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Posts Tagged ‘romance’

Prosa viva, sensível, cuidadosa em cada palavra

Prosa viva, sensível, cuidadosa em cada palavra

“Fui esse farsante pra sobreviver, e durante uns trinta anos só traí tua mãe nas noites e tardes em que dormi com Algisa. O que eu pretendia que tua mãe encarasse como uma vingança sórdida e meio incestuosa de um ciumento, ela via como um ato de desespero, quase infantil. “Meu amor, sei que procuras minha irmã quando não podes me encontrar”, dizia. E era verdade: as duas se pareciam tanto que às vezes eu quase me convencia de que uma podia ser a outra. Mas isso era passageiro, e logo eu me dava conta de que se tratava apenas de uma semelhança física, superficial. Ninguém podia ser tua mãe. E essa foi a única coisa que não pude fingir…” (p. 241)

“Pensei em reescrever minha vida de trás para frente, de ponta-cabeça, mas não posso, mal consigo rabiscar, as palavras são manchas no papel, e escrever é quase um milagre…Sinto no corpo o suor da agonia. Amigo…e não primo. Esse teto baixo, paredes vazias, ausência de cor e de céu…O sol e o céu do Rio e do Amazonas…nunca mais…Só essas paredes, e esse cheiro insuportável…Agora escuto a minha própria voz zunindo e sinto fagulhas na cabeça, e a voz zunindo, fraca, dentro de mim…Não posso mais falar. O que restou de tudo isso? Um amigo, distante, no outro lado do Brasil. Não posso mais falar nem escrever. Amigo…sou menos que uma voz…” (p. 264)

HATOUM, Milton. Cinzas do norte. 1ºed. São Paulo: MEDIAfashion, 2012

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“Deus do céu não há nada no mundo como a natureza as montanhas selvagens e então o mar e as ondas se precipitando e então um campo belo com plantações de aveia e trigo e toda sorte de coisas e todo o belo gado perambulando isso faria bem ao coração da gente ver os rios e lagos e flores de toda sorte de forma e perfume e cor surgindo até mesmo dos fossos primaveras e violetas isso é natureza […] quando eu era uma mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu pus uma rosa no meu cabelo como as moças andaluzas usavam ou será que eu vou usar uma vermelha sim e como ele me beijou debaixo do muro mouresco e eu pensei bem tanto faz ele como um outro e então eu lhe pedi com meus olhos que pedisse novamente sim e então ele me pediu se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus meus braços à sua volta sim e o arrastei para baixo sobre mim para que ele pudesse sentir meus seios todos perfume sim e seu coração disparou como louco e sim eu disse sim eu quero Sim”.

James Joyce, Ulisses (p. 838, 839)

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Vai e volta...sem nunca acabar...

Vai e volta...sem nunca acabar...

“Seu Evaristo balançava. Às vezes apareciam as costas curvadas. Outras vezes surgiam a barba branca, a língua fora da boca, os olhos abotoados, a careca, e era como se ele fosse dar um salto. Esta ideia absurda de um homem saltar depois de morto bulia comigo. Aquele defunto levantado, com os pés no chão, ameaçando-me com um salto que poderia trazê-lo para junto de mim, apavorava-me. A corda que o sustinha, apenas visível de longe, fininha como aquela que ali estava em cima da mesa, torcia-se e destorcia-se. A mulher de seu Evaristo, caduca, olhava-o, sem lágrimas”. (p. 159)

“Movemo-nos como peças de um relógio cansado. As nossas rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras rodas velhas, de dentes gastos. O que tem valor cá dentro são as coisas vagarosas, sonolentas. Se o maquinismo parasse, não daríamos por isto: continuaríamos com o bico da pena sobre a folha machucada e rota, o cigarro apagado entre os dedos amarelos. Deixaríamos de pestanejar, mas ignoraríamos a extinção dos movimentos escassos. Os rumores externos chegam-nos amortecidos. Que barulho, que revuloção será capaz de perturbar esta serenidade”? (p. 165)

Graciliano Ramos, Angústia

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Raul Pompéia

“A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o indivíduo sem atender à existência de outro indivíduo. Pode ser obscena na opinião da moralidade: Leda, pode ser cruel: Roma em chamas, que espetáculo! Basta que seja artística. Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana – acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaga como a orgia e como o êxtase. E desdenha dos séculos efêmeros”. (p. 107 e 108)

“Ensaiados no microcosmo do internato, não há mais surpresas no grande mundo lá fora, onde se vão sofrer todas as convivências, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialética geral, e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde, porque a perfídia terra-terra é um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora; onde o aviltamento é quase sempre a condição do êxito, como se houvesse ascensões pra baixo; onde o poder é uma redoma de chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca para as dissoluções babilônicas do instinto; onde o que é nulo flutua e aparece, como no mar as pérolas imensas são ignoradas, e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma”. (p. 166 e 167)

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“Quando a virtude triunfa e as coisas são como devem ser, nossas lágrimas são contidas antes mesmo de correrem; por outro lado, se depois das mais duras provações, vemos, enfim, a virtude aniquilada pelo vício, inevitavelmente nossas almas se dilaceram, e tendo a obra nos comovido excessivamente, como dizia Diderot, ensanguentando nossos corações pelo avesso, indubitavelmente deve produzir o interesse que por si só, garante os louros”. (p. 33)

“Sendo o romance, se é possível exprimir-se assim, o quadro dos costumes seculares, para o filósofo que quer conhecer o homem, ele é tão essencial quanto a história, pois o cinzel da história só grava o que o homem deixa ver, e, então, já não se trata mais dele. A ambição, o orgulho, cobrem sua fronte com uma máscara que nos representa apenas essas duas paixões, não o homem. O pincel do romance, ao contrário, capta-o no interior…pega-o quando ele retira sua máscara, e o esboço, bem mais interessante, é também mais verdadeiro: eis a utilidade dos romances. Frios censores que não os amais, pareceis com aquele aleijão que dizia por que se fazem retratos“? (p. 36)

Marquês de Sade, Nota sobre romances ou A arte de escrever ao gosto do público

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