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Posts Tagged ‘Madame Bovary’

(…) na esperança de reexaminar
com um olhar novo as imagens fielmente amadas, tão solidamente
fixadas na minha memória que já não sei se estou a recordar
ou a imaginar quando as reencontro em meus devaneios. (Bachelard)

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Este vídeo foi produzido para a disciplina de Aplicado em Telejornalismo, sob orientação do Prof. Reginaldo Moreira, pelos estudantes de Jornalismo da PUC-Campinas, Maura Voltarelli e Danilo Reenlsober em abril de 2010.

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Jennifer Jones como Emma Bovary no filme A Brief Summary, de 1949

Estive lendo sobre Gustave Flaubert, mestre do realismo francês, minucioso na escolha das palavras, sentimental nos detalhes de um cotidiano para ele mortalmente carregado de tédio, ensopado do mesmo, inebriado por falsidades e convencionalismos. Estive lendo sobre suas obras, suas influências, sua história de vida marcada por solidões ocasionais e por ataques nervosos depois dos quais sobrevinha sempre a perda da consciência.
Segundo os médicos, Flaubert extravasava sua demasiada energia por meio desses acessos “histérico-epiléticos”. Os ataques desapareceram durante muitos anos de sua vida e só voltariam a agredi-lo no fim de sua existência. Existência esta que se encerra quando a palavra certa já não lhe ocorria mais, quando a mão já não tinha mais firmeza. Com um golpe mortal, o tédio se dissolve, a vida para. Em um dia de primavera de 1880 esse grande escritor francês resolve enfim suas inquietações, mesmo assim, morre sem cumprir uma das promessas que fez a um amigo. Flaubert queria resumir a sua vida, dizia ele, “tentarei contar-me a mim mesmo”.
Lendo tantas coisas sobre o escritor o que mais me impressionou foi entendê-lo justo por meio de sua personagem mais emblemática, forte, densa, misteriosa e fantástica – Emma Bovary, ou Madame Bovary. No livro que leva o nome da personagem, Flaubert decide atacar a moral burguesa, posta a nu em toda sua fragilidade, convencionalismo e falsidade, por meio da caracterização da vida monótona e sem atrativos da província.
O livro foi classificado por muitos da sociedade da época como imoral e, por isso, foi censurado, tendo sua publicação suspendia e seu autor processado. Flaubert sentou-se no banco dos réus em janeiro de 1857 para responder ao processo e ouvir um promotor pequeno e nervoso descrever Emma Bovary citando passagens do livro e investindo contra o autor.
Gustave Flaubert

A heroína era descrita e vista como depravada pela burguesia francesa, mas, segundo o advogado de defesa de Flaubert, toda depravação de Emma tinha que ser muito bem descrita, como de fato o foi pelo autor, para provar que o seu fim trágico constituiria o justo castigo de seus erros. Flaubert acabou absolvido graças à habilidade da defesa em distorcer e dissimular os verdadeiros propósitos de sua obra. Esta, uma vez publicada, esgotou-se em pouco tempo. Todos queriam saber quem era Madame Bovary, em quem o autor se inspirara para criar essa mulher que causava tanto alarde, tanta discussão. Porque ela era tão perigosa para os valores daquela sociedade tediante e vazia era a pergunta a que muitos se faziam na época.
A realidade é que Emma era a única personagem do romance de Flaubert que, para escapar à mediocridade do ambiente, enfrenta os preconceitos e persegue os próprios sonhos e aspirações. Por sua coragem e autenticidade ela se faz linda e sedutora e fica ainda mais instigante por meio da descrição de um autor que desejava a forma perfeita, a palavra certa e passava noites em busca de um adjetivo, semanas atrás de uma frase, escrevia e reescrevia uma página dezenas de vezes.
Mas, afinal, quem seria a mulher inspiradora de tão enigmática personagem? Nenhuma pista era satisfatória até que Flaubert decidiu revelar quem era Madame Bovary. “Madame Bovary sou eu” disse o escritor. De fato, conhecendo um pouco melhor a história do autor das linhas que deram forma a tão incrível mulher, percebe-se que a frase encerra muita verdade. Flaubert teve em sua vida o mesmo temperamento romântico de Emma e, assim como ela, também procurava fugir à mesquinhez cotidiana e sonhava com amores irreais, ansiando por uma existência mais plena.
Talvez, assim como Emma ele também cultivasse o desejo de sucumbir ao gosto do arsênico não vendo saída para a complexidade das experiências de uma natureza humana que se nega a fazer os pactos a que sorrateiramente somos coagidos por um entorno saturado pela aparência e falsidade das relações. O próprio Flaubert chegou a declarar ao concluir Madame Bovary: “Quando escrevi a cena do envenenamento, senti na boca o gosto do arsênico, senti-me envenenado. Tanto que tive duas indigestões seguidas – duas indigestões reais…”

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Diante da minha paixão pela literatura, sempre me peguei pensando em algumas semelhanças que se fazem notar nas grandes personagens femininas que, muitas vezes, dão nome a grandes obras. O interessante neste ponto é discutir qual seria o perfil da mulher que merece ser lida, entendida, revelada. Vejamos a emblemática Anna Kariênina de Tolstói, mulher que conserva como características a ambiguidade, que por ela não é muito bem exercida, o misto de calma e desespero, o amor – no sentido mais escandaloso deste sentimento. Anna sofre mas arrisca, ama, mas não hesita em trair, chora, nem sempre de tristeza, sentimento que exprime nem sempre através de um olhar. A grande inspiradora das barbas de Tolstói é uma mulher adúltera, impetuosa, frágil e desesperada, a ponto de extinguir a própria existência arremessando-se sem medo sob os trilhos de um trem.
E o que dizer de Madame Bovary, a mulher marcante de Gustave Flaubert, não por acaso, ou se por acaso for, adúltera, amante, impetuosa, apaixonada, misteriosa. Madame Bovary envolve-se de corpo e alma. Ao ler a obra e as palavras que se referem a ela, não se sabe ao certo como ela é, mas se tem certeza de como ela não é. Uma Madame que não hesitou em ser o que é em essência, manteve-se fiel ao seu interior até o fim – fim trágico – mas fim, mesmo que ditado por uma dose de veneno.
E o que dizer da nossa Capitu, de seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada, de seus olhos de ressaca, expressões fortes, simples e reveladoras da alma de muitas de nossas mulheres. Só poderiam ser cunhadas por Machado de Assis. A sua Capitu, sem dúvida, representa muitas mulheres. Uma Capitu esperta, e, ao mesmo tempo, ingênua, impetuosa, corajosa e confiante. Uma mulher que traz para si tudo e todos apenas com o olhar. Uma mulher que mente e encanta, fascina e corrompe. Capitu não escolhe a morte como Anna Kariênina e a nossa querida Emma (Madame Bovary), talvez porque ela fosse viva demais, confiante demais, a cigana digna dos feitiços da alma e do corpo. Anna e Emma nem por isso foram menos ambíguas, fortes e encantadoras, o fato é que estas não portavam a confiança e a total capacidade de ser duas, como Capitu. Elas optaram pela morte, talvez, porque só por meio desta poderiam ser quem elas realmente gostariam de ser. Não tinham os olhos dissimulados de Capitu e sim olhos de angústia e latência, olhos de atitudes desesperadas que se traduziram no veneno de Madame Bovary e no trilho do trem de Anna Kariênina.
As mulheres de nossa literatura são no mínimo instigantes, diferentes e curiosas, daí concluo que a heroína, aquela que é digna de ser o centro de uma história, não é necessariamente a que porta a moral e os bons costumes e sim aquela que é autêntica não importando se para o bem ou para o mal.

O destino final de Anna Kariênina

Capitu: “Olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhos de ressaca”

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