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Posts Tagged ‘Marcel Proust’

Marcel Proust e tudo o que há por trás de uma “madeleine”, de pedras irregulares, da textura de um guardanapo, do tilintar de uma colher num prato…

[…] na verdade, o ser que então saboreava em mim aquela impressão, saboreava-a no que ela tinha de comum num dia antigo e agora, no que tinha de extratemporal, um ser que só aparecia quando, devido a uma dessas identidades entre presente e passado, podia encontrar-se no único meio onde poderia viver e gozar da esssência das coisas, isto é, fora do tempo.

[…] Demais experimentara eu a impossibilidade de atingir na realidade o que estava no fundo de mim mesmo;[…] Porque as verdades que a inteligência apreende diretamente entrevendo-as no mundo da plena luz possuem algo de menos profundo, de menos necessário que as que, sem as termos procurado, a vida nos comunicou numa impressão, material porque entrou pelos nossos sentidos, mas de que podemos extrair o espírito […] que a memória ou a observação conscientes sempre hão-de ignorar.

[…] porque os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos.

Proust, O tempo reencontrado (Volume VII de Em Busca do Tempo Perdido). Trad. Pedro Tamen. Lisboa: Relógio D’ Água, 2005

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Oleg Kozak

“Os lugares que conhecemos não pertencem sequer ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não passam de uma delgada fatia em meio às impressões contíguas que formavam nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é mais que a saudade de determinado instante ; e as casas, os caminhos, as avenidas, infelizmente, são fugitivos como os anos” (p. 534)

“Mas se esse desejo de que me surgisse uma mulher ajuntava aos encantos da natureza, para mim, algo mais exaltante, os encantos da natureza, em troca, aumentavam o que poderia haver de muito estrito no encanto da mulher. Parecia-me que a beleza das árvores era ainda a sua, e que a alma desses horizontes, da aldeia de Roussainville, dos livros que lia naquele ano, o seu beijo me revelaria; e minha imaginação, retomando forças ao contato da sensualidade, e minha sensualidade se espalhando por todos os recantos da minha imaginação, faziam com que o meu desejo não tivesse limites” (p. 202)

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A Revista Bravo! , do presente mês de março, traz uma reportagem sensacional e sugestiva a respeito da presença de mais de cem obras de arte em Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, obra-prima lançada entre 1913 e 1927. Ao longo da reportagem nos deparamos com um Proust que largamente influenciado pelas obras de arte – algumas vistas apenas através de reproduções e fotografias – carrega-as de sentimentos, interpretações e associações com seus personagens mais emblemáticos de Em Busca do Tempo Perdido. Quando pensamos, por exemplo, no personagem mais conhecido da saga literária de sete volumes, Charles Swann, vemos que ele tinha dois interesses na vida: o pintor holandês Johannes Vermeer – um gênio da pintura já esquecido na época em que se passa o romance, início do século XX – e as mulheres. Até que ele se apaixona por um furação chamado Odette de Crécy que faz com que todas as mulheres para ele pareçam irrelevantes. O fato é que Swann entende e fala muito de arte na história por ele vivida, deixando clara uma correspondência com o próprio Proust, sempre muito antenado em matéria de arte. É de todo muito interessante trazer a pintura para as páginas de um livro, relacionar cenas tão subjetivas à história de personagens igualmente subjetivos, refletindo assim o próprio espírito da literatura de seu tempo. Mas o desafio não é apenas descrever uma obra de arte nas páginas de um livro e sim adaptá-la à literatura, ao desenrolar da história, ao drama dos personagens, dentro daquilo que Proust tem como essência: a semelhança e a aparência. Ainda não li Em Busca do Tempo Perdido, espero um fôlego quase eterno e uma ampla disposição de tempo, mas vou ler com absoluta certeza. Mesmo assim, pelo que já conheço da obra, sei que ela traz consigo verdadeiros manifestos sobre a arte. E que o próprio tema central do livro, a memória, é também o elemento principal que governa a relação de Proust com esta manifestação por ele tão citada.

Coloco aqui à disposição dos navegantes um trecho de Em Busca do Tempo Perdido citado na revista Bravo! , que dá um exemplo da costumeira comparação que Proust fazia entre seus personagens e os de telas famosas, relacionando obras de arte com situações, lembranças e momentos da sua obra literária, uma obra que poderia ser vista como uma busca da pintura perdida, não apenas de um tempo perdido!

A mulher pintada e a real

As Provações de Moisés, Botticelli


Detalhe de Séfora em As Provações de Moisés

“Essa semelhança conferia a ela uma beleza, tornava-a mais preciosa. Swann se acusou de ter desconhecido o valor de um ser que teria parecido adorável ao grande Sandro, e felicitou-se pelo fato de que o prazer que ele tinha ao ver Odette encontrasse uma justificação na sua própria cultura estética”

Proust neste trecho compara Odette de Crécy, paixão de Charles Swann, e Séfora, a moça de cabelos loiros e rosto visível na esquerda da tela As Provações de Moisés, do pintor italiano Botticelli.

“Para Proust, a arte é a relação contínua entre a imagem da tela e as lembranças pessoais que ela evoca em nossa mente.”
Jorge Coli, crítico de arte e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

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