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Posts Tagged ‘vida’

Picasso

Picasso

(11)

O corpo pede a si mesmo. O corpo pede um outro. Limites, luares, lugares. Era um lugar que quase ia sozinho, ansioso, suado, faltoso. Tudo começava pelo meio. Pelo centro onde a percepção do novo se dava. E se espalhava. Em direção aos pés e às extremidades da cabeça. Cada fio de cabelo espalhado sobre a superfície lisa, com algumas dobras. Os pés procuravam o outro em quem se encostar, ou contorciam-se em si mesmos, girando para fora, para dentro, para fora, para dentro, para fora, para dentro. As pernas faziam curvas no ar, desenhavam o mundo em derramamentos e ascensão. Tinham o seu par equivalente, a conversa ia longa e libidinosa, entre tonta vertigem gostosa. O ventre se expulsava de si, esticando-se, abrindo todos os seios, encolhendo-se de modo a preparar o próximo movimento. O rosto. Em chamas. A boca vermelha, entre aberta, a língua em constante agitação interna. A secura buscando a água. A imobilidade farejando o momento. O nariz entusiasmado. Os olhos… Ah, estes iam nem abertos nem fechados. Em zona de tempestade e bonança, quase uma onda prestes a estourar, quase um rio aparentando calma, linear. Os olhos eram um sortilégio à parte. No prazer dilatavam, atraíam, faziam que iam e ficavam, iam e ficavam. Lançavam-se sobre os pelos espalhados, sobre o ar com cheiro de suor enfeitiçado, lançavam-se sobre outro olhar perdidos na própria semelhança de estrutura, apenas com desvio de cor, com desvio de brilho. Apenas. Os olhos se fechavam enquanto o centro explodia em festa. Os braços e as mãos agora pousados em estado de morte. Os braços e as mãos que tanto buscaram. Agora pousados, nunca mais sozinhos. Laços, linhas, velas, lamparinas, noite, dia, ávidos, fêmea, macho. Um ao outro destinados pelo erótico abraço.

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Egon Schiele, Nude with Purple Stockings, 1912

Egon Schiele, Nude with Purple Stockings, 1912

(2)

O que faço hoje? Nada. Estou fazendo nada. E até ele me dá trabalho. O nada me leva a tantos outros nadas, disfarçados de tudo. De muita coisa. Mas que terminam no nada. Por isso escolhi de vez ficar onde todas as coisas acabam, e de onde todas as coisas vieram. No nada. Assim poupo minhas frustrações, poupo meus arrependimentos, todas essas coisas inúteis que inventaram e deram o nome de “coisas da vida”. Como se soubessem algo sobre “coisas da vida”. Desconfio de que a vida não tenha coisa alguma. O homem pode ter, não a vida. Imagino a vida como um grande mar só visto pela parte de cima. Como se o seu embaixo não existisse. Ilimitado, incompreendido, sem horizonte definido. Vá, toque o horizonte. Vou esperar pra ver se consegue.

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uma rua em Barão Geraldo

Quando me visitam os estados de felicidade
Surpreendo as flores doces no jardim
A falar-me coisas suspensas no tempo
Colocando um acento em tudo que há fora de mim.

Eterno e vivo o seu desejo – essencial –
Mais do que manso derradeiro e honesto
Presto atenção:
______________o Aberto.

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Então, o homem diz: “eu me lembro”, e inveja o animal que imediatamente esquece e vê todo instante realmente morrer imerso em n´voa e noite e extinguir-se para sempre. Assim, o animal vive a-historicamente: ele passa pelo presente como um número, sem que reste uma estranha quebra. Ele não sabe se disfarçar, não esconde nada e aparece a todo momento plenamente como o que é, ou seja, não pode ser outra coisa senão sincero. O homem, ao contrário, contrapõe-se ao grande e cada vez maior peso do que passou […] No entanto, em meio à menor como em meio à maior felicidade é sempre uma coisa que torna a felicidade o que ela é: o poder esquecer ou, dito de maneira mais erudita, a faculdade de sentir a-historicamente durante a sua duração. Quem não pode se instalar no limiar do instante, esquecendo todo passado, quem não consegue firmar pé em um ponto como uma divindade da vitória sem vertigem e sem medo, nunca saberá o que é felicidade, e ainda pior: nunca fará algo que torne os outros felizes. (p. 8 e 9)

[…] nós somos sem cultura, mais ainda, estamos estragados para a vida, para o ver e o ouvir corretos e simples, para a apreensão feliz do que há de mais próximo e natural, e não temos até agora nem mesmo o fundamento de uma cultura, porque não estamos convencidos de termos uma vida verdadeira em nós. […] Presenteai-me primeiro com a vida e então, a partir disso, terei prazer em criar-vos uma cultura! […] Quem lhes presenteará com esta vida? Nenhum deus e nenhum homem: somente a sua própria juventude. (p. 94)

Friedrich Nietzsche, Segunda consideração intempestiva. Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Trad: Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003

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Paul Guigou, Lavadeira, 1860

Diz de mim: é como um canto de sereia.
Eu nem sei se é assim, um
canto de vida, de morte,
lírico, violento.
Canto de sol ou ponta de treva,
a última gota pálida em festa.

Canto em doses lentas, em
partículas atrofiadas. Canto
sem ar, sufocada.

Diz de mim o que não perece
nem parte, última majestade.
Canto de dor, sofrimento,
sorrisos chorosos em lamento.
Canto sem dó, nem piedade,
o último alento de verdade.

Disfarço, faço, floreio.
Feitiço, feito, frágil.
Lavo meu canto e falo:

É para mim seco, molhado,
áspero, liso, descosturado.
Se põe em sombra de sorte e
me contorna de leve.
Rouco suspirar em dobras,
um último suspiro das horas.

Horas que desconheço no
sutil trejeito de afinar a voz.
Agudas e tontas notas.
Será que existe?
As faces alegres ou tristes…
um último silêncio resiste.

Não se sabe se há…
Não se sabe se foi…
A vida de costas aflige.

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Van Gogh

Poesia

Não há quem não diga do tempo
coisas raras e às vezes ocas por dentro,
que fazem o corpo pensar e a mente
entristecer a sombrear tanto lamento.

Dentro ele só tende a passar, com ele
dores, mágoas, descontentamento.
Em pouco ele há de demorar, quem sabe
alegria, flor, casamento.

Enquanto um vai, outro fica a esperar,
em despedida faz voar o lenço,
esconde as lágrimas por trás do aceno,
e gasta os olhos na imensidão do mar.

Receita incontida, saborosa, aflita,
cultivando a sabedoria daquele que fica,
nostálgico de si e do que já deu partida,
de teu segredo talvez saia só,

ferida.

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Conto

As casas estendiam-se na planície tímidas, envoltas em certa melancolia doce. Salpicadas iam por toda grama verde, pontos distantes para quem olhasse de cima, pontos enormes para quem as visse de baixo. O clima daquelas paragens era seco e íntimo, fazendo com que todos fossem de certa forma muito próximos de todos.
Zé do Tempo viu o sol nascer por entre os quadrados enferrujados de sua janela. Olhou o caminho de ida e sem querer já imaginava o caminho de volta. Impregnou-se do cheiro das flores cruas e pálidas e, no mesmo instante de todas as mesmas manhãs, lembrou-se de uma mulher.
Em silêncio esperou que Serena viesse lhe fazer companhia. A onça apareceu desconjuntada como quem quase não dormira. O corpo ia soerguendo-se aos poucos. A boca escancarou revelando os dentes afiados e secos. Os olhos faiscaram em chama, tomados, sem querer do fogo que vinha do sol. Recostou-se em Zé do Tempo e ali ficou, sonolenta e árida, a esperar.
Do outro lado da rua, Ana da Lida descia, levando nas mãos sua bacia cheia de roupa. De uma beleza murcha, gasta. Uns diziam que ela de tanto amar já enlouquecido havia, outros a tinham como santa, embora ninguém soubesse exatamente o porquê.
– Bom dia Zé do Tempo. Hoje venho mais tarde, tenho contas a contar.
– Pois aqui estou esperando a desfiar.
Ela olhou sem medo na direção de Serena e dando-lhe as costas seguiu para as bordas do rio.
– Se aprume Serena. Lá vem a triste bela.
E por trás do sol da manhã, choveu por todo aquele dia até o começo da noite. Uma chuva sôfrega e ansiosa, entremeada por um ou outro arco-íris, que caía, feito vários fios de plásticos, rompendo a gravidade.
Assim que o tempo seco de pronto se refez, Ana apareceu e pôs princípio ao seu falar:
– Eu ontem conheci um moço. Chega a dar medo de tão bonito. Ele me viu de longe, mas eu era como se estivesse ali perto. Foi na festa da igreja, bem nos cantos do olho do padre. Ai mas quanto frio que me deu. Os olhos encheram de água, dessas que a gente vê só em dia de chuva, assim como hoje e só, e demoram a voltar. Coração dava pulos, e a alma, a alma se existe acho que se foi de tão espremido que senti todinho o respirar. Aí ele foi chegando, com os olhos, me olhou feito caçador quando espreita a presa, e eu adorei aquele olho. Nem sei se de paixão ou de puro desejo, mas me vi dentro dele, tão dentro que nem tive mais medo do padre. Eu senti que sentia, isso nunca aconteceu comigo e nem sei se ainda acontece um dia. Depois eu me perdi dos olhos dele que fugiram rápido. Olharam um pouco, faiscaram de certa dor e suaram certa indiferença malandra, mas foi justo daí que tirei todo esse gosto e um engomado desassossego.
-Serena guarda pra você. Quando quiser de novo já sabe.
– Sei Zé e Deus lhe abençoe pela chuva.
Tão logo os passos delicados de Ana saíram, os pés enormes e brutos de João Justiça entraram.
– Bom seu Zé, vou logo dizendo. Não é que eu assim arrependido esteja. Arrependimento é coisa de frouxo e eu, soldado do povo que só, não sou frouxo, apenas defendo o que defendido deve de ser. Mas queria guardar um pedaço de uma luta de hoje. Foi bem ali nas beira do riachão. Matei uns doze, de uma só. Vieram encrencar com o patrão e pra mim ordem é só essa, eu mato pra defender. Mas gostei do sofrer de um deles. Tremia, como quem morre de medo até da vida. Olhei bem no fundo pra ele e, pode crê, Zé, vi eu a morte misturada com a vida. Sei que assim não pode ser, mas os olhos aqui de cá viram. Tavam parecendo filhotinho quando nasce e cobra quando morre, uns olhos assim de esperança e sono. E eu, ali, encravinhado em mim mesmo, vendo como se passado e futuro juntos. Bonito né! Por demais. Quero ver de novo, guarda aê.
– Já é teu. Sempre.
Zé do Tempo me guarde o primeiro sorriso do meu filho, me guarde o último abraço de minha mãe, me guarde o som daquela música, me guarde o suor daquela noite, me guarde as flores da última primavera, me guarde a história daquele velho amigo, me guarde o caminho, me guarde o primeiro e o último e o durante também, me guarde o sabor daquele doce, me guarde o sono daquela tarde, o fugircismar da paisagem…
Zé do Tempo guardava sem pedir nada em troca, e velho ia ficando de guardar e dar. Serena sugando com os olhos todo seu pensar.
Zé da Justiça voltou dias depois para olhar. Penetrou bem fundo no fundo do olho da onça, sem medo, apenas a olhar. O homem de muitas mortes que dar conta, chorava e vivia de novo a mesma emoção de quando assistira vida e morte se encontrar.
Ana da Lida cada vez que vinha olhava a onça quase como se apaixonada por ela já estivesse ou ainda fosse ficar. E via de novo o olhar de seu belo moço, rasteiro e senvergonhiciando, feito menina ela se dilatava em redes tantas de amar.
Várias eram as Anas, os Joãos, as Lidas, as Justiças, as alegrias e as amarguras a rumarem todos em busca de um só Tempo que, sozinho, se ia sendo.
– Vem cá Serena. Descanse cá teus olhos. Mas ora veja, aqui nem há nada, quanto fogo quanto for o sonho, quanto sonho, quanto for o acreditar, mas fazemos o bem, para quem às vezes pelo mal vagueia demais. Não me deixe esquecer de ver o padre. A cada dia vejo que dos mandamentos o mais difícil de cumprir ou aceitar é aquele a falar sobre o falso testemunho. Como? Se faz mentir tão bem! Deixe ver um pouco também. Quem sabe não a reencontro. Em acreditando, tudo se vê.
E não é que vejo. Já vem se desnudando a forma daquele sorriso, o calor daquele corpo, o fogo daquele tempo. Sei, assim como sei deste tempo, desta chuva, deste sol, desta seca de arfar coração, sei que a vida não se guarda, tampouco se leva. Ela se faz e só. Mas como é bom te olhar. Serena.

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