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Posts Tagged ‘Matisse’

Matisse, Portrait of L.N. Delekorskaya (1947)

Matisse, Portrait of L.N. Delekorskaya (1947)

Tua boca
insiste
em contornos
de dó.
Tua boca
resiste
a me deixar
só.

Somente
quando vejo
na noite escura
sem lua
percebo
toda a falta
que sinto
da tua.

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Matisse

Matisse

(12)

Arcaica. Vejo-a sentada de costas. Um corpo reto, correto, as formas sutis dividindo a paisagem. Os cabelos presos, negros, o corpo todo à mostra, sem vestes. Os braços escondidos em sua frente não se deixam ver. Ela se reserva. Mostra a curvatura sensual da cintura, a timidez dos movimentos breves. Pode estar lendo um livro, ouvindo uma música, ou simplesmente de olhos imóveis arrastados pelo chão. Pode estar pensando feliz. Ou perseguindo-se triste. A tristeza sem nome, a tristeza tão desavisada. Pode ter todas as idades. As costas denunciam uma firmeza atemporal, uma eternidade constante, fora do tempo, no tempo ontem amanhã. Conquistadora de todos que seu olhar atravessam. Persistente feiticeira de graças infindáveis, jeito doce, movimentos como que sedentos de vontade, não cabendo em si de tanta beleza, de tanta sedução infatigável. Vejo-a inteligente concentrada. Passando pelo conhecimento de toda poesia, de toda matemática. Da sabedoria prudente. Também entre sombras pode ser encontrada. Sabe-se lá que névoas a perturbam, que noites de todas as noites, que descida aos infernos, que trama enredada no limiar da vida. Fértil, sempre fértil. Seu largo quadril assentado sobre a cadeira revela tamanha força, expressão de vida selvagem, moldada com a cera da origem quase incendiária. Ela poderia mostrar-me o rosto. Deixar-me ver seus tons, suas marcas. Mas não há chance de olhar-me. Luta em segredo. Contra o mundo, contra si mesma. Nunca. Nunca a saberá por inteira. O outro lado. Alma educada na liberdade. Um verso perdido no corpo pelo vinho sacralizado. Beleza de gestos cheios de saudade. Olhar-te sem dúvida apavora. Mas pedes o que quiser. Mulher.

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Henry Matisse, Mulher lendo

No lento sussurrar
da saudade, dúvidas
mil invadem. Mas
o futuro, este não
é mais que miragem.

Os interiores são regiões abruptas da alma. Fétidas. Expulsam bom senso e as demais moralidades, servem-se fartamente de suas próprias leis, enlamam-se em misérias e toda sorte de perversões. Cinzentas, avermelhadas, negras, suas variações são múltiplas, suas delicadezas profundas, sua sensualidade quente e rasteira. Os interiores não são para qualquer um. Solitários e úmidos, às vezes, ou cheios de barulho e melancólicos quando sofridos por qualquer onda de frio. Pacientes, esperam pela mudança que nunca vem, pelos ciclos eternamente a repetirem-se. Porque é dos interiores a mudança que nada muda, o silêncio perpétuo que só na forma de grito se escuta.
As histórias ali são muitas. Contadas e recontadas servem para alimentar sua cadeia interminável de misérias e vãs piedades e inspirar boas condutas ou potencializar as más. Foi assim que em uma pequena vila completamente esquecida e desencontrada, plantada nos interiores do Brasil, ouviu-se dizer de duas mulheres que viviam juntas. Uma era avó e a outra sua neta. A primeira já era mulher havia um bom tempo, contava já os seus sessenta anos, enquanto a segunda apenas começava a trajetória nem sempre fácil de ser mulher. Viviam em casa simples, pequena e mofada. Antiga, a construção nunca mudara e esboçava nos trincos nas paredes as marcas do tempo, na tinta já descascada os humores dos climas quentes daquelas paragens e, no cheiro forte e denso, os sinais de solidão e do esquecimento.
As duas nunca saíam. Nunca tinham visto nada que não fosse a vila onde viviam. A velha lhe decorara os campos secos e as ruas sem árvores, onde as poucas e espalhadas casas se expunham ao sol forte de quase todos os dias ou às chuvas que vinham de vez em quando pelas beiradas. Nunca vira o mar ou outras paisagens, montanhas só as imaginava, metida que estava no meio de toda aquela planície que nunca mais acabava. Só conhecia estradas retas, rios tímidos e acanhadas árvores. Mas não tinha vontade de conhecer outras geografias. A sua lhe bastava. E bastou-lhe tanto que ela agora passava os dias deitada em um sofá que a prima Dinorá trouxera de Paris, todo moderno, cheio de luxos e cores, vindo do exterior, a contrastar com aquele pedaço de vida que se comprazia em descansar sem estar cansada, em olhar para tudo sem olhar para nada. Um interior seco, tão seco como o que a abrigava.
Dona Marina enlouquecera sem que ninguém nunca lhe soubesse propriamente a causa. Ela inclusive parecia mais sã do que todos ao seu redor, mas, ao mesmo tempo, parecia mais louca do que todo um hospício. Desgostara-lhe a vida, era o que diziam as comadres vizinhas, e da depressão e fastio veio a demência, a fragilidade, a enorme dependência, a infantilização quando velha, a humilhação nem sempre percebida, a insegurança de quem nunca esteve onde gostaria. Camas variadas a abrigaram antes de chegar a esse sofá vindo de tão longe, chique e pomposo, muitas delas bastante sujas e ensebadas. Marina quando chegara ao vilarejo, ainda menina, logo caíra nas graças da prostituição, que da capital rapidamente se espalhava rumo ao interior. A mãe pusera-se ensandecida depois que o pai a abandonou por uma dessas mulatas quentes e oferecidas. Nesse meio tempo, Marina tornou-se protegida de uma mulher com excessivo cheiro de perfume barato que era dona de uma escondida e quase imperceptível casa de mulheres que a educou e também a iniciou nos prazeres da vida. Eulália, que assim se chamava a benfeitora de Marina, apresentou à então moça os homens mais abastados da região, políticos da vila e das cidades maiores que a cercavam, padres, advogados, professores, empresários, velhos, moços, artistas, homens vazios e cheios de espírito, homens sedentos de amor e outros sequiosos de vícios.
Por um dos tantos homens apaixonou-se, já sabendo que essa seria a grande desgraça da sua vida. Ela ia por essas épocas com vinte e tantos anos e era ele da mesma idade. Grávida e abandonada, Marina continuou vivendo sob os favores de Eulália e continuou trabalhando enquanto pode, mesmo com todos os riscos. Muitos anos depois, viu escorrer-lhe por entre os dedos a filha que, assim como ela, seguira o mesmo destino. Muitos ao comentar o episódio diziam que não podia ser diferente já que ainda na barriga da mãe a filha já escutava os gemidos dos prazeres forçados e o cheiro dos ambientes mais libertinos. Fugida com um aproveitador de quinta, a única filha de Marina foi morrer em um desses hospitais que mais parecem cortiços espalhados por esses interiores sem fim, e deixou a neta que agora acompanha a avó miseravelmente ensandecida. Marina prometera para si mesma que a neta nunca teria que se deitar com quem ela não queria, sentindo aquelas barrigas encharcadas de suor, aqueles bafos de pinga barata, aquelas mãos ásperas, aquele gozo doentio e alucinado ou correndo o risco de quem sabe apaixonar-se por homens que nunca a mereceriam de fato.
A neta seria diferente. E realmente fora. Mas como de destino não se foge, a diferença veio lhe ser fatal.
Nina desde sempre enfastiara-se daquela cena sem mudanças, de uma imobilidade mórbida, inócua, ofuscada. Quando a mãe a deixara, ela tinha uns dez anos de idade e a avó já alcançava os cinquenta. Nesse tempo já não exercia mais os antigos ofícios e não podia mais contar com Eulália que falecera. Vivia de trabalhos de costura e de ajudas de antigos clientes que fizeram-se amigos por uma razão ou outra. Muitos sempre buscaram em Marina apenas uma companheira que lhes desse conselhos, talvez, essas coisas só sejam acreditadas por corações ingênuos, mas eis que elas existem, e muitos dos amigos de Marina até hoje a ajudavam em troca de pequenas palavras que lhes provocavam grandes efeitos na alma.
Os primeiros dez anos passaram-se assim muito bem. Até que a avó começou a perder o juízo e ficar naquele estado que há pouco descrevemos. Nesse tempo, a existência compartilhada com uma avó da qual não se podia extrair qualquer tipo de certeza em relação ao estado mental e temperamento, apenas reforçara o imenso tédio que as regiões interioranas causavam a Nina. Alguns fatores, no entanto, atípicos para a solidão e isolamento de sua existência fizeram dela tudo que, por causas naturais, ela não viria a ser.

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TRISTESENDO

Matisse

POESIA
Aqui
seria melhor nem dizer.
Mas o que fazer
quando o não dizer
não cabe dentro da
vontade de dizer?

Tudo
enquanto cala pede voz.
Mas qual a forma da angústia
que vê e te faz não ver?
Insincera sem ter medo
de terminar no escuro e só?

Em sim,
cada coisa vira grito.
Mas nem assim se basta.
Tanta letra que carece de sentido…
Nem pra te fazer melhor
ou pior. Nem isso.

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Matisse, The Red Madras Headress, 1907

Lugares que choram
nos lugares que amam,
lugares que arranham…

Nas horas que partem,
no sossego que bate,
na vida e na arte.

O silêncio me escuta,
o sentido me muda,
a história me anula.

Nas vidas que narro,
nos pés da imagem,
do outro lado da margem…

M.V

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