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Posts Tagged ‘solidão’

Manet, O limão (1880)

Manet, O limão (1880)

(10)

Os assuntos que tremem junto ao peito, que se escondem em algum lugar aonde não se chega. Os sofrimentos adormecidos. Quantos séculos para acordá-los. Talvez nunca. Um dia olhei para aquela mulher, de pele cansada e olhos enrugados, esperando…Ela olhava, assim que escutava algum barulho, ou nem precisava escutá-lo. Os movimentos já iam sozinhos do pescoço ao longe, e depois, do longe ao chão. Não era nada. Um dia olhei para aquela mulher que passava os dias sentada. Costurando os fios esticados do tempo, calculando a posição do sol, pensando nas formas das nuvens. Quando passava rápido, também olhei, olhei para o homem que fazia a guarda da rua. Ele a guardava de que? Dos homens que podiam roubar as casas? Mas não havia homens. Dos cachorros que podiam escapar e atacar alguém? Mas não havia cachorros, nem pra onde fugir, nem quem atacar. Talvez, é, talvez ele a guardasse do tédio, e ia e vinha, com um radinho nas mãos. Podia-se escutar os chiados baixos, vez ou outra alguma música. Romântica. Um dia olhei, do meio do mato, o meio da cara do boi. Onde os olhos? Pareciam virados de costas. Revirados por dentro, calculados pelo infinito de onde tinham surgido, para onde um dia teriam voltado. Olhei de novo. Queria que ele me encontrasse, que me dissesse, que me chorasse…Eles só tombaram em direção ao chão de terra. Todos longes. Muito longes. Sozinhos. Todos sozinhos.

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Paul Cézanne. The Strangled Woman. 1872.

No fundo da madrugada há um silêncio,
e no fundo do silêncio há uma tristeza.
A tristeza que não vejo. Mas de dentro
dessa tristeza sai um grito de desespero,
desespero mudo que não sinto só percebo.

Das bordas de tudo isso fala a dúvida
que eu espreito. E que pode ser só mentira,
vestes sem dono, corpo ou endereço.
E de tudo isso há um copo vazio de vinho
no fundo do qual me admiro no espelho.

Para além de tudo isso todas as minhas
horas e minhas escolhas chorosas.
Na minha falta fica um pouco de mim mesma.
Para além de tudo isso minha cama,
minhas fotos, minha infância, meu medo.

No fundo do qual há um silêncio
longo, desses que ninguém entende.
Escuro, desses que todo mundo teme.

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Renoir

Ai meu Deus! Haja espaço pra tanto tédio no meu feriado solitário! Neste dia quente, no mínimo “mormaçado”, só queria estar em uma praia, ou pelo menos, fora de casa. Pois aqui estou eu, encerrada entre quatro paredes, olhando para um céu esfumaçado, lendo poesia e teoria da poesia e escutando um insuportável barulho de máquina, não sei bem qual, de construção me parece. De vez em quando, ouço vindo de baixo alguns lamentos e choros intercalados. Causam-me qualquer coisa misturada com pena ou tristeza por esse fardo que as mulheres carregam de enlouquecerem ou chorarem por causa de homens. Penso em como é necessário nos bastarmos. Pois, do contrário, esperamos em vão, e terminamos sozinhas em tardes quentes como essa, lendo poesia, sonhando com o mundo real, com os passeios, carinhos e diversão. Sim, precisamos alcançar este feito histórico de sairmos sozinhas, de existirmos sozinhas, porque a história das grandes mulheres apenas confirma que pouca coisa vale nossas lágrimas. Penso sempre em Ana Karenina. O choro que ouço me fez pensar nisso, de dentro da minha solidão. Mas não levem muito em consideração. São apenas pensamentos ditos sem muita razão. Eu mesma estou longe de bastar-me. 

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Dalí

Passo de um lado
_____________A entrelaçar de outro
O pedaço dali
_____________E a outra ponta daqui
Tão certas no começo
_____________Descem sem saber o fim
As belas e divinas teias
_____________Que separam para unir
Verdade, Mentira
_____________Encanto, Engano
Feitas e refeitas
_____________Os fios que sobram
Passam por mim

Passo frio
Passo calor
Não
Passo solidão

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Os solitários se distribuem pelas janelas
e olham tristes, tão longe…
Que quase fogem a pensar em si,
e no outro, e na vida…
Que quase voam esquecidos do aqui,
imersos em pensamentos sem fim.

Os solitários se distribuem pelas horas
e demoram quietos, tão perto…
Que quase chamam o vizinho dali,
e o de lá, e o que não há…
Que quase sorriem ao lembrar-se de onde
um dia olharam tão tristes, lá longe.

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Poesia

O silêncio faz
Um eco
Que se visto de lado
Demora
Incomoda
Nem muda
Nem vai embora
Imóvel
Faz um drama
Feito mulher
Ele chama
Pingando pelos olhos
Seduzindo
Ele diz que ama

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