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Posts Tagged ‘Saramago’

Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.
Saramago, Memorial do Convento, p. 113


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E essa Copa ainda é mais Copa, porque a magia rola na África, agora é África!

Quase não falei aqui no Impressões sobre a morte de Saramago, tampouco sobre a Copa do Mundo, arrisquei-me fazendo uma poesia, a primeira sobre futebol. Até que gostei do resultado. Sobre o mundial, talvez a ausência do assunto por aqui se deva à já bastante completa e diria quase esgotada cobertura feita pela grande mídia.

Hoje, no entanto, acordei estranha, bastante estranha a mim mesma e agora pego-me pensando em como de fato aqui faltaram algumas palavras, raras e rasas que fossem, dedicadas primeiro à morte de Saramago e depois ao mundial, ou, se possível, aos dois de forma simultânea, quase mutualística.

No espernear de minhas dúvidas pensei de repente em Saramago. Lembrei do seu céu tão bem descrito, de como ele fala, e só ele o faz tão bem, do vermelho tingindo o azul, do azul misturando-se com o rosa, do rosa recebendo o negro, a escuridão da noite. Vieram-me algumas palavras, diria mais sensatas e menos sábias, Saramago não era um sábio, tenho-o como um homem que sabe da vida porque sempre se deixou observar por ela, no mesmo instante em que a perfurava com a lapidação belíssima da linguagem e com a sensibilidade pura do seu olhar. Vieram, de repente, sentimentos de angústia, morte, cegueira, uma profunda reflexão sobre o homem e sobre o calor do sol, a quentura do tempo.

Saramago vai me fazer falta, gostava bastante de seus cadernos na internet. Tão puros, tão limpos, tão simples e cheios de tudo. Lá ele mostrava um pouco do homem, sempre morando no seio da literatura. Nos últimos dias ele já não vinha escrevendo tanto, mas, de vez em quando, algo de seu por ali aparecia. E como ele sempre se fez belo, dançante, suspenso, infantil e maduro.

O fato é que os tempos são sim de Copa do Mundo, ela ocupa todos os espaços, deixa atordoados a maior parte dos espíritos, o futebol tem uma magia própria, assim como a literatura. A morte de Saramago em tempos de Copa do Mundo me fez pensar em como o futebol seria por ele descrito.

Algo do tipo:
E naqueles instantes em que a humanidade vibra quando ela enfim, salta, ergue-se e brilha. Todos de repente nascem, parece que se fala apenas de um só e, no entanto, são vários. Múltiplos, coloridos, pintados, bonitos, buzinados! E o azul se tinge de verde, e o verde se tinge de branco e o mundo se faz entorpecido de desejos.

Eis talvez uma grande obra de arte, não há perda de arte, pelo contrário, ela se amplia, se faz viva, explode em uma embriaguez sublime, em um extravasamento que destrói no mesmo movimento em que constrói. A arte, enfim, respira em meio ao suor que escorre pelos rostos, em meio aos pés que pensam enquanto pelo gramado dançam, as lágrimas se soltam no intervalo de um abraço, de um sorriso, no instante da vertigem que reside no duelo com o outro, que se traduz no reconhecimento e estranhamento de si mesmo.

E quando tudo se esparrama, quando o instante é o do grito de gol, já não há mais homens, ali são apenas corações, pra quem realmente entende de arte, ali reside o sublime, o êxtase, a catarse de toda uma geração. A arte é intrínseca a esse espetáculo, arte não se perde como se perde uma roupa ou um botão, a arte é dali, do campo, da bola, arte não distingue cultura, arte é um pequeno milagre, é cor, forma e pulsação.

Saramago diria bem melhor, mas agora, no fim destas linhas, a saudade dele já diminui um pouco, afinal, Saramago está aqui ao meu lado, basta abrir um livro, basta navegar de olhos fechados e alma doce e sincera. Algumas almas e diria mais, algumas Copas, nunca morrem, posto que são arte, são exceção, afinal, já diria Godard, cultura é regra, arte é exceção.

..."Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?"

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Adaptação teatral de O Evangelho segundo Jesus Cristo, em São Paulo, 2001

Jesus caminha pelo deserto na companhia de alguns pensamentos, outros ou os mesmos sonhos, lembranças e frustrações. Caminha entre o silêncio estático do universo, entre a força potencial da natureza, diante da infalibilidade de um destino a se cumprir.
Aos poucos vai protagonizando as cenas da história de um homem que foi dito “filho de deus” e messias, portador da boa nova, dos novos tempos, da era de paz e prosperidade, um reino que estaria aberto para os que de seus pecados se arrependessem e de deus esperassem o perdão purificador e renovador. Eis a história contada a mais de dois milênios, perfeitamente construída em seus detalhes, discursos, mensagens, pressupostos e subentendidos. A história de um homem capaz de curar os males, fazer sarar as feridas de dentro e de fora, fazer andar aquele que já não se movimenta, fazer ver aquele que já não enxerga, fazer brotarem peixes do fundo do mar e parar tempestades vindas do céu. Eis o homem que nasce e morre crucificado, para a redenção dos demais, para a glória de seu pai e para o “bem de toda humanidade”.

Os traços expostos nestas linhas tecem os fios de uma história já contada muitas vezes, por milhares de vozes, em milhares de anos, a história sobre a qual se funda o poder da igreja católica e do deus, protetor e acolhedor dos homens tão cheios de pecados. A história do “filho de deus” já é demasiado conhecida, no entanto, o que se sabe é a versão oficial, o que se conta, o que se continua e o que encontra eco em cada lugarejo deste mundo onde exista um homem em pé, falando ao demais, estes sentados ou ajoelhados, quase sempre de cabeça baixa e atenção tão estática quanto fugidia. O que se conhece e se repete é a versão dos vitoriosos, como acontece com grande parte da história da humanidade. Até que, um homem metido a brincar e embelezar as palavras, decide por meio de uma prosa tão bela quanto inteligente e poética, recontar a história que a milhares de anos nos é repetida de forma frenética e, ao mesmo tempo, ensurdecedora. Decide recontar essa história deixando pra trás a grandiosidade do simbólico, a abstração do miraculoso, a lógica do imagético, recorrendo apenas à simplicidade e essência das histórias que são essencialmente humanas, por acontecerem na terra e envolverem homens comuns, iguais a qualquer outro, com as mesmas aflições, os mesmos medos, os mesmos desejos, os mesmos sonhos, as mesmas incoerências.

José Saramago

José Saramago, escritor português, único escritor de Língua Portuguesa a conquistar um Prêmio Nobel em Literatura, autor de tantas belíssimas obras como Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento, A Caverna, A Viagem do Elefante, dentre outras, é o homem que se propõe a recontar a história do filho de deus, e o faz com tal maestria, apuro e trabalho de linguagem que torna possível que uma história tantas vezes já contada se torne tão surpreendente como se fosse a primeira vez que a escutássemos.
Em O Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago conta aos homens a vida de outro homem e fala de história, vida, perdas, lembranças, destino e morte. Localiza a história no tempo e no espaço, descreve lindamente e de forma emocionada e sonora os lugares, a imensidão do deserto, a pequenez de uma casa, constrói as personagens de forma real e humanizada, ou seja, bem diferente da imagem revestida de santidade e simbologia que sempre se conheceu.

O Evangelho segundo Jesus Cristo se faz original desde as primeiras linhas. Maria é uma mulher comum, trabalhadora, corajosa, que ama e sucumbe a paixões como qualquer outra mulher. Dessa forma, ela não é mais aquela mulher virgem que engravida do espírito santo. Jesus e seus outros filhos são todos frutos de relações sexuais, tão ou mais lindas e puras do que a presença do espírito santo. Saramago vai desconstruindo em sua obra, um a um, todos os dogmas, preconceitos, moralismos e contradições sobre os quais se assenta a religião católica e a própria história de Jesus. Ele mostra um Jesus atormentado por pesadelos, inebriado por sonhos, cheio de dúvidas, desejos latentes da carne e do espírito. Um homem inteligente e perspicaz que, nunca se cega totalmente em relação ao poder que por deus lhe foi atribuído.

E assim, Saramago constrói o enredo de uma história que se escreve por meio de uma linguagem poética, esteticamente rica e bela, carregada de analogias, figuras de linguagem, metáforas, ironias e personificações, em meio a uma prosa densa, porém sonora, um estilo difícil porém completo, que se faz inteligente e audacioso em cada linha, que se surpreende e se interroga, ao mesmo tempo em que surpreende e interroga os olhos de quem pelas suas linhas passeia, por horas marejados e anestesiados.
Ao mesmo tempo, Saramago explora períodos de descrição que se fazem mais do que belos. Sua capacidade descritiva, imaginativa e associativa é tão grande, clara e exata que é como se nos sentíssemos caminhando pelo deserto ao lado de Jesus, como se sentíssemos a euforia de um milagre realizado, como se compartilhássemos nós também do pão e do vinho multiplicado, como se nossos punhos e pés também fossem perfurados e nosso ar fosse aos poucos faltando enquanto nosso espírito junto ao dele vai aos poucos se asfixiando, mas no nosso caso, asfixiando-se pela linguagem realmente literária e pela história tão bem dita quanto reinterpretada.

Difícil definir uma chave interpretativa para o livro de Saramago, acima de tudo, ele pode ser entendido por meio de uma chave interpretativa sociológica, histórica ou até religiosa e moral. No entanto, é fácil perceber como o autor desconstrói uma história que se consolidou ao longo do tempo não simplesmente pelo prazer de desconstruir e sim pelo desafio de construir uma verdadeira história, mais coerente, mais impregnada de humanidade, realidade e, por tudo isso, mais bela.
A narrativa começa descrevendo a cena da morte de Jesus, o final derradeiro para o qual já sabemos que ele caminha desde as primeiras páginas. O fato é que mesmo sabendo do fim, o meio deste evangelho se faz atraente porque recontado diante de uma nova perspectiva, um meio que além de novo, se sustenta e prende o leitor até as últimas linhas em razão da qualidade, refinamento estético, apuro e cuidado no relato.

Majoritariamente, a narrativa vai se tecendo linear, os diálogos (como já é típico de Saramago) seguem soltos em meio às entrelinhas do relato, dizem algumas palavras que das entrelinhas se sobresaem e escondem tantas outras dentro delas.
Como qualquer romance que se faça realmente bom, o percurso narrativo de O Evangelho segundo Jesus Cristo, tem seus ápices e seus momentos de devaneio e reflexão. Um dos ápices da narrativa, diz respeito ao sensacional diálogo que se estabelece entre deus, o diabo e Jesus. Tal diálogo é extremamente original a começar pelo lugar em que acontece. As paredes que o protegem são formadas por uma neblina que envolve os protagonistas em uma áurea mística e assombrada. O chão, na verdade, está a metros de distância dos seus pés, eles conversam sobre o mar, tão distantes da terra quanto do céu. Para não ficar apenas no lugar, o tempo do diálogo é bastante ilustrativo e pertinente. Deus, o diabo e Jesus conversam durante quarenta dias envolvidos pela neblina da qual já falamos, tão espessa que apenas em poucos pontos se faz transparente, que só se desfaz da superfície do mar quando o diálogo por fim termina e os seus protagonistas de dissolvem no mistério que envolve todos nós.

O fato é que neste diálogo, Saramago emprega toda sua maestria e habilidade literária para revelar um deus ambicioso, sedento por poder, glória e dominação, um deus que não mede esforços em provocar sofrimento, em derramar sangue e lágrimas, em despedaçar almas, tudo em nome de um poder que ele precisa ter para sua própria glória e redenção da humanidade. Além disso, esse deus se revela em toda sua frieza e ambição quando é tentado pelo próprio diabo, quando este, em uma tentativa de poupar a humanidade de todas as mortes e desgraças que virão, propõe negar sua própria existência, extinguir-se enquanto mal para que a humanidade viva em paz. O fato é que deus, neste momento, legitima o mal, afirma ser este necessário e vital para a sua existência e para a expansão de seu poder. Sem o diabo, deus não teria sentido, sem o mal o bem não existiria e, portanto, deus, aquele que prega pela paz, pelo bem, pela harmonia entre os homens, é o primeiro a legitimar a existência do mal, da fome, da guerra em um misto de soberba e contradição.

Esse é o deus que Saramago nos faz conhecer por meio de um novo evangelho, que não sabemos se certo ou errado, mas que, no mínimo, é mais coerente, humano e próximo das coisas da terra, dos seus desejos e das suas securas morais.
A principal lição que fica deste evangelho, além de um exemplo de como se construir literatura e de como trabalhar a linguagem da forma mais bela e emocionada possível, é a percepção e consciência de que algumas histórias se fabricam em seus pequenos detalhes e pormenores, de que alguns homens são construídos para serem heróis, mas não passam de homens como qualquer outro, de que um ser supremo que diz proteger e zelar por todos os demais, sempre acaba sendo seduzido pelo poder de seduzir a humanidade, sempre acaba abusando desse poder, sempre acaba sendo autoritário e, por vezes, mesquinho demais. Se existir um deus, com certeza, ele não é esse deus que a nós nos é apresentado sem que de sua imagem nunca sequer tenhamos nos aproximado e sim um deus muito particular, que é diferente e único para cada um de nós, para cada sofrimento, para cada sonho. Um deus que pode existir na beleza de um deserto, de um céu tingido pelas cores do escurecer, que poder falar pelo choro de uma criança, pelo riso de qualquer pessoa, ou pela lágrima sincera e emocionada que da banalidade destoa. Um deus que pode existir nas belas palavras contadas por Saramago, um deus que não controla ou dita regras, que longe de saber de tudo e ter a capacidade de perdoar, busca, acima de qualquer outra coisa, perdoar a si mesmo e reconhecer-se como essa espiritualidade, essa coisa que existe, paira no ar e não conseguimos explicar, essa coisa que às vezes é destino e às vezes é apenas vontade.

Por fim, o grande e último lance de Saramago neste livro é substituir a frase, talvez a mais dita e repetida no mundo, Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem, pela frase, Homens, perdoai-lhe, pois ele não sabe o que fez.
Diante da exatidão e do impacto dessa nova construção de Saramago, absurdamente inteligente e fantástica, fica claro de quem seria a culpa (se é que existem as culpas), demos agora a César o que é de César, peçamos aos homens que perdoem a deus e não mais a deus que perdoem aos homens, (leia-se romanos).

Nos momentos finais de o Evangelho segundo Jesus Cristo, Jesus vai morrendo e sonhando com os momentos em que conversava com seu pai – José, carpinteiro, homem, morto na cruz por engano – no vilarejo de Nazaré, e não com aquele que a humanidade diz ser seu verdadeiro pai – deus, divino, portador de todas as verdades e toda sabedoria, eternizado por um homem que também morreu na cruz por engano.
E eis que, nas palavras derradeiras, surge o diabo para recolher o sangue do filho de deus.

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“Talvez um dia volte, talvez não volte nunca, talvez até evite voltar, apenas porque há experiências que não se repetem.”

” Acolhimentos como estes não se improvisam.”

” É surda a velhinha, mas percebe se lhe falarem alto e puder olhar de frente. Quando entendeu a pergunta, sorriu, e o viajante ficou deslumbrado, porque os dentes dela são postiços, e contudo o sorriso é tão verdadeiro, e tão contente de sorrir, que dá vontade de a abraçar e pedir-lhe que sorria outra vez.”

“Há que contar com as aldeias históricas, elas estão vivas.”

“As leituras seguintes que fiz de Sabato* quer dos romances, quer dos ensaios, só viriam confirmar aquela minha intuição inicial, a de que me encontrava perante um autor trágico e eminentemente lúcido que, além de ser capaz de abrir caminho pelos corredores labirínticos do espírito dos leitores, não lhes consentia, nem por um só instante, que desviassem os olhos dos mais obscuros recantos do ser. Leitura por isso difícil? Talvez, mas leitura fascinante entre todas.”

“Foi sempre do sono da razão que nasceu, cresceu e prosperou a inumana genealogia dos monstros.”

” É entre o temor e o tremor que decorrem as nossas vidas. “

” Uma educação que propugnasse ideias de superioridade racial ou biológica estaria a perverter a própria noção de valor, pondo o negativo no lugar do positivo, substituindo os ideais solidários do respeito humano pela intolerância e pela xenofobia. Não faltam exemplos na história antiga e recente da humanidade.”

” À universidade porque ela deverá ser tanto uma instituição dispensadora de conhecimentos como o lugar por excelência de formação do cidadão, da pessoa educada nos valores da solidariedade humana e do respeito pela paz, educada para a liberdade e para a crítica, para o debate responsável das ideias […] A universidade, sendo lugar de pluralidades e encontros, reúne todas as condições para suscitar uma aprendizagem prática e efectiva dos mais amplos valores democráticos, principiando pelo que me parece fundamental: o questionamento da própria democracia. Há que procurar o modo de reinventá-la, de arrancá-la ao imobilismo da rotina e da descrença, bem ajudadas, uma e outra, pelos poderes económico e político a quem convém manter a decorativa fachada do edifício democrático, mas que nos têm impedido de verificar se por trás dela algo subsiste ainda. Em minha opinião, o que resta é, quase sempre, usado muito mais para armar de eficácia as mentiras que para defender as verdades. O que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde. E que a universidade nos ajude. Quererá ela? Poderá ela?”

” A Espanha de Gutiérrez Solana é sórdida e grotesca no mais alto grau imaginável, porque isso foi o que encontrou nas chamadas festas populares e nos usos e costumes do seu país […] mas não faltam por aí lugares onde Gutiérrez Solana, se fosse vivo, poderia colocar o seu cavalete para pintar com as mesmas tintas as mesmissimas pinturas. Refiro-me a essas vilas e cidades onde, por subscrição pública ou com apoio material das câmaras municipais, se adquirem touros à ganaderias para gozo e disfrute da população por ocasião das festas populares. O gozo e o disfrute não consistem em matar o animal e distribuir os bifes pelos mais necessitados […] O gozo e o disfrute têm outro nome. Coberto de sangue, atravessado de lado e lado por lanças, […] o touro será torturado até à morte. É atroz, é cruel, é obsceno. […] Que importa que uma cidade faça da tortura premeditada de um animal indefenso uma festa colectiva que se repetirá, implacável, no ano seguinte? É isto cultura? É isto civilização? Ou será antes barbárie?

” […] pessoas para quem a cultura não é somente uma decoração superficial do espírito.

“Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita. […] sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o resto de um sonho que o tempo não apagará por completo. […] Para o tradutor, o instante do silêncio anterior à palavra é pois como o limiar de uma passagem “alquímica” em que o que é precisa de se transformar noutra coisa para continuar a ser o que havia sido. O diálogo entre o autor e o tradutor, na relação entre o texto que é e o texto a ser, não é apenas entre duas personalidades particulares que hão-de completar-se, é sobretudo um encontro entre duas culturas colectivas que devem reconhecer-se.

“Imagino que o espírito filosófico e o espírito científico, coincidentes na sua origem, deverão ter-se manifestado no dia em que alguém teve a intuição de que essa aparência, ao mesmo tempo que imagem exterior capturável pela consciência e por ela utilizada, podia ser, também, uma ilusão dos sentidos […] Se bem que habitualmente mais referida ao mundo moral que ao mundo físico, é conhecida a expressão popular em que aquela intuição veio a plasmar-se: “As aparências iludem.” Ou enganam, que vem a dar no mesmo.

“A minha pergunta será portanto tão simples como as minhas análises: há limites para a indignação? E mais: como se pode falar de excessos de indignação num país em que precisamente, com as consequências que estão à vista, ela vem faltando?”

“Como escritor, creio não me ter separado jamais da minha consciência de cidadão. Considero que aonde vai um, deverá ir o outro. Não recordo ter escrito uma só palavra que estivesse em contradição com as convicções políticas que defendo, mas isso não significa que tenha posto alguma vez a literatura ao serviço directo da ideologia que é a minha. Quer dizer, isso sim, que ao escrever procuro, em cada palavra, exprimir a totalidade do homem que sou […] E que problemas são esses hoje? Que não estamos num mundo aceitável, bem pelo contrário, vivemos num mundo que está a ir de mal a pior e que humanamente não serve. Atenção, porém: que não se confunda o que reclamo com qualquer tipo de expressão moralizante, com uma literatura que viesse dizer às pessoas como deveriam comportar-se. Estou a falar doutra coisa, da necessidade de conteúdos éticos sem nenhum traço de demagogia. E, condição fundamental, que não se separasse nunca da exigência de um ponto de vista crítico.

“Algumas pessoas levam a vida à procura da infância que perderam. Creio que sou uma delas.”



* Ernesto Sabato, escritor argentino

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Nestes tempos corridos e cansativos tenho feito uma análise digamos mais atenta e minuciosa ao jornal Folha de S. Paulo em decorrência de trabalhos e mais trabalhos acadêmicos. Acabo de fazer a análise de um artigo publicado hoje, 23 de março de 2009, pela presente Folha de que vos falo e corri para cá este meu espaço dividir com os caros navegantes um pouco de minha, eu diria, irritação com um artigo, que na minha modesta opinião – e ela é só minha, enfim, algo que acredito possuir de fato – perdeu todas as chances que tinha de ser um bom artigo, como de fato poderia sê-lo.
O artigo do jornalista José Maria e Silva que pode ser lido aqui toca em um ponto polêmico: a legalização das drogas e a política de redução de danos – que gera discussões das mais variadas e por envolver questões complexas deveria ser analisado com mais cautela – o que, definitivamente, não se faz notar no presente artigo. José Maria defende e sustenta sua opinião com base em seus argumentos, até aí nada de novo em se tratando de um artigo. O problema começa no “como” ele defende e sustenta a sua opinião. José Maria faz uso de comparações absurdas, mistura temas como o “Manifesto Comunista” com a legalização das drogas e a política de redução de danos, comparando-o a uma “Declaração dos Direitos dos Usuários de Drogas”, que ele critica de maneira enfática. Fácil ver que uma coisa não tem nada a ver com a outra, não servem para serem usadas a título de comparação. Seguindo a lógica, contrapõe “arauto de ciência de ponta” com “entulhos do Maio de 68”.
Em meio a essas comparações vazias de lógica e critério, senti no texto uma falta de humanidade e uma imensidão de preconceitos. Não se trata de defender o usuário de drogas, eles não estão totalmente livres de culpa, mas também não precisam ser atacados de maneira generalizada e um tanto quanto equivocada. Nossos problemas imploram por entendimento e não por atitudes que os reprimam. O autor limita consideravelmente sua capacidade de análise a respeito do tema, pois comete um pecado mortal ao se perder daquela que contempla a quem sabe encontrá-la com mais equilíbrio e perspicácia: a simples capacidade e sensibilidade de perceber que tudo tem um outro lado e antes de tomar partido de um ou de outro, em uma situação específica, é preciso analisar muito bem todas as variáveis que compõem esta dada situação. Variáveis tão multiplas e tão inexatas.
Termino citando meu querido Saramago – “Se podes olhar, vê, se podes ver, repara”. Minha impressão é de que José Maria viu, mas não reparou e assim ficou apenas no dito pelo não dito.

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