têm realmente esse papel. Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. […] Tudo isso faz da loucura como que a manifestação no homem de um elemento obscuro e aquático, sombria desordem, caos movediço, germe e morte de todas as coisas, que se opõe à estabilidade luminosa e adulta do espírito (FOUCAULT, p.12 e 13).

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