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Posts Tagged ‘Tchekhov’

Da arte de extrair do cotidiano as coisas simples e construir belíssimas obras de arte, da maestria ao usar as palavras, da habilidade em construir descrições atentas e cuidadosas, do encantamento e carinho ao esculpir cada frase, na sensibilidade em relação à vida humana, na sagacidade, perspicácia e talento literário em enxergar o outro, em curar ou revelar as dores da alma, em fazer da investigação psicológica densa e, ao mesmo tempo, singela a história mais perturbadora dentre todas as suas histórias. Da criatividade que surpreende, do enredo que prende a atenção, faz rir, angustia, revira a memória, cutuca a própria alma, dá forma ao inconsciente, cor ao medo, cheiro ao mistério, beleza à vida humana que em sua obra desfila tão docemente.
Da arte de escrever histórias curtas, que carregam toda sutileza necessária a um conto, de construir personagens reais, produtos de uma mistura tão bem dosada de sentimentos, contradições, medos, ilusões, recordações e sonhos, às vezes, confusos, desiguais e prolongados. Da simplicidade e sensibilidade estética e ética de ser Anton Tchekhov, um presente literário, um provocador de lágrimas, um pequeno milagre destes que, de vez em quando, aparecem por este mundo para algo de realmente lindo nos legar.
Já citado aqui no Impressões, no post “O cochicho do nada” que falava sobre o livro de contos de Tchekhov, “O Beijo e outras histórias”, o Impressões volta, mais uma vez, a falar deste escritor russo que soube, como poucos, iluminar a vida por meio da sua palavra. Em mais uma reunião de contos de Tchekhov, o livro “Um homem extraordinário e outras histórias” reúne contos exemplares do estilo do autor, histórias atmosféricas, cheias de um sentimento de sabedoria e compaixão, além de uma infinita generosidade para com o homem e sua alma multifacetada, taciturna, entrecortada por dramas, vazia de sentido, saciada por ilusões, desejosa de completude, urgente e angustiosamente fascinante.

Conservando a sua linguagem esculpida, poética, simples e, ao mesmo tempo, minuciosa, Tchekhov se revela, mais uma vez, nesta reunião de algumas de suas melhores histórias, um escritor que se afunda na caracterização psicológica de seus personagens e reproduz com isso tipos reais e comuns ao nosso cotidiano, que às vezes passam despercebidos ou andam por aí disfarçados, impostores deles mesmos, acima de tudo, o escritor reproduz a nós mesmos e talvez seja por isso que fascina tanto. Suas páginas, o preto sobre o branco, as entrelinhas mudas e alucinadas, são como espelhos esfumaçados de nossas feições imperfeitas, posto que humanas. Além da maestria na profunda investigação psicológica, Tchekhov abusa das descrições entremeadas por ações, do olhar atento sobre a natureza, sobre a beleza das coisas e do universo estático, tingido de um colorido tão bem enaltecido por ele e por aqueles que sabem de fato fazer arte. É uma combinação de psicologia e suave sensibilidade simplesmente linda! Tchekhov atingiu em sua obra a beleza literária e a beleza das coisas que tantos homens buscam pela vida sem nunca conseguirem encontrá-la ou enxergá-la de fato, sem, muitas vezes, nunca serem dignos dela e, por ser tão belo, por ser transpassado pela beleza, é talvez um enigma, um escritor além das críticas e análises literárias, um escritor que apenas se sente, se impregna, se liberta, um mistério insinuante e solitário, regado por uma réstia de tristeza, iluminado por um sopro de lucidez, sentido e alegria.

Avançando pelas páginas deste livro, encontramos contos como “O homem no estojo”, simplesmente genial, que nos revela de forma sonora e surpreendente, por meio de uma metáfora inteligente e sutil, a vida de um homem que se isolava do próprio mundo, das suas sensações, tomado por medo, invadido por um natural sentimento de solidão, um homem cujo sonho maior sempre fora esconder-se dentro de um estojo, protegido do frio, dos olhares, das vozes, do amor, por toda a eternidade. A construção desse personagem, em toda sua loucura e casmurrice, é plena, perfeita, um momento literário que paira acima da simples e efêmera finitude das coisas, uma obra de raro encanto, sublime e, ao mesmo tempo, tão próxima do cotidiano.

Em “Um homem extraordinário”, o escritor russo aposta novamente na construção esmerada e investigação psicológica de um personagem realmente extraordinário, extraordinário em sua frieza diante da vida, em seu caráter planificado, em seu pensamento burocraticamente e economicamente organizado, um homem que, nas palavras do próprio Tchekhov, torna o próprio ar pesado e faz ruir as paredes tal o medo e a sensação de ódio e desconforto que nos outros provoca. Este conto é particularmente sutil e fascinante, não só pela construção do personagem, mas também pelos detalhes da narrativa que, sabiamente colocados na hora e lugares corretos, fazem com que o leitor esboce um leve sorriso e tenha nos olhos uma expressão de surpresa e espanto, causados por tamanha maestria e talento narrativo.

No conto “Um dia no campo – Ceninha”, Tchekhov emociona pela simplicidade da história, pela bondade e generosidade de alguns personagens que aparecem neste e em outros contos deste livro e, faz os olhos ficarem de repente marejados de lágrimas ao se depararem com a simplicidade e gratuidade dos amores que não são vistos, daqueles que vivem em silêncio, dos quais apenas a lua é testemunha.

Em outra história retirada do cotidiano, “O relado do jardineiro-chefe”, Tchekhov utiliza da memória e do relato de um homem considerado sábio e quieto, para contar uma bela história da qual o personagem principal é um homem generoso, também sábio, que curava as dores do corpo e da alma, sem por isso cobrar nada em troca. Um homem que vivia ensimesmado em leituras, afundado em reflexões e contemplações, considerando o resto de tudo vulgaridades e tolices fabricadas. Neste relato do jardineiro, a mensagem principal é a de que se deve sempre acreditar na dignidade dos homens, conservar uma fé na espécie humana ainda que esta mostre, repetidas vezes que, a exemplo do que um dia disse Shakespeare, “no nosso século perverso e devasso, até a virtude tem de pedir perdão ao vício”.

E assim segue Tchekhov, em “Trapaceiros à força – Historinha de Ano-Novo”, neste conto, o escritor lança mão de toda sua ironia e constante perspicácia para construir uma história divertida e, ao mesmo tempo, de intensa capacidade reflexiva. Nela, motivado cada um por seus interesses, vícios, angústias, vontades e vaidades, os personagens decidem enganar o próprio tempo mexendo nos ponteiros do relógio e, com isso, ora adiantam a chegada do ano-novo, ora recuperam mais um tempo para o ano-velho em um jogo de enganar o tempo no qual eles acabam enganando a si mesmos. Nas entrelinhas, diz Tchekhov da irreversibilidade do passar do tempo, se uns os adiantam, outros o atrasam e ele volta ao correr habitual, os vício e vaidades que esperem…

Outro belíssimo conto dessa coletânea leva o nome de “Criançada”. Nesta história, o escritor reúne toda graça, naturalidade e espontaneidade das crianças aos sentimentos que aos poucos estas vão adquirindo com o passar do tempo e as diversas influências recebidas, que na história vêm à tona durante um jogo no qual se apostam alguns copeques. O genial deste conto é a maneira como o escritor mostra que para as crianças as brigas, ambições, sentimentos de amor-próprio e outras coisinhas mais, logo desaparecem e tudo volta a ficar bem de novo. Nada mais ilustrativo para falar da verdadeira essência da infância, permeada pela inexistência daquele sentimento de mágoa, ódio, inveja, frustração e tédio conservados e regados por muitos adultos ao longo da vida. Talvez por isso a infância seja linda de ser ver, como linda se faz neste conto de Tchekhov.

E as histórias seguem com situações incríveis como a de um peixe enamorado por uma moça que todos os fins de tarde ia se banhar na lagoa em que ele morava, a de um homem solitário que a anos vivia em uma estação de trem apenas com a sua esposa que ele há muito já não amava, descrente de que em sua vida algo de novo ou qualquer desgraça ainda pudesse lhe acontecer posto que para ele tudo de mal já lhe havia acontecido, até que o destino lança mão de suas teias ardilosas e enfeitiçadas e o surpreende com um novo amor e uma nova morada. Há também fragmentos da velhice, recortados por lembranças, por arrependimentos, por lágrimas escondidas porque envergonhadas, por visitas não tão sinceras, por abandonos múltiplos e miseráveis. Há atitudes confusas diante da desgraça alheia, um sentimento de pena que, como todo sentimento de pena, é mesquinho e preguiçoso, tão inútil quanto acovardado.
E, terminando o livro, nos preenche os olhos uma história belíssima tanto pelo enredo como pela delicadeza e esmero na escolha de cada palavra, na descrição de cada sentimento, na cor de cada lembrança, na confusão de cada momento. Tudo isso nos chega por meio de um olhar inumano, de uma inteligente e pensativa cachorrinha, “Cachtánca”, que dá nome ao conto. Por meio deste olhar inumano, aparentemente distante, Tchekhov revela todo fascínio e mesquinhez da alma humana. Traduz como ninguém a falta, o sentimento de angústia, de perda, de saudade, que chega sorrateiro, devagar e, de repente, preenche e perturba a cachorrinha. Também mostra o sentimento de indiferença em relação à vida, de conformismo, uma atitude indolente e desdenhosa em relação a tudo, um enfado permanente, um bufar eterno que na história se revela na figura de um gato, mas que na vida se reflete em muitas pessoas. Com sutileza e maestria, neste conto Tchekhov também pincela a visita da morte, a inquietação e o medo que essa figura sem cor e formas causa em animais ou homens, para depois deixar apenas um rastro de falta e mistério.
De todo o mais que possa ser dito, as palavras não serão tão belas e precisas quanto as dele, é preciso ler e ler-se a si mesmo…

“Tchekhov é um daqueles autores cuja inteligência é tão poderosa que por um momento somos seduzidos pelo prazer de acreditar no progresso humano, na evolução moral da espécie; então, em seguida, vemos que na verdade ele nada mais é que um gigante, uma anomalia, talvez um anjo, e que é bem possível que não tenhamos outro igual nos próximos mil anos”.
Russell Banks

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Anton P. Tchekhov (1860 – 1904) pode ser mais claramente definido como aquele que preencheu o mínimo com o máximo. Ao contrário dos vastos panoramas de outros escritores russos como Dostoiévsky e Tolstói, ele concentrou os grandes problemas humanos nas formas breves do conto e da novela e construiu uma obra dotada de força extraordinária, sensibilidade assustadora, enredos angustiantes, detalhes minuciosos e qualidade indiscutível que a fizeram uma das principais portas de entrada para a literatura contemporânea.
Tchekhov impressiona pela leveza e, ao mesmo tempo, pela densidade e dificuldade do relato. Lê-lo não é fácil. É como penetrar nas regiões mais gélidas e profundas da alma humana, sentir-se sufocado, angustiado e, por fim, aliviado por já ter visitado o que mais pode um homem angustiar: a solidão e o reconhecimento da miséria de nossa existência.

No livro O Beijo e outras histórias, a tradução esmerada de Boris Schnaiderman nos traz contos que reúnem as peculiaridades e os traços e temas do cotidiano mais constantes em Tchekhov. No conto O Beijo, o leitor é conduzido a um mundo de imaginação, fantasia, sonho e loucura para se perder em um labirinto obscuro que conduz à dor calada e seca das existências mudas e absurdas por que solitárias e vazias. Já no conto Enfermaria nº 6, o mestre russo da narrativa curta expõe em faces nuas e cruéis os limites entre a razão e a loucura, faz com que o leitor conheça em palavras duras e frias – assim como as paredes da enfermaria – aquilo que somos no mais fundo, aquilo que apenas a cada um de nós se faz real e doloroso. Nas linhas deste conto fica clara a conversão de quem cura em quem padece e nas entrelinhas o inferno de nossa humanidade estreita e banal que um dia conhece a glória e, no outro, apenas incompreensão, abandono e indiferença, menos dos outros do que de si mesmo.

Tchekhov se embriaga do que de melhor existe na literatura: a linguagem correta, o detalhe decisivo e a forma insinuante do relato que conduz ao inacabado e permite a reflexão de quem lê. Por tudo isso, renovou a narrativa curta com emoção e inteligência, combinadas na exata proporção.

Anton P. Tchekhov
Machado de Assis
Algo interessante ao lê-lo é perceber as claras semelhanças existentes entre ele e Machado de Assis. Em suas letras nos sentimos estranhos e, ao mesmo tempo, em casa já que o fio do enredo tchekhoviano parece ser tecido com as mesmas linhas do enredo machadiano. Semelhanças se notam nos temas do cotidiano, nas sutilezas de tratamento e no universo social abordado.

Assim como Machado de Assis faz no conto O Espelho, Tchekhov em Enfermaria nº 6 constrói um personagem que dialoga com a solidão e se faz obcecado por encontrar um sentido para sua existência. Tanto o velho professor de medicina de Tchekhov, quanto o alferes Jacobina de Machado de Assis estão prontos para ver o apagar das luzes, para sentir a frieza do fim e ouvir o cochicho do nada. O primeiro pelas ilusões da loucura, o segundo pelas lâminas do espelho. Os dois pelos mistérios da alma.

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A revista “Cult”, do presente mês de fevereiro, agradou-me profundamente devido a um dossiê sobre alguns dos mais importantes nomes da literatura russa, entre eles, Dostoiévski, Gógol, Tchekhov e Tolstói, levantando a seguinte questão: como se explica que no século 19, na Rússia – considerada bárbara pelo ocidente – tenha surgido uma leva de escritores que figuram entre os mais importantes da modernidade? O dossiê é extremamente interessante, completo, contextualizado e simplesmente imprescindível para aqueles que, de alguma forma, apreciam a literatura russa. Portanto, fica aqui a dica, vale a pena ler e resolver algumas dúvidas, embora, eu não descarte a possibilidade de que se crie outras. O dossiê fala de cada um dos autores citados anteriormente, analisando sua obra e revelando um pouco de sua personalidade, além de traçar um painel histórico literário da Rússia do século 19.
Gógol: tradição e modernidade

O primeiro dos escritores a ser analisado pelo dossiê é Gógol, álias como nos lembra a reportagem, 2009 é considerado pela UNESCO como o ano de Gógol, o que nos leva a conclusão de que muitas exposições e eventos acontecerão na Rússia neste ano para lembrar o bicentenário de seu nascimento. No dossiê, Gógol nos é apresentado como alguém de personalidade enigmática, o que facilmente deixava-se transparecer em algumas de suas obras como “Confissões de um autor” e “Trechos escolhidos de correspondências com amigos.” Muito ligado à mãe, sempre teve uma dificuldade em suas relações amorosas que o levaram a tratar o amor em sua obra de forma cômica, zombeteira, ou seja, o escárnio constituía uma espécie de máscara para a sua incapacidade de amar. Seus personagens são sempre incompletos, fragmentados, refletindo os aspectos “doentios” do autor que se deixou morrer de inanição. O fato é que ele nos deixou uma obra riquíssima, composta por títulos como “O capote”, “Almas Mortas”, “O nariz” e “O inspetor geral”, todas elas ricas em detalhes, revelando os mistérios do irracional, algumas vezes sob a máscara da racionalidade.

Dostoiévski: revolução na descrição da alma humana

Depois é a vez de Dostoiévski, aquele que tão bem investigou a alma humana em suas relações com a realidade mais profunda, penetrando na essência significativa dos fenômenos sociais. Ele acreditava que o verdadeiro artista era aquele que produzia “algo mais amplo e mais profundo” do que a “verdade fotográfica, a precisão mecânica” captada pelos “os olhos do corpo”, o essencial, segundo Dostoiévski, era olhar para o homem e a sociedade “com os olhos da alma”, dessa forma os seres humanos deveriam ser representados como seres plenamente sensíveis e não como estereótipos. Dostoiévski se interessava justamente por aquilo que escapava do campo de visão dos outros escritores, lhe atraíam mais o fatos extraordinários, excepcionais, para que através destes, ele revelasse as leis básicas da vida. É considerado por muitos estudiosos como um escritor realista, ele mesmo se considerava como tal, retratando todas as profundezas da alma humana, mas o fato é que ser apenas realista não sustenta a densidade de sua investigação do homem, a tal ponto que seu realismo é, acima de tudo, psicológico. Os fatos da realidade eram o centro de sua obra, uma obra que rejeitava a capacidade de explicação racional para os fenômenos da vida. A realidade objetiva, dominada, se por acaso existe em sua obra, passa totalmente despercebida. É nesta linha que Dostoiévski produz uma literatura que escapa dos limites de toda uma época, que não se contenta apenas com um maniqueísmo simplista, optando muito mais pelas zonas cinzentas que definem o indefinível. Entre seus romances destacam-se “Os Irmãos Karamázovi”, “Crime e Castigo”, “O idiota”, “O Adolescente”, dentre outros.

Tolstói: literatura e vida social

Na parte do dossiê referente a Tolstói, o leitor aproxima-se de um escritor em constante conflito com a sua própria arte, que criticava a literatura mas, ao mesmo tempo, considerava-a uma possibilidade de criar formas específicas de pensar e de conhecer. Tolstói nunca deixou de escrever e se, por vezes, criticava seu ofício era por que se preocupava com o papel da arte, que, segundo ele, servia como legitimadora das desigualdades sociais, realimentando o mecanismo que produz as estruturas da sociedade. Sempre preocupado com os sinais de seu tempo refletia suas preocupação sociais, posições religiosas e políticas em seus romances. Os seus três grandes romances – “Guerra e Paz”, “Ana Kariênina” e “Ressurreição” – representam a agudeza crescente de sua visão crítica, ao mesmo tempo em que mostram um Tolstói que não tinha respostas para a maioria das perguntas que ele mesmo formulava, mas que nem por isso deixava de impor problemas e envolver o leitor em suas reflexões. O texto sobre ele faz uma pergunta interessante diante do fato de que Tolstói escrevia obras tão diferentes quase ao mesmo tempo, como o conto “O prisioneiro do Cáucaso” – conciso, simples, sem quase nenhuma digressão – e o romance “Anna Kariênina” – denso, complexo, longo, ramificado, daqueles que exigem grande fôlego. A pergunta feita é, qual seria o verdadeiro Tolstói? Eu, na minha simples condição de leitora de alguns de seus livros, diria que para essa pergunta não existe resposta, diante do fato de que Tolstói mostra-se honesto e competente em cada uma de suas vertentes, em cada uma de suas personalidades, afinal, como todos nós, ele deve ter tido seu lado simples e mais transparente convivendo permanentemente e, em conflito, com seu lado obscuro e menos fácil. O leitor de “Cult” ganha um ótimo presente ao final desta parte do dossiê: um trecho inédito da tradução feita por Rubens Figueiredo do romance “Ressurreição”, de Tolstói, com previsão de lançamento no Brasil para o segundo semestre de 2009.

Tchekhov: a vida que se desvia da norma

Tchekhov é o último escritor a ser analisado pelo dossiê, adepto das narrativas curtas, ele foi o mais ousado transgressor da tradição clássica dando início a uma forma e linguagem artística contemporânea. Tchekhov, o autor-médico – para quem a medicina era a esposa e a literatura, sua amante – abandonou a subjetividade adotando a concisão e a objetividade. O enredo era visto por ele como um mero coadjuvante, o que realmente importava eram as personagens, sua sutilezas e contradições interiores. Como dramaturgo, ele inovou a arte dramática a tal ponto que é difícil encontrar em suas peças componentes obrigatórios do enredo de drama, afinal, como ele mesmo dizia, seu credo estava na “importância das coisas não importantes.” O tempo é figura constante em suas peças. Ele estabelece uma ligação entre o cotidiano da vida humana e a eternidade. Tchekhov queria mostrar em sua obra que por trás das banalidades e trivialidades do cotidiano, há um mundo de conflitos trágicos e, foi seguindo essa linha que ele se tornou um dos grandes nomes russos, inesgotável na arte, no humano e no saber ser novo. Entre suas principais obras estão: “A dama do cachorrinho e outras histórias”, “A gaivota”, “O assassinato e outras histórias” e “O beijo e outras histórias.”

“O homem russo tende a admitir
a participação da loucura e da desordem
na instituição da ordem.”

Aurora Bernardini

Todos esses nomes têm uma característica em comum que sempre me chamou atenção. São personalidades singulares, misteriosas, marcadas por intensos conflitos internos. É justamente desses conflitos internos que nascem grandes escritores, aqueles que resgatam o poder crítico revelador dos abismos e das profundezas da alma humana, que se fazem contemporâneos e eternos, deixando-nos um rico percurso que deveria ser por nós valorizado e conhecido, para que possamos lançar um olhar de mudança em direção à literatura dos dias de hoje, cada vez mais vazia de sentido, crítica e reflexão. Talvez, seja por isso que os escritores russos, de uma maneira geral, exercem um fascínio tão grande no mundo atual. Eles preservam a qualidade de texto, a identidade do estilo, a riqueza das contradições, os abismos negros de nossa alma, a densidade e a complexidade da vida, traduzida também na densidade e na complexidade de algumas de suas obras. Os russos nos fazem lembrar o que é a verdadeira arte, no sentido mais sentimental e incompreendido que lhe é peculiar. Ninguém deveria deixar de conhecer uma obra clássica da literatura russa, já que ela é do tipo que transforma, amadurece, inquieta o leitor. É especial e indefinível, talvez por que menos transparente, menos fácil, tal como um grande amor. Depois de ler uma obra como “Os Irmãos Karamázovi”, de Dostoiévski, por exemplo, é impossível ser o mesmo de antes. Fecha-se a última página com aquela sensação de que muito se conheceu, muito se respondeu, mas de que há ainda muitas outras perguntas a serem respondidas neste vastíssimo oceano de segredos que é o coração humano. A Revista “Cult”, ao valorizar esses ícones da literatura mundial, acerta mais uma vez.

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