Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘tempo’

Manet

Manet

Passa como as folhas sem horas
como passam todos os acasos
ocos e carregados de mofo.
Passa como as viagens breves
aquelas das fotos alegres
quase amareladas de preces
rogadas em altares de mistérios.
Passa como todos os dias
os que começam cinzas e
cheios de tédios ou
os que começam de todas as cores
tão cheios de versos.
Passa como a tristeza
impregnada nos teus modos
de ser o ser que sempre passa.
Passa como a ideia
daquele livro nunca escrito
ainda depositado sobre as lápides.
Passa pela estrada
tortuosa mas bem feita
e deixa flores quando fores
para que eu lembre
de quando passaste
e aí terás e não terás passado.

Anúncios

Read Full Post »

Paul Gauguin, Tahitian mountains, 1893

Paul Gauguin, Tahitian mountains, 1893

(16)

O homem e o seu lugar. Suas estradas, seus becos e esconderijos, os lugares onde passou, onde amou, onde viveu suas mortes. Ao homem fala o seu lugar e ao seu lugar o homem fala. Sempre a lembrança de suas paisagens feito folha sempre destinada à letra, sempre o calor daqueles anos.
Antes de morrer, era esse o último pedido do amigo de meu pai. Voltar aonde começou. Uma terra de cercas, muito pó levantado, pouca gente, tanto silêncio. Um lugar parado, sem movimento, exceto o lento cair das folhas, exceto o vagaroso suspirar do vento. O amigo de meu pai queria ver o seu lugar, para só ali viver a última e derradeira morte.
Ele ainda contou, quase suas últimas palavras, que quando as montanhas verdes o olharam de novo, um frio percorreu todo seu coração, as mãos suaram, os olhos ficaram de repente molhados, embaçada a paisagem. O cheiro lembrava o primeiro almoço farto. A casa trazia suas brincadeiras. Os retratos esculpiam a sua inocência. Tudo reverberava seus erros.
Meu pai disse que ele morrera feliz. O peso da morte, quando voltamos para nosso lugar, teria contado o amigo de meu pai, se ameniza diante de tantas mortes que ali há. As primeiras roubando o espaço das últimas, concedendo o perdão a todos os pecados.
E ele olhou pela última vez o horizonte da estrada por onde tantas vezes passara.

Read Full Post »

Magritte

Magritte

Antes eu tinha saudade do que
não tinha tempo. E ficava a olhar
teu tempo farto em tudo aquilo
que nem com todas as minhas mãos
eu poderia pegar. Que nem com todos
os meus livros e rituais eu deixaria de amar.

Antes eu tinha uma velocidade que
hoje eu nem tento mais. E rasgava
minha voz com todos os meus gritos
e gestos, com todos os meus escândalos
insanos e insaciados por dentro, por dentro
sedentos de tudo que ficasse depois do vento.

Antes eu tinha as graças da desrazão e
você. E você sem muito esforço me
arrastava para o mar, me condenava a
te olhar, como se soubesse, e eu ficava.
Como se pudesse, em repetida ascese,
trazer de mim a parte que não me conhece.

Read Full Post »

Balthus

Balthus

(4)

Um dia depois de percorrer com os olhos aquele velho caderno de receitas, onde pude ver as formas redondas e indecisas de minha letra de criança, detalhando a quantidade de ovos, as doses de açúcar, as medidas de sal, percorri, com o corpo tenso e a mente inquieta, os velhos cômodos de minha infância. Mudados pelo tempo, por outras mãos, olhei os detalhes, e fui desenhando em minha mente as paisagens de antes. As árvores do pomar continuavam as mesmas, mas sem o mesmo verde. Havia menos flores, menos frutas, e o chão estava mais frio, com novos pisos. Estranho percorrer o mesmo lugar, e que já é outro. Andar usando as mesmas pernas, que já são outras. O tempo passou e eu via. Não havia mais nenhuma lembrança minha, a não ser algumas fotografias. No quartinho ao fundo, muitas coisas ainda estavam amontoadas, em desordem, na companhia de finas camadas de poeira. Pude ver o banco de minha escrivaninha, onde eu gostava de sentar pra ler e escrever, com a mesma letra redonda e indecisa do caderno de receitas, as minhas primeiras histórias, e também minha poltrona florida. O impacto da visita parece ter me dado dores, pois à noite não conseguia dormir, tinha o corpo como se tivessem me batido durante horas. Lembro de alguém que dizia: o tempo faz doer. Contra essas dores parece não existir receita. No caderno velho, onde um dia eu escrevi como fazer doces e bolos, não escrevi como aliviar-me dos anos. Nisso, como em tantas outras coisas, traiu-me minha letra da infância.

Read Full Post »

Imagem: bosquesonhador.wordpress.com

Olha o tempo o tempo cheio de brisas
Queria eu saber realmente algo
Sobre o que lhe vai por dentro
Mudando tudo na sucessão dos dias.

Inútil contar todos os seus segredos
São caprichos demais, armadilhas
Sem nome, lógica, um funcionamento
Perfeito que nos faz perdidos.

Queria eu fitar o tempo nos olhos
Adivinhar o que ele me prepara
Mas tal como os do gato são eles
Enfeitiçados, mostram quase nada.

Read Full Post »

Oswaldo Goeldi, 1937

Oswaldo Goeldi, 1937

(3)

O que há na noite, todo um mundo que passa. Uma reunião de imagens, horas sem som ou graça. Horas com toda gratidão ou nenhum perdão. O que há com a noite, tão misteriosa ela enlaça, sonhos tão viajantes, outras imensidões abraça. Há um tanto de mim em cada noite despedaçada. Arrastada. Os pedaços que procuro aqui, as partes que desminto lá. Ora rio ora choro. Ora te vejo ora te nego. Te rabisco e te venero. Você mesma que foste um dia, você mesma que agora me despreza. O que há com a tua dignidade, noite branda, noite desfeita em colares. Em silêncio acordo exaltada, eis a noite na madrugada. Desconfiada. Imersa em obscuridade. Vejo tudo de mim. Vejo o quanto tenho saudade.

Read Full Post »

Monet

Monet

Dei por mim e já era toda sangue
Um sol forte a atravessar a cortina
Rosto, pele, pernas pingando
Coração sem saber pra onde ia.

Dei por mim e já eu tinha passado
Era inverno e todo meu corpo
Enrolava-se protegido do frio
Com medo de que tudo ficasse morto.

Dei por mim e você já tinha se ido
Deixando a ordem de cada coisa no lugar
Em desespero meu corpo ainda pedia
Mas o instante se recusava a te chamar.

Dei por mim e minhas flores desabrocharam
Enquanto eu vi meu tempo apertar
Tudo passou pela minha janela
Tudo escorrendo feito ressaca de mar.

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: