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Posts Tagged ‘limite’

labirintos e limites

– Porque eu preciso jejuar, não posso evitá-lo – disse o artista da fome.
– Bem se vê – disse o inspetor. – E por que não pode evitá-lo?
– Porque eu – disse o jejuador, levantando um pouquinho a cabecinha e falando dentro da orelha do inspetor com os lábios em ponta, como se fosse um beijo, para que nada se perdesse. – Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.

trecho de Um artista da fome (p. 35)

Mas a coisa mais bela da minha construção é o seu silêncio. Certamente ele é enganoso. Pode ser interrompido de repente e então tudo se acabou. Por enquanto, porém, ele ainda continua. Durante horas posso me esgueirar pelos meus corredores, sem ouvir outra coisa senão, algumas vezes, o zunido de algum bicho pequeno, que eu logo sossego entre os meus dentes, ou o escorrer da terra, que me aponta a necessidade de alguma reforma; de resto, tudo quieto.

trecho de A Construção (p. 66)

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A tarde quase morria por trás do pequeno sobrado que era a última construção de uma rua sem saída. Já as folhas iam quase todas caídas nos fins daquele outono que insistia em demorar-se. Os mesmos silêncios, as mesmas coisas de sempre. A menina, quase moça, do primeiro andar, escrevia ligeiramente atenta, mirando e imaginando as imagens que ela ia aos poucos fazendo brotar do papel. A caneta repetia seus indecisos movimentos de ida e vinda, ida e vinda. Circulava, pontuava, grifava, rabiscava…
A mulher do andar logo acima esfregava a roupa no tanque. O pano esticava, enrugava, molhava, torcia, secava e, mesmo assim, a limpeza não superava o encardido dos dias. O moço, vizinho, do mesmo andar, fitava por trás da máquina de fotografia a mulher debruçada sobre o tanque e fazia com que a lente buscasse as suas pernas entreabertas que também já iam encardidas pelo seu próprio tempo. Elas, não as pernas, as lentes, dilatavam, apertavam, aproximavam, afastavam, escondiam, mostravam e fugiam em direção a um corpo que insistia em esquivar-se delas.
No último andar, o velho solitário espiava da sua cadeira de balanço o festejar do Nada na rua lá em baixo. As primeiras formas corriam, as últimas desaceleravam. A cadeira ia pra frente pra trás, e depois repetia, pra frente pra trás, nunca mais parava.
Ao pé do prédio, as formigas faziam seu trabalho. Corriam alinhadas, levavam a comida e depois buscavam. Fugiam dos pedestres apressados e muito trabalhavam.
Nada demais nos ritmos aqui esboçados. Ao olhar todos juntos e separados, a caneta que deslizava sobre o papel, a roupa que sobre o tanque se esfregava, a lente que abria e fechava, a cadeira que ia e recuava, alguma voz ainda faltava.
No primeiro andar, a jovem menina Francisca escrevia o que lhe acontecera naquele dia. Havia passado por duas reprovações, uma delas de natureza puramente prática, outra espiritual. Como podem duas coisas tão opostas emergirem juntas? Mas assim fora. O que faltou pra passar nas provas do semestre foi apenas um ponto vírgula setenta e cinco; e o que faltou para que ele enfim lhe olhasse foi apenas uma esquina e mais alguns segundos. As faltas venceram as vontades e a prova ficou por não passar, o olhar por não encontrar. Tinha esperança de que as pobres letras a compreendessem. Ah! Tão solicitadas essas linhas informes e precipitadas! Ela não rimava muito bem os versos que recebiam as memórias de seu dia. Mas isso não tinha a menor importância. Meninas gostam de poesia, assim como os meninos gostam das mocinhas, assim como aquela tarde que quase caía gostava, enquanto o escondia, do dia que já se ia.
Tais como as letras de Francisca, as lentes de João, o fotógrafo do segundo andar, também não tinham lá aquela técnica e até fugiam, mas sempre tremiam. Buscavam Paula, a das pernas, mas não a conseguiam enquadrar. Não se sabe ao certo se lente ou corpo, mas algo sempre escapulia. Uma coisa apenas não se ia: o sonho e o desejo de tocá-la, imobilizando-a entre braços, lentes ou armadilha.
Olho escondido na lente e João sonhava em ser aquele pano. Sujo, encardido, molhado. Mas ele estaria ali, entre seus dedos aconchegado. Ela esfregaria suas mãos nele, e o torceria virando um pouco pra cá, um pouco pra lá. Ela o jogaria contra a pedra do tanque, fazendo-o vir de cima pra baixo, de baixo pra cima, e ela o molharia todinho, com água fria, acariciando suas bordas pra que todo sabão pudesse enfim desfazer-se, para que o pano limpo de novo pudesse ficar, um novo velho pano, sem as tantas manchas de antes, mas com ainda algumas manchas de outrora, quase seco, quase livre. Mas de repente, era ele homem assim somente. Tão pouco, fotografando um instante tão distante quanto desejado, imobilizando-se com ele.
E se os instantes para João eram longos e imóveis, os dias sempre eram curtos para Paula que cuidava da casa e dos dois filhos pequenos. O marido, sempre em dias arrastados no chão da fábrica, tinha noites mais longas ainda quando chegava em casa e nunca a deixava dormir. Zé de Deus sonhava com o barulho das engrenagens, com os gritos do patrão, com a lerdeza dos seus encarregados. Era ele funcionário do setor de montagem de uma grande fábrica de automóveis que refletia o progresso daqueles tempos e sinalizava permanência desse mesmo progresso para o futuro. Até que gostava do emprego, falava muito a Paula de como os carros saíam modernos, brilhantes, feito estrelas ofuscantes da linha de montagem para irem brilhar nas ruas pavimentadas, nas casas enormes dos homens do dinheiro que ajudavam o país e o povo brasileiro a ver do que eles eram capazes. Zé quase os ouvia dizer de como no Brasil, das mãos brutas dos trabalhadores, vinham peças finas, delicadas, tão modernas como a pátria jamais sonhara!

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Salvador Dalí

poesia

No ínfimo espaço
entre o eu e o outro
onde se beija o fugaz
e a vida se desfaz

Volátil vertente
assim tão de repente
qual cinza imprecisa
massa sem presente

Tarde, qual névoa
nem triste, nem bela
sereia, donzela
em transe, vem ela

No corpo do mito
da natureza, o vinho
dança em viagem
de corpo e de arte

Evanesce no sopro
primitivo fosco
tão fora de si
bem transviado e oco

Música há de tocar
Teu desejo a fuga
virá. Não saberá
ao certo onde está

No ritual do sono
sem vela. No quase
rarefeito ar. Inefável
infinito limiar

Na morte do possuir
a si. Tudo foge, ou aqui
ou lá. E o meio?
E o que liquefaz?

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