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Posts Tagged ‘infância’

Casa Velha

Girl with a Fig Leaf 1947 by Lucian Freud 1922-2011

Lucian Freud, Garota com folha de figo (1947)

Aquela fileira de flores
que talvez tenha me feito sombra.
Quanto ainda lembro de sua beleza
das flores azuis na entrada
o quintal vasto e perigoso
com buracos que pareciam
ir ao outro mundo.

A larga varanda vermelha
e a janela grande da cozinha
em cuja mesa eu um dia
me sentei cansada.

O cansaço novo
daqueles dias.
Que se ia no pedaço
de areia quente
onde surgiam meus mundos.
Que se perdia no longo tapete
onde eu inventava uma
nova casa dentro da casa.

O chão ainda novo, reformado
que eu pisei por poucos anos
hoje por novos pés pisado.
Oh que saudade não tenho
dessa sobrevivente casa paterna
a pulsar nos retratos guardados.

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Miró, Constelação: a estrela da manhã

Miró, Constelação: a estrela da manhã

Sobre aquele chão amassado de frutas e folhas, meus pés brincavam, percorrendo todos os caminhos. As árvores largas, de altura generosa e folhas fartas deixavam a luz escorrer por entre seus espaços, entre vastos e estreitos. Os galhos desenhavam formas ideais para construir uma casa com todos aqueles restos de madeira velha. Éramos os seus construtores. Habitávamos lá no alto. De toda conhecida liberdade, provávamos um gosto à vontade, sem saber de nosso futuro, éramos tão presentes e nem sabíamos. Alguém corria para o pequeno portão cinza ao final do muro. Alguém ouvia os latidos vindos do outro lado. Alguém corria e os outros seguiam atrás. O quintal se lhe abria como uma caixa de surpresa, qualquer caixa de infância. Multiplicavam-se os esconderijos e os mitos. Não é tudo que recordo de tantos dias sob aquelas árvores cacheadas, pisando aquele chão fruteado. Havia também o velho galinheiro, outro projeto de casa, com cômodos e até pequenas toalhas. Certo dia apenas me esgueirei sozinha, por entre ramos e coisas silenciosas. Não sabia nada sobre os meus fantasmas e fazia dali minha casa. As árvores eram meu cobertor de fragmentos amontoados, as frutas que não comi minhas divindades mascaradas, os nomes e coisas que inventei, eram meus deuses e meus lugares. Naquele lugar onde derramei minha infância, a infância da qual às vezes não tenho saudade, mas que me chama de dentro da sua repetida memória. Lugar de acasos. Naquele cheiro onde reconhecia meu corpo, naquelas sombras onde eu podia ver, naqueles buracos onde eu tinha medo de entrar, naquele seco mar que guardava meu corpo, meus intermitentes calores, era naquele chão, que hoje nem existe mais, onde eu deitava as minhas primeiras ardências. Talvez lá outrora estivemos eu e você, mas já não me lembro. Certamente estivemos, já me lembro.

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Lasar Segall

Lasar Segall

Há uma idade
em que as lembranças
voltam.
Idade sem dia
sem chuva
calculada
pela nostalgia.
Lembranças mortas
esburacadas
a denunciar
o intervalo do passado
ainda quente
quando pensado morno
a molhar os olhos
sob as pálpebras fechadas.

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Balthus

Balthus

(4)

Um dia depois de percorrer com os olhos aquele velho caderno de receitas, onde pude ver as formas redondas e indecisas de minha letra de criança, detalhando a quantidade de ovos, as doses de açúcar, as medidas de sal, percorri, com o corpo tenso e a mente inquieta, os velhos cômodos de minha infância. Mudados pelo tempo, por outras mãos, olhei os detalhes, e fui desenhando em minha mente as paisagens de antes. As árvores do pomar continuavam as mesmas, mas sem o mesmo verde. Havia menos flores, menos frutas, e o chão estava mais frio, com novos pisos. Estranho percorrer o mesmo lugar, e que já é outro. Andar usando as mesmas pernas, que já são outras. O tempo passou e eu via. Não havia mais nenhuma lembrança minha, a não ser algumas fotografias. No quartinho ao fundo, muitas coisas ainda estavam amontoadas, em desordem, na companhia de finas camadas de poeira. Pude ver o banco de minha escrivaninha, onde eu gostava de sentar pra ler e escrever, com a mesma letra redonda e indecisa do caderno de receitas, as minhas primeiras histórias, e também minha poltrona florida. O impacto da visita parece ter me dado dores, pois à noite não conseguia dormir, tinha o corpo como se tivessem me batido durante horas. Lembro de alguém que dizia: o tempo faz doer. Contra essas dores parece não existir receita. No caderno velho, onde um dia eu escrevi como fazer doces e bolos, não escrevi como aliviar-me dos anos. Nisso, como em tantas outras coisas, traiu-me minha letra da infância.

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Acabaram-se as brincadeiras no quintal
As fugidas da escola
As aulas de história

Acabou-se o beijo roubado na esquina
A cara pintada de verde
As bonecas cor de rosa

Acabaram-se as paqueras do intervalo
As noites intermináveis
As viagens de carro

Acabaram as músicas do carnaval
A falta de gente na rua
As danças e o coral

Acabou-se a solidão apressada
A mágoa desencontrada
A expressão na fábrica

São José acabou com os primeiros amores
As primeiras festas
Os primeiros choros e sabores

Acabou-se José, Maria, João
Pois tudo há de acabar então
As luzes já são outras

São José acabou-se e nunca me disse não.

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Passo cada vez mais rápido.
Tenho meu presente
comprimido
em compressa de água morna.

Em meio à inversão de gestos
tal vento doce
leve catavento
voando sobre o tempo.

Ando e não mudo de lugar.
Corro e me condeno
a retornar
ao lugar de onde me joguei.

Tento relembrar
longe, já distante.
Vertigem lisa, razão.
Cuida, acaricia, nem vê.

E não há como chegar.
Corro pela estrada
pego o bonde
se houver parada, pensar

pensar, se houver parada.

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