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Posts Tagged ‘Van Gohg’

Girassóis, Van Gogh

Seu cabelo voava. Voava lindo, livre, musicado. Acompanhava o movimento de seu corpo. Tudo ia breve e eterno no espaço que os segundos deixavam pra que você vivesse eterna nas minhas lembranças. E eu a consumir aquele sonho, aquele campo todo molhado de flor, aquelas flores sem fim, aquele seu cabelo tão fino, tão liso, por onde eu escorria a mim.
Gostava de olhar-te inerte. Enquanto ao meu lado algumas vozes simplesmente explodiam, anuladas na imensidão de minha saudade. Mal te olhava me sentia cheio de medos. Tua beleza tão absurda me assombrava, mas nela eu vivia, nela eu amava, mesmo sem saber, nela eu imaginava.
Guardei o girassol, com seu cheiro e sua voz, quase tão bela quanto seus lábios e guardei aquela música que cantava enquanto dançava.
Eu ao seu encontro. Eu a despedaçar meu corpo. Eu a diluir-me fraco entre linhas costuradas e rompidas, entre fios expulsos e reconduzidos, entre espasmos de som e de partida.
Quando te abraçava, você simplesmente ia, quando te entendia, você escurecia e ficava feito sombra, retida, louca, indecifrável, mas sempre sujeita à teimosia de minha luz que teimava em iluminar-te. Morena.
Dançávamos em valsa, cantávamos em serenata, escrevíamos poesia, íamos a centenas e centenas de teatro. Bordávamos a história, jogávamos tintas sobre quadros imensos que mal cabiam na sala. Recitávamos óperas, tocávamos com os dedos sobre os livros milhares de melodias, de Bach a Brahms, assoviávamos destinos, imitávamos os pássaros, caminhávamos a esmo abraçando as árvores, imitando as flores, versando beleza.
O girassol tinha a cor do seu cabelo. E você tinha a cor da tempestade, do sol, da nuvem, do barulho, do silêncio. Você tinha a cor do nada, a extensão da aurora, a viagem sem porto. Você era meu suspiro pálido.
Naquela casa onde fazíamos festa. Você dançava e seu vestido era mais belo do que qualquer música que tocava. A gente dormia e acordava, a gente delirava. As festas eram a criação da sua morada. Lá você tinha ideias, e fazia versos sem compromisso com nada, e dançava sem tempo de partida ou chegada. Lá você era infinita e tão desesperada.
Sempre transbordando em lágrimas. Emoção incontida, desenfreada. Feliz do mundo a receber seus lamentos, suas súplicas, seus sofrimentos gratuitos e tão descompromissados.
E de noite você falava, falava, falava, perdia o sono, apertava o edredom, prometia baixinho não mais amar, não mais querer nada. Mas assim que amanhecia, você amava!
Vinham os girassóis, a cor do seu cabelo era linda, era mel, amarelo, era sorriso, era mistério, era belo.
Suas pernas me prendiam, só eu sei como criava.
E víamos o movimento da arte, nosso amigos com bandas a tocar o mundo, a falar de sentimentos, a fazer lembrar o homem, tão cru e tão certo. Nosso pais tão cheios de zelo, tão prontos para cobranças, tão amigos, tão distantes de nossos medos, de nossa arte, de nosso Rilke, de nosso Brecht, de nosso…
Vazio.
Tão próximos de nossa época.
E nessas horas eu te segurava. Você queria fugir e eu não deixava, você dizia absurdos e eu te ensinava. Você era menina e eu em mulher te transformava.
E como a gente dançava….
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-Demora muito a chegar Sra?
-Logo ali. Como foi a terapia hoje?
-Normal.
-Falou sobre mais alguma coisa.
-O de sempre.
-Mas como foi?
-Hoje. Hoje eu só sonhei. Revi muitas imagens. Todas juntas, sem separação, era uma espécie de rede sem intervalos, um fluxo que me tirava o ar, quase me sufocava. Uma sucessão de belezas, de momentos, de girassóis…Algumas coisas malucas, eu parecia ter vivido tudo aquilo, mas eu não lembro de nada. Eu era como um artista ao lado de um mulher tão bela que só podia existir em sonho mesmo. Eu criava, ela também, a gente dançava, como era belo. Quem dera o mundo fosse assim, cheio de criações belas.

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O cotidiano às vezes se apresenta cansado, cinzento, mudo. Parece estar existindo com pressa, diluído, espetacularizado, sem rumo…
O cotidiano às vezes aparece belo, simples, inebriante, doce e regado por uma inesperada graça da infância. A vida vai se confundindo, as cenas se entrelaçando, as teias vão sendo tecidas ao acaso, ao sabor do oceano obscuro onde está firmemente ancorado o destino.
E quando os olhos já estão cansados, o espírito sedento sem saber qual é o nome ou a forma de sua sede, os movimentos lentos e entrecortados, alguém, um dia, pinta o mundo com cores primitivas. Olha os recortes da paisagem com olhos puros e sensíveis, percebe as coisas além da tangível superfície, representa as cenas com uma realidade ainda maior, realidade confundida com a fantasia, fantasia impressionada com a realidade, traços camuflados em saudade, saudade salpicando em pontos suspensos e inertes. Faz-se um estilo acima de todos os limites e regras, um método que não é método e paira sozinho, um tom de romance, de doçura. A promessa do novo, a certeza de que, como diz a canção, o novo sempre vem e, melhor ainda que venha romântico…
Romantismo – A Arte do entusiasmo é o tema de uma exposição com 79 obras do Museu de Arte de São Paulo (MASP) que têm em comum ideias e a estética do romantismo. São pinturas e esculturas de 63 artistas. A justificativa para a exposição parece ser um pouco abrangente, mas a mostra reúne alguns dos melhores trabalhos do Acervo do Masp e, além disso, traz ao público obras de mestres como Hieronymus Bosch, Amedeo Modigliani, Van Gogh, além de impressionistas franceses como Edgar Degas e Paul Cézanne, este último já foi tema de um post aqui do Impressões sobre a sua estética do inacabado.
Entre tantos nomes que estarão reunidos na mostra, o Impressões decidiu dar um destaque para a obra do pintor neerlandês Vicent Van Gogh. Van Gogh criou uma estética única na arte, com temas simples e cenas do cotidiano vertidas em pinceladas quase mágicas, de um movimento, precisão e leveza peculiar. Ao incorporar tendências impressionistas, o pintor também tinha aspirações modernistas e influenciou variadas correntes artísticas do século XX como o expressionismo, o fauvismo e o abstracionismo.
Mas falar de Van Gogh é muito pouco, aos olhos veste melhor as suas cores, sua melancolia sutil, sua doçura suspensa, seu olhar esplêndido, sua alma quase desenhada…
Aos olhos e aos ouvidos um presente, dessa vez menos mudo, mais absurdo!

Aviso aos navegantes: A exposição fica no Masp até o dia 8 de maio.

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