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Posts Tagged ‘René Magritte’

Magritte

Magritte

Antes eu tinha saudade do que
não tinha tempo. E ficava a olhar
teu tempo farto em tudo aquilo
que nem com todas as minhas mãos
eu poderia pegar. Que nem com todos
os meus livros e rituais eu deixaria de amar.

Antes eu tinha uma velocidade que
hoje eu nem tento mais. E rasgava
minha voz com todos os meus gritos
e gestos, com todos os meus escândalos
insanos e insaciados por dentro, por dentro
sedentos de tudo que ficasse depois do vento.

Antes eu tinha as graças da desrazão e
você. E você sem muito esforço me
arrastava para o mar, me condenava a
te olhar, como se soubesse, e eu ficava.
Como se pudesse, em repetida ascese,
trazer de mim a parte que não me conhece.

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Memória, 1945, Magritte

E ainda agora existe o tempo
estalando na minha vidraça.
Ainda agora ele se faz senhor
senhor de tudo que passa.

E ainda agora veste-se a solidão
de trajes empoeirados murchos.
Ainda agora me olha nos olhos
certa de que a mandarei embora

mas não.

Agora são os sons do passado que ouço
repletos de estados outros.
Capazes de ainda agora
esboçar a mesma liberdade de antes

ainda que anos já idos tantos.

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René Magritte

No pingar lento dos minutos,
desmaiam cores, sons e formas.
O instante converte-se em absoluto,
suspendem-se ponteiros sem glória.

Os amores vestem suas máscaras,
as sombras perfilam-se de costas.
Os mágicos inventam truque e história,
o maravilhamento suspende a memória.

Simulam-se as guerras e o júbilo,
os corpos festejam a vitória.
O mundo se reparte, as letras se desfazem,
os disfarces desfilam à vontade.

Restam olhos a enganar paisagem,
corpos virando treva na claridade.
Todo sonho entregue, alucinado…

Vai, volta, aperta, solta.
Pede, retira, cai, brota.

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René Magritte

Sons disfarçados
de cores, vi a rua
a porta suja de luto.

Lama negra
do ser, vi o escuro
o verde opaco do mundo.

Incerteza tola
da vida. Vi o futuro
um nada vestido de tudo.

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Pensamante

René Magritte, Os amantes

De que adianta o pensamento,
inútil sedimento de nada.
É como pedaço de lua derramada,
olhar perdido em luz opaca.

Karenina Volque

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Double Secret, René Magritte, 1972 "da estética recortada, do abismo duplo do olhar, dos silêncios que desnudam corpo e alma"

Estava assim em um estado inerte
Envolta por fitas que calavam-me o seio
O pensamento era abundante e cheio de defeito
Dele não sei explicar o todo ou a parte

Só sei que era como um vento disfarçado
Eu rodava em torno de mim mesma
Eu calava e pensava em pratos esparramados pela mesa
Eu era a imagem de um espelho embaçado

E assim sua voz me doía
Teu sorriso feito verme me corroía
Nada me fazia falar quando o ar se fez mudo

Eu era um pedaço de sombra no retiro do mar
O mundo era um pedregulho cinza a me espreitar
Eu divisava no teu olhar o esteio do mundo

M.V

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