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Posts Tagged ‘Machado de Assis’

A tarde quase morria por trás do pequeno sobrado que era a última construção de uma rua sem saída. Já as folhas iam quase todas caídas nos fins daquele outono que insistia em demorar-se. Os mesmos silêncios, as mesmas coisas de sempre. A menina, quase moça, do primeiro andar, escrevia ligeiramente atenta, mirando e imaginando as imagens que ela ia aos poucos fazendo brotar do papel. A caneta repetia seus indecisos movimentos de ida e vinda, ida e vinda. Circulava, pontuava, grifava, rabiscava…
A mulher do andar logo acima esfregava a roupa no tanque. O pano esticava, enrugava, molhava, torcia, secava e, mesmo assim, a limpeza não superava o encardido dos dias. O moço, vizinho, do mesmo andar, fitava por trás da máquina de fotografia a mulher debruçada sobre o tanque e fazia com que a lente buscasse as suas pernas entreabertas que também já iam encardidas pelo seu próprio tempo. Elas, não as pernas, as lentes, dilatavam, apertavam, aproximavam, afastavam, escondiam, mostravam e fugiam em direção a um corpo que insistia em esquivar-se delas.
No último andar, o velho solitário espiava da sua cadeira de balanço o festejar do Nada na rua lá em baixo. As primeiras formas corriam, as últimas desaceleravam. A cadeira ia pra frente pra trás, e depois repetia, pra frente pra trás, nunca mais parava.
Ao pé do prédio, as formigas faziam seu trabalho. Corriam alinhadas, levavam a comida e depois buscavam. Fugiam dos pedestres apressados e muito trabalhavam.
Nada demais nos ritmos aqui esboçados. Ao olhar todos juntos e separados, a caneta que deslizava sobre o papel, a roupa que sobre o tanque se esfregava, a lente que abria e fechava, a cadeira que ia e recuava, alguma voz ainda faltava.
No primeiro andar, a jovem menina Francisca escrevia o que lhe acontecera naquele dia. Havia passado por duas reprovações, uma delas de natureza puramente prática, outra espiritual. Como podem duas coisas tão opostas emergirem juntas? Mas assim fora. O que faltou pra passar nas provas do semestre foi apenas um ponto vírgula setenta e cinco; e o que faltou para que ele enfim lhe olhasse foi apenas uma esquina e mais alguns segundos. As faltas venceram as vontades e a prova ficou por não passar, o olhar por não encontrar. Tinha esperança de que as pobres letras a compreendessem. Ah! Tão solicitadas essas linhas informes e precipitadas! Ela não rimava muito bem os versos que recebiam as memórias de seu dia. Mas isso não tinha a menor importância. Meninas gostam de poesia, assim como os meninos gostam das mocinhas, assim como aquela tarde que quase caía gostava, enquanto o escondia, do dia que já se ia.
Tais como as letras de Francisca, as lentes de João, o fotógrafo do segundo andar, também não tinham lá aquela técnica e até fugiam, mas sempre tremiam. Buscavam Paula, a das pernas, mas não a conseguiam enquadrar. Não se sabe ao certo se lente ou corpo, mas algo sempre escapulia. Uma coisa apenas não se ia: o sonho e o desejo de tocá-la, imobilizando-a entre braços, lentes ou armadilha.
Olho escondido na lente e João sonhava em ser aquele pano. Sujo, encardido, molhado. Mas ele estaria ali, entre seus dedos aconchegado. Ela esfregaria suas mãos nele, e o torceria virando um pouco pra cá, um pouco pra lá. Ela o jogaria contra a pedra do tanque, fazendo-o vir de cima pra baixo, de baixo pra cima, e ela o molharia todinho, com água fria, acariciando suas bordas pra que todo sabão pudesse enfim desfazer-se, para que o pano limpo de novo pudesse ficar, um novo velho pano, sem as tantas manchas de antes, mas com ainda algumas manchas de outrora, quase seco, quase livre. Mas de repente, era ele homem assim somente. Tão pouco, fotografando um instante tão distante quanto desejado, imobilizando-se com ele.
E se os instantes para João eram longos e imóveis, os dias sempre eram curtos para Paula que cuidava da casa e dos dois filhos pequenos. O marido, sempre em dias arrastados no chão da fábrica, tinha noites mais longas ainda quando chegava em casa e nunca a deixava dormir. Zé de Deus sonhava com o barulho das engrenagens, com os gritos do patrão, com a lerdeza dos seus encarregados. Era ele funcionário do setor de montagem de uma grande fábrica de automóveis que refletia o progresso daqueles tempos e sinalizava permanência desse mesmo progresso para o futuro. Até que gostava do emprego, falava muito a Paula de como os carros saíam modernos, brilhantes, feito estrelas ofuscantes da linha de montagem para irem brilhar nas ruas pavimentadas, nas casas enormes dos homens do dinheiro que ajudavam o país e o povo brasileiro a ver do que eles eram capazes. Zé quase os ouvia dizer de como no Brasil, das mãos brutas dos trabalhadores, vinham peças finas, delicadas, tão modernas como a pátria jamais sonhara!

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Tudo se mistura à meia claridade; tal seria a causa da fusão dos vultos, que de dois que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo visto sair nenhum dos gêmeos, mal podia crer que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crendo, mormente depois, que esta única pessoa solitária parecia completá-la interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia bater nela o coração. Estava tão cansada de emoções que tentou erguer-se e ir fora, mas não pôde; as pernas pareciam de chumbo e coladas ao solo. Assim esteve até que a lamparina, ao canto, morreu de todo. Flora teve um sobressalto na poltrona, e ergueu-se:

[Machado de Assis, Esaú e Jacó, p. 209]

A morte não tardou. Veio mais depressa do que se receava agora. Todas e o pai acudiram a rodear o leito, onde os sinais da agonia se precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rápidas, não tanto que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta que de escultura. As janelas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o céu. […] Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria cometido aquela moça, além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a quem, mas amar?

[Machado de Assis, Esaú de Jacó, p. 247]

A propósito do romance machadiano em que o duplo está por todas as partes, isto é, são dois os gêmeos, duas as personalidades, dois os regimes (monarquia e república), duas as Floras (inexplicável e dividida em si mesma, condenada a deixar a vida em plena graça por não conseguir fundir em um só o duplo objeto de sua adoração), que a ideia do duplo fez-se de repente bastante próxima de mim mesma. Comecei a pensar nas costuras duplas do meu destino e, fazendo as devidas relações entre astros e existência, cheguei a uma breve e instigante conclusão. Não só por nascer sob o signo de Gêmeos, constelação na qual Zeus teria transformado os dois irmãos Castor e Pólux (símbolos do amor fraterno) como também por ter nascido no dia 22. Seria esse também um número gêmeo e, não obstante, cada um dos algarismos além de no conjunto formarem um duplo, contêm cada um o seu duplo por serem dois. Talvez, fosse o caso de acrescentar uma razoável instabilidade de sentidos (própria a mim mesma) e mais um adjetivo para descrever essa conclusão que não deixa de ser um pouco fantasmagórica. Não seria se eu acreditasse no puro acaso, mas, como não é o caso, fica assim sendo.

[M.V]

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Arlequim e sua dama, Giovanni Domenico Ferretti

“Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias – desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão”. (p.  38 e 39)

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

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-Desembargador, se os mortos vão depressa, os velhos ainda vão mais depressa do que os mortos…Viva a mocidade!
Campos não me entendeu, nem logo, nem completamente. Tive então de lhe dizer que aludia ao marido defunto, e aos dois velhos deixados pelos dois moços, e concluí que a mocidade tem o direito de viver e amar, e separar-se alegremente, do extinto e do caduco. Não concordou – o que mostra que ainda então não me entendeu completamente.

Sem data

Há seis ou sete dias que eu não ia ao Flamengo. Agora à tarde lembrou-me lá passar antes de vir para casa. Fui a pé; achei aberta a porta do jardim, entrei e parei logo.
“Lá estão eles”, disse comigo.
Ao fundo, à entrada do saguão, dei com os dois velhos sentados, olhando um para o outro. Aguiar estava encostado ao portal direito, com as mãos sobre os joelhos. Dona Carmo, à esquerda, tinha os braços cruzados à cinta. Hesitei entre ir adiante ou desandar o caminho; continuei parado alguns segundos até que recuei pé ante pé. Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos. (p. 216 e 217)

Machado de Assis, Memorial de Aires

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Anton P. Tchekhov (1860 – 1904) pode ser mais claramente definido como aquele que preencheu o mínimo com o máximo. Ao contrário dos vastos panoramas de outros escritores russos como Dostoiévsky e Tolstói, ele concentrou os grandes problemas humanos nas formas breves do conto e da novela e construiu uma obra dotada de força extraordinária, sensibilidade assustadora, enredos angustiantes, detalhes minuciosos e qualidade indiscutível que a fizeram uma das principais portas de entrada para a literatura contemporânea.
Tchekhov impressiona pela leveza e, ao mesmo tempo, pela densidade e dificuldade do relato. Lê-lo não é fácil. É como penetrar nas regiões mais gélidas e profundas da alma humana, sentir-se sufocado, angustiado e, por fim, aliviado por já ter visitado o que mais pode um homem angustiar: a solidão e o reconhecimento da miséria de nossa existência.

No livro O Beijo e outras histórias, a tradução esmerada de Boris Schnaiderman nos traz contos que reúnem as peculiaridades e os traços e temas do cotidiano mais constantes em Tchekhov. No conto O Beijo, o leitor é conduzido a um mundo de imaginação, fantasia, sonho e loucura para se perder em um labirinto obscuro que conduz à dor calada e seca das existências mudas e absurdas por que solitárias e vazias. Já no conto Enfermaria nº 6, o mestre russo da narrativa curta expõe em faces nuas e cruéis os limites entre a razão e a loucura, faz com que o leitor conheça em palavras duras e frias – assim como as paredes da enfermaria – aquilo que somos no mais fundo, aquilo que apenas a cada um de nós se faz real e doloroso. Nas linhas deste conto fica clara a conversão de quem cura em quem padece e nas entrelinhas o inferno de nossa humanidade estreita e banal que um dia conhece a glória e, no outro, apenas incompreensão, abandono e indiferença, menos dos outros do que de si mesmo.

Tchekhov se embriaga do que de melhor existe na literatura: a linguagem correta, o detalhe decisivo e a forma insinuante do relato que conduz ao inacabado e permite a reflexão de quem lê. Por tudo isso, renovou a narrativa curta com emoção e inteligência, combinadas na exata proporção.

Anton P. Tchekhov
Machado de Assis
Algo interessante ao lê-lo é perceber as claras semelhanças existentes entre ele e Machado de Assis. Em suas letras nos sentimos estranhos e, ao mesmo tempo, em casa já que o fio do enredo tchekhoviano parece ser tecido com as mesmas linhas do enredo machadiano. Semelhanças se notam nos temas do cotidiano, nas sutilezas de tratamento e no universo social abordado.

Assim como Machado de Assis faz no conto O Espelho, Tchekhov em Enfermaria nº 6 constrói um personagem que dialoga com a solidão e se faz obcecado por encontrar um sentido para sua existência. Tanto o velho professor de medicina de Tchekhov, quanto o alferes Jacobina de Machado de Assis estão prontos para ver o apagar das luzes, para sentir a frieza do fim e ouvir o cochicho do nada. O primeiro pelas ilusões da loucura, o segundo pelas lâminas do espelho. Os dois pelos mistérios da alma.

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