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maternidade tarsila amaral

Maternidade, de Tarsila do Amaral – 1938

Neste silêncio estendido
e nas palpitações de uma espera
pela fala que não quero ouvir
de dentro de situações
que me repelem.

Afastam-se e afasto-me
daqui. Volto para as
rotinas intermináveis e
repetidas destes meus dias.

Volto para o lençol
nas manhãs desarrumado
para o insistente voo
dos pássaros e para
aquele café com leite

de todos os gostos
e de nada. Para a água
a enxaguar os pratos
junto com o sabor daquele
tempero ralo e ultrapassado.

Eis que se estende
generoso o silêncio
e volto a cobrir-me do
invencível pó a cerrar
meus olhos, a suspender
minha voz e prolongar

essa estação entre flores
e frutos. Volto para
a estante da sala
para a bagunça da casa
para aquele vão
onde não me encontro e
para onde nem sei se vou.

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picasso

“Mulher jovem”, Pablo Picasso

Olho solta
a boca com batom.
Naquele espelho
gasto de horas
e demoras
sinto o chão.
Não há quem vista meu corpo
até que eu mesma me vista
aí então
os cabelos daqueles anos
olham os olhos pelo espelho
também eu sinto raiva e
protesto. Também eu
no meu compasso modesto
também eu digo sim
e arrebento meu coração.

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Maria Martins

Maria Martins

Não terminavam jamais
nenhuma daquelas minhas dores.
Nem sossegavam, nem se iam,
sempre por ali, escondidas
entre meus cabelos lisos.
Podiam-se enganar os sorrisos,
os sonhos sonhados por pouco,
perdidos por quase nada e
podiam passar por mim
quantos fossem os anos,
nunca soube o que fazer
com toda aquela tristeza
que foi se incrustando no corpo
feito massa ou feito pedra.
E a mim só foi ensinado suportar,
como as mulheres de minha terra,
E mesmo diante da beleza do revolucionário
esse fundo de mim sempre temia
e aceitava as coisas da vida.

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Ido Luongo

Ido Luongo

Mulheres deitadas
na noite esticadas.
A conversar consigo,
a pensar o mundo.
Leves às vezes estão
pesadas em tantos
pensamentos que a mente
enfadada curva-se sobre
a madrugada e o retrato da
mulher é um canto
à beleza roubada.

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Lasar Segall

Lasar Segall

(14)

Bruxa

A olhar o distante a desenhar detalhes a mulher: transgride. No rastro do amor morto, ouvindo o amor impossível. Sufocada, sufocada de tanto amor, a mulher insiste. Nada. Ouvia o sopro morno da angústia. Ardia em febre nos últimos dias. Eu tinha uma amiga que me lembrava os romances. Dividida, impetuosa, aflita. Sabia que sim, sabia que era pra ser assim. Ela sabia o que era. Bonita. Nem jovem, nem velha. Daquelas, ali, eternas. O corpo e cor(ação) fracos. De aço. Achados. Magros. Doídos. Doloridos. Durante. Dias. Dúvidas. Diante. Duas. Doze. Dar. Durar. Delicia. De amar. Demais. Demenos. Dançar. Doce. (in) Decente. No som do sopro a sereia se faz. Salva o abismo dos olhos de quem não mais a pode tirar. Fonte e furor das paixões erradas. Traições mascaradas. Tabus amaldiçoados. Fogo. Fartura. Flor. Força. Fruto (o proibido). Formosura. Fundura. Ela era assim. Uma amiga. No concordar das distâncias: ela transgride. Mulher que não se cabe de tanta vida.

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Matisse

Matisse

(12)

Arcaica. Vejo-a sentada de costas. Um corpo reto, correto, as formas sutis dividindo a paisagem. Os cabelos presos, negros, o corpo todo à mostra, sem vestes. Os braços escondidos em sua frente não se deixam ver. Ela se reserva. Mostra a curvatura sensual da cintura, a timidez dos movimentos breves. Pode estar lendo um livro, ouvindo uma música, ou simplesmente de olhos imóveis arrastados pelo chão. Pode estar pensando feliz. Ou perseguindo-se triste. A tristeza sem nome, a tristeza tão desavisada. Pode ter todas as idades. As costas denunciam uma firmeza atemporal, uma eternidade constante, fora do tempo, no tempo ontem amanhã. Conquistadora de todos que seu olhar atravessam. Persistente feiticeira de graças infindáveis, jeito doce, movimentos como que sedentos de vontade, não cabendo em si de tanta beleza, de tanta sedução infatigável. Vejo-a inteligente concentrada. Passando pelo conhecimento de toda poesia, de toda matemática. Da sabedoria prudente. Também entre sombras pode ser encontrada. Sabe-se lá que névoas a perturbam, que noites de todas as noites, que descida aos infernos, que trama enredada no limiar da vida. Fértil, sempre fértil. Seu largo quadril assentado sobre a cadeira revela tamanha força, expressão de vida selvagem, moldada com a cera da origem quase incendiária. Ela poderia mostrar-me o rosto. Deixar-me ver seus tons, suas marcas. Mas não há chance de olhar-me. Luta em segredo. Contra o mundo, contra si mesma. Nunca. Nunca a saberá por inteira. O outro lado. Alma educada na liberdade. Um verso perdido no corpo pelo vinho sacralizado. Beleza de gestos cheios de saudade. Olhar-te sem dúvida apavora. Mas pedes o que quiser. Mulher.

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Imagem: Divulgação

“Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamentos e estados d’alma (em prosa e em verso) nos diários de capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou pombinhos brancos levando um coração no bico. Nos diários mais simples,cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro. Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de mulher casada só podia ser bandalheira. Restava o recurso do cadernão do dia-a-dia, onde, de mistura com os gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim do mês, elas ousavam escrever alguma lembrança ou uma confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola” (p.14)

“Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas,
ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se
deles, dizem coisas amáveis, mas guardam
certa distância, não invadem o casulo
imantado que envolve os amantes e que pode
explodir como um terreno minado, muita
cautela ao pisar nesse terreno. Com sua
disciplina indisciplinada, os amantes
são seres diferentes e o ser diferente é
excluído porque vira desafio, ameaça. Se o
amor na sua doação absoluta os faz mais
frágeis, ao mesmo tempo os protege como
uma armadura. Os apaixonados voltaram
ao Jardim do Paraído, provaram da
Árvore do Conhecimento e agora sabem”.

Lygia Fagundes Telles, A disciplina do amor (1980)

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