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Posts Tagged ‘contos’

“Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava uma risada – da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama. Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço – grande e saliente. […] Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem. (p. 10)

Charles Bukowski, A mulher mais linda da cidade. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012

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Girassóis, Van Gogh

Seu cabelo voava. Voava lindo, livre, musicado. Acompanhava o movimento de seu corpo. Tudo ia breve e eterno no espaço que os segundos deixavam pra que você vivesse eterna nas minhas lembranças. E eu a consumir aquele sonho, aquele campo todo molhado de flor, aquelas flores sem fim, aquele seu cabelo tão fino, tão liso, por onde eu escorria a mim.
Gostava de olhar-te inerte. Enquanto ao meu lado algumas vozes simplesmente explodiam, anuladas na imensidão de minha saudade. Mal te olhava me sentia cheio de medos. Tua beleza tão absurda me assombrava, mas nela eu vivia, nela eu amava, mesmo sem saber, nela eu imaginava.
Guardei o girassol, com seu cheiro e sua voz, quase tão bela quanto seus lábios e guardei aquela música que cantava enquanto dançava.
Eu ao seu encontro. Eu a despedaçar meu corpo. Eu a diluir-me fraco entre linhas costuradas e rompidas, entre fios expulsos e reconduzidos, entre espasmos de som e de partida.
Quando te abraçava, você simplesmente ia, quando te entendia, você escurecia e ficava feito sombra, retida, louca, indecifrável, mas sempre sujeita à teimosia de minha luz que teimava em iluminar-te. Morena.
Dançávamos em valsa, cantávamos em serenata, escrevíamos poesia, íamos a centenas e centenas de teatro. Bordávamos a história, jogávamos tintas sobre quadros imensos que mal cabiam na sala. Recitávamos óperas, tocávamos com os dedos sobre os livros milhares de melodias, de Bach a Brahms, assoviávamos destinos, imitávamos os pássaros, caminhávamos a esmo abraçando as árvores, imitando as flores, versando beleza.
O girassol tinha a cor do seu cabelo. E você tinha a cor da tempestade, do sol, da nuvem, do barulho, do silêncio. Você tinha a cor do nada, a extensão da aurora, a viagem sem porto. Você era meu suspiro pálido.
Naquela casa onde fazíamos festa. Você dançava e seu vestido era mais belo do que qualquer música que tocava. A gente dormia e acordava, a gente delirava. As festas eram a criação da sua morada. Lá você tinha ideias, e fazia versos sem compromisso com nada, e dançava sem tempo de partida ou chegada. Lá você era infinita e tão desesperada.
Sempre transbordando em lágrimas. Emoção incontida, desenfreada. Feliz do mundo a receber seus lamentos, suas súplicas, seus sofrimentos gratuitos e tão descompromissados.
E de noite você falava, falava, falava, perdia o sono, apertava o edredom, prometia baixinho não mais amar, não mais querer nada. Mas assim que amanhecia, você amava!
Vinham os girassóis, a cor do seu cabelo era linda, era mel, amarelo, era sorriso, era mistério, era belo.
Suas pernas me prendiam, só eu sei como criava.
E víamos o movimento da arte, nosso amigos com bandas a tocar o mundo, a falar de sentimentos, a fazer lembrar o homem, tão cru e tão certo. Nosso pais tão cheios de zelo, tão prontos para cobranças, tão amigos, tão distantes de nossos medos, de nossa arte, de nosso Rilke, de nosso Brecht, de nosso…
Vazio.
Tão próximos de nossa época.
E nessas horas eu te segurava. Você queria fugir e eu não deixava, você dizia absurdos e eu te ensinava. Você era menina e eu em mulher te transformava.
E como a gente dançava….
…………………………………………………………………………………………………………………………………………..
-Demora muito a chegar Sra?
-Logo ali. Como foi a terapia hoje?
-Normal.
-Falou sobre mais alguma coisa.
-O de sempre.
-Mas como foi?
-Hoje. Hoje eu só sonhei. Revi muitas imagens. Todas juntas, sem separação, era uma espécie de rede sem intervalos, um fluxo que me tirava o ar, quase me sufocava. Uma sucessão de belezas, de momentos, de girassóis…Algumas coisas malucas, eu parecia ter vivido tudo aquilo, mas eu não lembro de nada. Eu era como um artista ao lado de um mulher tão bela que só podia existir em sonho mesmo. Eu criava, ela também, a gente dançava, como era belo. Quem dera o mundo fosse assim, cheio de criações belas.

(mais…)

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A fita lilás

De longe, vindo, ele já parecia lotado, apesar de eu não distinguir muito bem o que era ferro do que poderia ser uma pessoa, parecia tudo meio embaralhado, minha visão produzia cenas turvas, levemente embaçadas, esfumaçadas, eu já parecia antever a atmosfera na qual entraria logo em seguida.
Subi os degraus rapidamente, como quem se nutre de um impulso. Dei alguns passos firmes enquanto ele ainda não entrava em movimento, depois era certo que meus passos seriam desequilibrados e incoerentes, quase como meu estado de alma, ansioso e inconstante. Girei a catraca depois de dar o dinheiro. Girei a catraca depois de dar o dinheiro, pulei um muro depois de dar um adeus, sequei uma lágrima depois de ter deixado escorrer meu coração, venci o medo depois de ter conversado comigo mesma, girei o mundo depois de comprar passagem sem, no entanto, nunca voar pra lá.
Passeei os olhos pelo lugar e encontrei um banco no canto do meu espanto, ele ficava bem separado do restante, isolado, parecia um bom lugar para sentar e olhar a vida passar, a vida sempre a passar. Assim o fiz ou o fizeram de mim, mas sentei, encostei a cabeça e saí de dentro de meus limites físicos para entrar na imensidão e na loucura dos meus sonhos insanos. Olhei pela janela as pessoas e a sua pressa, as pessoas e seus medos, as pessoas e suas faces inexpressivas, confusas, avulsas. Olhei as casas, as cores do mundo, do chão, do portão. Contemplei o chegar da noite e a despedida do dia, este saía manso, como quem tem medo ou prudência para não ofuscar a beleza da noite que se faz majestosa e misteriosa, primitiva e selvagem, inspiradora e desafiadora.
Distraída da janela meus olhos encontraram o interior do lugar que estava lotado, enchera de pessoas quase tão rapidamente quanto um copo quando o enchemos com água. A janela e o mundo visto por ela até então me arrastavam tanto para suas entranhas que não notara o barulho de vozes já tão alto e desencontrado. Muitas pessoas falavam dos mais variados assuntos, ao mesmo tempo, muitas se olhavam com desconfiança ou curiosidade, quase todas se espremiam umas contra as outras em busca de espaço, de lugar. O ar já era denso, ensopado, aflito. Minha alma começava a fervilhar e multiplicava a multidão. Eu já via milhares de pessoas famintas, cegas, desprotegidas. Via ladrões, fantasmas e maldades brotando feito erva daninha. Os rostos eram curiosos, mas eles não passavam de rostos. Os contornos destes é que se faziam a meus olhos interessantes e enigmáticos. Contornos que denunciavam cansaço, sofreguidão, frustração ou felicidade. Traços que desenhavam um dia, uma vida, uma luta.
No conjunto de pessoas existia, antes de tudo, um conjunto de histórias, que eu tentava decifrar sem ouvi-las, apenas sentindo e percebendo como elas poderiam ser ou eram de fato. Foi quando pararam estes meus olhos em uma fita lilás que se enrolava delicadamente nos cabelos de uma moça. Como a fita lhe caía bem, e como ela de repente iluminara aquela atmosfera andante e errante, seca e sufocante. Ela era como água para quem tem sede, incendiou meus olhos, alojou-se na minha lembrança. Já era hora de descer. Os poucos que estavam sentados se levantavam. Os muitos que já estavam em pé espremeram-se contra a saída como quem tem pressa para alguma coisa que eu não sei bem o que é, coisa que se faz diferente para cada um, que talvez nem cada um saiba o que é. Na minha vez de descer parei e fiquei olhando a multidão a caminhar a passos que se preocupavam em parecer seguros e certos.
Como o mundo fabrica cenas que espantam! Cenas que se fazem selvagens, loucas e primitivas, de repente divinas. De longe via a todos, mas reparava apenas naquela fita lilás que enfeitava o cabelo de alguém de quem eu nem sabia o nome, uma fita que se destacava na multidão, como uma flor que desabrocha na diversidade e se faz a mais corajosa e bela de todas, como uma multidão que se re-cria em busca de um eterno e cíclico re-encontro, mesclado de paixão e drama.

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Neblina

Acordei um tanto quanto confusa, como quase todos os dias, fiz minhas coisas rapidamente e bastante sonolenta. Estava até desanimada em relação ao dia que começava, esperava dele o nada, o mesmo que esperava dos outros. Eis, no entanto, que a surpresa surge, as coisas do mundo se entendem e, sorrateiramente, nos seduzem. De repente, elas vão tecendo as teias de nosso destino e remexendo as raízes mais profundas de nossa identidade.
Estava neste estado de alma quando girei a chave no portão e na rua deixei meu corpo entrar. Uma vez nela, meus olhos queimaram com a chama do novo, do inusitado, daquilo que sai do prosaico do cotidiano e decide cutucar a percepção e sensibilidade dos que ainda as tem. Creio que as minhas estão comigo já que me senti tocada profundamente pela paisagem matinal que a atmosfera derramava.
A neblina era o elemento básico desta manhã de segunda-feira. Ela tornava o mundo branco, escondia sua aparência banal e, por isso, parecia revelar sua essência pré-humana, divina. A neblina era úmida e à medida que nela eu entrava sentia-me atingida por essa umidade, como se todo meu corpo fosse se molhando e se distanciando da secura que até então eu em mim sentia. Ela me purificava. A neblina fascinou-me pela carga de mistério, pela novidade que ela trazia para o desenho daquela manhã. Manhã branca, úmida, sedutora, um tanto quanto neutra.
O fato é que eu existia naquela neblina e ela existia em mim. Eu caminhava dentro dela e já era toda sua umidade, brancura e neutralidade. Em meu pensamento que acordava considerei aquela manhã interessante, reflexiva, era como se ela combinasse o amor e o mistério produzindo a fórmula intraduzível da paixão. A neblina era uma espécie de modo negativo de ser, o ser e o não ser, era como uma verdade que me atraía e que, como todas as outras verdades de minha vida, me difamava, fazendo-me trafegar à beira do nada, remexendo meus contornos, alimentando meus medos, despertando a minha curiosidade. Esbocei vários sorrisos disfarçados enquanto minha alma experimentava aquela alegria típica do contato com o novo. A fumaça me trazia um pouco da loucura e eu não tinha medo dela. Estava sentindo, sentir já dizem é uma das formas de ser, portanto, eu sentia e era um rascunho de vida cada vez mais apaixonada pelo mundo, com todas as minhas saudades, com toda a minha liberdade – branca, úmida, fascinante.

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CONTO – Grito

O Grito, quadro expressionista do norueguês Edvard Munch


Ele acordou sozinho no meio da noite. Uma noite clara, de uma atmosfera ensopada, de um aspecto frio e seco. Não sabia onde estava, quem era, qual era o seu nome, sua forma física, não disciplinava seus pensamentos. Tentou se levantar, ir até o espelho, mas suas pernas se recusavam a andar. Era como se durante a noite ele tivesse desaprendido a ser humano. No entanto, apesar de tudo, as lembranças ainda lhe restavam.

O corpo se entregou à imobilidade que o condenava à inconsciência de si mesmo, mas a mente permaneceu lúcida e, longe de ser um alívio, parecia ser justamente isso que o angustiava. Antes não tivesse lembranças e fosse só movimento e racionalidade. Naquela madrugada, no entanto, ele era só devaneio e inconsciência, sem percepção alguma de matéria. Entregou-se às lembranças por inteiro, belo e majestoso como um rio quando se perde e confunde suas águas com as águas do mar.

Encontrou seu passado, pois parecia destinado a ele, como cada vida está destinada à morte. Lembrou-se de um passeio de trem pelo centro da pequena cidade onde nasceu. Era como se o barulho da buzina, das rodas, das pessoas e do vento batendo em seu rosto estivesse novamente ao seu lado, revisitando-o em delírios de uma nostalgia solitária.

Lembrou-se de como as pessoas olhavam para o trem, de como elas paravam o que estivessem fazendo para voltarem também ao seu passado, como ele agora o fazia. Lembrou-se de como o trem dera uma volta imensa pela cidade, de como ela de repente se tornara grande, de como tudo por um instante se tornara claro, alegre, inocente. Naquele dia, no banco macio de um trem, ele fora feliz ou algo próximo disso.

Lembrou-se de sua mãe e de seu pai, agora longes de onde ele estava. Veio-lhe o cheiro do jantar, o som das vozes, o abrigo de um colo onde antes ele se deitava pra chorar, pensar e sonhar. Lembrou-se dos dias de Natal com a casa cheia e da tristeza enorme por ele sentida nestes dias de festa. Quando todos estavam felizes e juntos, ele se sentia triste e sozinho. Lembrou-se de algumas quedas em um jogo de futebol, de como ele tinha medo de mostrar algum talento, preferia saber somente para si mesmo do que ele era capaz.

Lembrou-se de um professor que lhe ensinou um pouco da poesia da vida, da filosofia dos homens, da força transformadora do conhecimento. Um professor que despertou nele o prazer de ouvir, apenas ouvir e sonhar.

Lembrou-se de um amor antigo. Ela havia passado pela sua vida como uma ressaca do mar, arrastando tudo que era dele. Deu a ele seus sonhos, seu corpo, imaginou a sua história na dele. Ele a perdera por egoísmo ou covardia, por medo ou vergonha, não conseguia esquecê-la, não iria fazê-lo nunca.

Naquele momento de lembranças esta última era a que lhe chegava com mais força. Era a que doía mais. Ele sentia a sua falta mais do que qualquer outra falta, mas sabia que ela não iria voltar, já estava com outro, já juntara os pedaços do seu coração enquanto os dele unidos não estariam nunca mais. Estavam separados pela culpa que vem da consciência, pela dor do arrependimento, pela amargura de um coração que descartou a oferta gratuita de felicidade.

O devaneio era absurdo quando lágrimas irromperam incessantes, barrando o fluxo de lembranças que escorria e jorrava sem parar. Ele chorava e gritava, se debatia na cama, contra muros invisíveis ao seu redor, dava socos contra o vento, era violentado pelo tempo, se coçava sem parar. Era como se ele quisesse arrancar de seu corpo formigas que o incomodavam, bichos que o picavam.

Quando o dia já nascia as lágrimas secaram, estava cansado de chorar. A coceira havia passado e deixado na pele marcas de dedos agressivos que outrora tentaram, inutilmente, arrancar uma praga mortal. De súbito se levantou e conseguiu andar. Seu corpo, seus limites físicos e sua racionalidade superficiais estavam de volta.

Olhou-se no espelho e viu o reflexo da loucura, a imagem do abandono, da mais profunda solidão. Voltou a chorar e permaneceu observando o cair das lágrimas, o contrair das faces, o desenho que a dor esculpia em seu rosto. Afundou-se em um narcisismo primitivo e depois dessa madrugada nunca mais se lembrou de nada, não sabia sequer quem ele era. Restou-lhe apenas um corpo obtuso e uma sensação de indiferença total em relação à vida. A tudo que lhe era perguntado ele apenas respondia: “Tanto faz, já não me importo”.

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