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Posts Tagged ‘morte’

Pleiades - Max Ernst (1920)

Pleiades – Max Ernst (1920)

(13)

Não leiam se não quiserem ver uma descrição no mínimo “nauseante” do que presenciei certa manhã. Havia acordado há poucas horas. Ainda estava naquele estado de sonolência e incompreensão de si e da realidade ao redor que caracteriza, na maioria das vezes, as horas terríveis do nascer novamente após uma “quase morte”. Depois de tomar meu leite com café na cozinha, abri a porta que dava para a lavanderia. Estava com a ideia de colocar uma roupa no sol. Foi quando meus passos pararam. De repente. Levei minhas mãos ao peito, devo ter contorcido minha face com uma expressão de nojo e repugnância, meus olhos devem ter estalado, o rosto ficado branco. Eu via. Não pude mais me mover um centímetro que fosse para frente, apenas consegui fugir para trás e fechar a porta que segundos antes eu tinha aberto. A imagem voltava. Insistentemente. Principalmente os aspectos mais repugnantes. Feio, feito coisa feita. E subia uma ânsia, uma vontade de colocar para fora a gosma que se formava dentro de mim. Se me lembrava, logo vinha a estranha sensação. Não poderia mais sair. Não sairia de casa nunca mais. Qualquer porta que abrisse, de manhã, logo depois de acordar, ele estaria lá, à minha espera. O rato morto, gordo, grande, com duas marcas de sangue no pescoço. Dentadas. O rabo comprido, desenhando uma curva no chão e, diante da boca, o vômito da morte, uma gosma amarela, ainda molhada. Quase como um pedaço do inferno. Foi o que eu vi.

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Picasso

Picasso

(11)

O corpo pede a si mesmo. O corpo pede um outro. Limites, luares, lugares. Era um lugar que quase ia sozinho, ansioso, suado, faltoso. Tudo começava pelo meio. Pelo centro onde a percepção do novo se dava. E se espalhava. Em direção aos pés e às extremidades da cabeça. Cada fio de cabelo espalhado sobre a superfície lisa, com algumas dobras. Os pés procuravam o outro em quem se encostar, ou contorciam-se em si mesmos, girando para fora, para dentro, para fora, para dentro, para fora, para dentro. As pernas faziam curvas no ar, desenhavam o mundo em derramamentos e ascensão. Tinham o seu par equivalente, a conversa ia longa e libidinosa, entre tonta vertigem gostosa. O ventre se expulsava de si, esticando-se, abrindo todos os seios, encolhendo-se de modo a preparar o próximo movimento. O rosto. Em chamas. A boca vermelha, entre aberta, a língua em constante agitação interna. A secura buscando a água. A imobilidade farejando o momento. O nariz entusiasmado. Os olhos… Ah, estes iam nem abertos nem fechados. Em zona de tempestade e bonança, quase uma onda prestes a estourar, quase um rio aparentando calma, linear. Os olhos eram um sortilégio à parte. No prazer dilatavam, atraíam, faziam que iam e ficavam, iam e ficavam. Lançavam-se sobre os pelos espalhados, sobre o ar com cheiro de suor enfeitiçado, lançavam-se sobre outro olhar perdidos na própria semelhança de estrutura, apenas com desvio de cor, com desvio de brilho. Apenas. Os olhos se fechavam enquanto o centro explodia em festa. Os braços e as mãos agora pousados em estado de morte. Os braços e as mãos que tanto buscaram. Agora pousados, nunca mais sozinhos. Laços, linhas, velas, lamparinas, noite, dia, ávidos, fêmea, macho. Um ao outro destinados pelo erótico abraço.

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Acabaram-se as brincadeiras no quintal
As fugidas da escola
As aulas de história

Acabou-se o beijo roubado na esquina
A cara pintada de verde
As bonecas cor de rosa

Acabaram-se as paqueras do intervalo
As noites intermináveis
As viagens de carro

Acabaram as músicas do carnaval
A falta de gente na rua
As danças e o coral

Acabou-se a solidão apressada
A mágoa desencontrada
A expressão na fábrica

São José acabou com os primeiros amores
As primeiras festas
Os primeiros choros e sabores

Acabou-se José, Maria, João
Pois tudo há de acabar então
As luzes já são outras

São José acabou-se e nunca me disse não.

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Se reagir, está morto!

A guerra é oficial, acontece em plena democracia. A polícia paulistana é uma das que mais matam no mundo. Mata mais que os “bandidos” e ainda levanta e emposta a voz para falar de suas “corajosas ações” em defesa da segurança pública.

Segurança pública. O que é a segurança pública? Matar a todo e qualquer custo, mentir para a população, os fins justificam os meios, olho por olho dente por dente. Pois é, estamos em guerra e esses são os lemas de nosso Estado falido.

Essa é a triste, porém verdadeira, constatação de nossos tempos. Somos um país regado por um cada vez mais amargo e venenoso caldo de violência. Somos violentos desde a nossa descoberta, com o genocídio dos índios. Somos violentos desde a nossa colonização, com a exclusão do povo e com a escravidão. Somos violentos desde a nossa independência, com a herança de uma modernização conservadora onde realmente não há superação, apenas eco e retrocesso.

Somos violentos desde nossos anos de Ditadura Militar, com as tantas mortes injustificadas, com os muitos corpos desaparecidos, com os suicídios forjados, com as torturas vis. Com o ódio à liberdade, à igualdade. E desde então, seguimos desiguais, vivendo uma ilusão de progresso e felicidade.

Não que o Brasil esteja condenado ao destino da modernização conservadora, à desigualdade perpétua, a não ser feliz. Dirão muitos: mas nós somos muitos felizes, Deus é brasileiro, o país é o do futebol, temos o carnaval, temos as mais belas praias. Sim, somos tudo isso.

Mas não somos só isso e, mais do que tudo, somos dois. Os dois Brasis de Euclides da Cunha são reais e falam todos os dias, nunca falaram tão alto, gritam extenuados, mostram-se em cada injustiça, em cada rosto de criança sem esperança, em cada morte sem explicação, em cada mito repetido a uma população que, iludida, ainda se crê protegida pela mesma violência que a impede de ser livre, realmente livre.

Assim, eu pergunto. Somos livres? Somos uma democracia? É democrático o estado que mata de forma injustificada, como fez a polícia de São Paulo? Que expulsa a população de suas casas, como fez a mesma com o caso Pinheirinho? Que engana a população, como fez o governador do Estado ao dizer que os fatos serão apurados depois de elogiar a ação com uma frase típica de líderes autoritários: “quem não reagiu está vivo”?

Onde está a diferença entre a vítima e o algoz? Por isso digo, estamos em guerra e, o que é ainda pior, ela não acontece mais porque o estado é de exceção, como acontecia na época da Ditadura, onde se matava e não era preciso dar muita explicação, um simples “tudo será apurado” e uma história inventada já resolvia a questão. Não havia imprensa livre, nem investigação.

Agora, em tese, viveríamos em um estado democrático. A imprensa é livre, os poderes estão aí para fiscalizar uns aos outros, a voz do povo é soberana, o governo é do povo. Ocorre-me pensar em Walter Benjamim quando ele diz em suas Teses sobre o Conceito de História que o estado de exceção no qual vivemos é a regra e que a verdadeira revolução seria aquela que instaurasse o real estado de exceção, onde não haveria mais a dominação de uma classe por outra.

Não vivi em uma Ditadura e não posso dizer o quanto Benjamin estaria sendo injusto com as nossas tão estimadas liberdades, arduamente conquistadas, no entanto, uma coisa creio que posso afirmar. Se hoje a realidade brasileira é bem melhor do que aquela dos anos de chumbo, ela, sem dúvida, está impregnada com a herança de violência, injustiça, repressão e desigualdade deixada não só por eles, mas por toda nossa história.

A mancha de sangue ainda cheira e cheira mal. E agora, lembrando Clarice Lispector, ainda precisamos de treze tiros para matar, para extirpar todo nosso ódio. Um não é suficiente. E assim morrem meninos nas esquinas pobres, filhos, mulheres, bandidos… Assim morremos todos nós, um pouco por dia, presos em nossa liberdade.

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Constantin Guys

Na sucessão de dias e de noites,
confusão de arrepios e açoites,
sou eu que ando na multidão
a procurar sentidos e
respostas que não mais estão.

Repetição incansável onde o novo se abre.

Pode viver hoje a aventura de sua vida,
encontrar um grande amor,
ter uma ideia improvável,
entrar em uma discussão,
fazer as pazes, compor uma canção.

Pode ter tudo na promessa do agora.

Inventar espelhos,
ver-se de frente, de costas,
cheia de colares ou ausente de adereços.
Guardar na memória ou pensar:
Esqueço e nada mais.

Transgressão tão desejável.

Acúmulo de mortes empoeiradas.
Mulher tão cheia de noite que
não vê sua fábula, seu conto de fada.
E segue a escrever sua carta
a nenhum destinada.

M.V

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“Foi assim que Ana, coberta com as quinquilharias mundanas da minha caixa tomou de assalto a minha festa, varando com a peste no corpo o círculo que dançava, introduzindo com segurança, ali no centro, sua petulante decadência, assombrando os olhares de espanto, suspendendo em cada boca o grito, paralisando os gestos por um instante, mas dominando todos com seu violento ímpeto de vida […] Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo lance alongando o braço e, com graça calculada (que dêmonio mais versátil!) roubou de um circundante a sua taça logo derramando sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado retrocesso languido, provocando a ovação dos que a cercavam […] (eu me reconstruía nessa busca! Que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre nos meus transportes!), eu que estava certo, mais certo do que nunca de que era para mim, e só para mim, que ela dançava…”

Raduan Nassar, Lavoura Arcaica

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Luigi Pirandello

“Se eu começar a correr”, pensei, “ela me seguirá!”
Passei a mão na testa com força, com medo de estar ficando louco, de transformar aquilo numa obsessão. Mas era isso mesmo! O símbolo, o fantasma da minha vida era aquela sombra: eu era esse aí no chão, à mercê dos pés dos outros. Era o que restava de Mattia Pascal, falecido na Stìa: sua sombra pelas ruas de Roma.
A sombra tinha um coração, mas não podia amar; tinha dinheiro, mas qualquer um podia roubá-lo; tinha uma cabeça, apenas para pensar e compreender que era a cabeça de uma sombra e não a sombra de uma cabeça. Nada mais que isso! (O Falecido Mattia Pascal, p. 229)

Porque a vida, por todos os seus descarados absurdos, grandes e pequenos, dos quais está tranquilamente repleta, tem o inestimável privilégio de poder prescindir daquela estúpida verossimilhança, à qual a arte se crê obrigada a obedecer.
Os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros. Ao contrário dos da arte que, para parecerem vedadeiros, precisam ser verossímeis. E sendo verossímeis, deixam de ser absurdos.
Um acontecimento da vida pode ser absurdo; uma obra de arte, se é obra de arte, não.
De onde se deduz que tachar uma obra de arte de absurda e inverossímil, em nome da vida, é idiotice.
Em nome da arte, sim; em nome da vida, não. (Luigi Pirandello em Advertência sobre os escrúpulos da fantasia)

O caos, se existe, é deliberado; o mecanismo, quando existe, é também deliberado. Não por mim, mas pela própria história, pelas próprias personagens, e logo se descobre que frequentemente é proposital e desvendado no próprio ato de construí-lo e estabelecê-lo. É a máscara para uma representação, o jogo dos papéis; aquilo que desejamos ou devemos ser; aquilo que parecemos ser aos outros; enquanto o que somos, até certo ponto, nem nós mesmo sabemos. É metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos; a construção, frequentemente comlexa, que fazemos de nós mesmos ou que os outros fazem de nós. Portanto, um mecanismo sim, em que cada qual deliberadamente, repito, é a marionete de si mesmo e, por fim, o chute que faz voar toda barraca.(Luigi Pirandello em Advertência sobre os escrúpulos da fantasia)

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