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Posts Tagged ‘Salvador Dalí’

Salvador Dalí

Horizonte
Longe
Definitivo
Infinito onde
Ao mirar-te divido
E só sei do que sinto
Quando desmaiam
As vozes
E ouve-se o grito.

Absoluto
Oco
Moço
Insosso
A iludir-me com gosto
Sem nunca unir
Tua sombra e teu corpo
Os sonhos
Meus e do outro.

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Salvador Dalí

poesia

No ínfimo espaço
entre o eu e o outro
onde se beija o fugaz
e a vida se desfaz

Volátil vertente
assim tão de repente
qual cinza imprecisa
massa sem presente

Tarde, qual névoa
nem triste, nem bela
sereia, donzela
em transe, vem ela

No corpo do mito
da natureza, o vinho
dança em viagem
de corpo e de arte

Evanesce no sopro
primitivo fosco
tão fora de si
bem transviado e oco

Música há de tocar
Teu desejo a fuga
virá. Não saberá
ao certo onde está

No ritual do sono
sem vela. No quase
rarefeito ar. Inefável
infinito limiar

Na morte do possuir
a si. Tudo foge, ou aqui
ou lá. E o meio?
E o que liquefaz?

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Salvador Dalí

Conto

Ele era só tristeza. Parado. Corpo todo esburacado. Humor ensimesmado. Não conseguia ficar alegre com a alegria dos outros, ela mesma o sufocava. Arrastava corpo em chão frio e não sentia nada. Era só tristeza misturada com a gota da ventania. Os olhos a revelavam. Insincera, desnorteada. Tristeza crua que olhar nada não olhava. Parava e ia se ficando pelos rumos de uma vida meio desencontrada. Não sabia por que ela vinha, tinha incertezas e alguns medos achegados. Sofria de amor sem nunca ter amado. Se olhava e via apenas os restos, a vida renegada. Nem em mudanças ele mais acreditava. Por trás do verão sempre havia o mesmo inverno, por trás do mesmo inverno, sempre havia desnaturado verão. Sentia desconfiança perto dos que acreditavam e vergonha por não conseguir mais acreditar. Sei não, mas algo nele sempre se tocaiava. Sempre assim, meio no mundo, meio no infinito, meio sem casca de fim. As mulheres então, detestava. Não gostava delas, do seu ar valente, da sua vontade de ser de repente. Desconfiava de seus olhares mansos, doces e tão traiçoeiros. Tudo sempre o abandonava, desde o conforto do tempo até o cheiro da mulher nunca amada. Ele ficava pelos últimos, sempre sozinho, virado para o silêncio. A solidão o desconjuntava demais, talvez ela é que fosse apagando suas esperanças. Ouvia apenas vozes distantes e da sua já nem lembrava o tom. Ia gostando mais das coisas, menos das gentes. O momento de ver uma flor crescer lhe dava certa emoção, ainda, coisa rara. As pétalas despontando como santas sublimes, a luz do sol iluminando todas as suas escondidas partes que de repente se abriam para um escolhido que, pobre, elas nem percebiam, que na primeira chuva a abandonariam. Nisso ele via os comuns entre flores e mulheres, as mais belas geralmente eram as mais sozinhas, as outras tinham medo de chegar perto e o sol as iluminava apenas um pouco, pensando que elas já tivessem muito, as deixavam sem nada, sempre sozinhas. Assim ele também se sentia, o que deixava flores mais próximas ainda. O crescer de um corpo. Não havia coisa mais bela! E em breve ele dançaria, divino e límpido, comungando céu e terra, escorrendo beleza, beleza infinita. Que também o entristecia. Pra que tão bela se logo vem o tempo, erva daninha, e explode as rosas tão meninas. Marcando tudo que vê, mudando sem mudar nada, levando sem deixar nada. E ali ele indagava pra que toda essa vida? Sim, reconhecia vez ou outra alguns momentos de felicidade, não propriamente nele, ele não os tinha, mas nas pessoas ao seu redor, mas não os achava tão infinitos e logo via a tristeza, crescer feito trepadeira escondendo tudo, sombreando, tudo era ciclo, ele sabia, mas os ciclos doíam demais e, nada, nada, permanecia. Até o amor, ora vejam, que ele um dia tentou acreditar lhe pareceu pálido certo dia. Amor, feito criança, nunca vivia a ponto de envelhecer, nunca persistia. Assim eram as tempestades, mas assim também eram as alegrias. E os sonhos, ah, os sonhos estavam cansados. Cansados de existir sozinhos onde na verdade eles não existiam. Cansados e burros, mansos feito ovelhinhas. No destino ele vez ou outra pensava, único pensamento que quem sabe o consolava, pois do consolo só ele mesmo sabe, pensava que seu destino fosse mesmo a tristeza, já que não conseguia se livrar dela, ao fugir, para ela corria. E pensava que a vida também tinha seu destino, ser provisória e sozinha, como as flores belas jogadas no jardim. Pensou em levantar, ir até o portão, mas estava sem vontade de ver a vida, era sempre a mesma coisa, pernas vinham e iam…

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A Persistência da Memória, Dalí

Os chineses vêem as horas pelos olhos dos gatos.
Certo dia, um missionário, passeando no distrito de Nanquim, notou que
havia esquecido o relógio e perguntou as horas a um rapazinho.
Ao primeiro instante, o garoto do Celeste Império hesitou; depois,
pensando melhor, respondeu:
– Vou dizer.
Decorridos alguns momentos, reaparecia, segurando nos braços um gato muito
gordo; e, fitando o animal, como se usa dizer, no branco do olho, afirmou
sem hesitação:
– Ainda não é exatamente meio dia.
E era verdade.
Por mim, ao inclinar-me para a bela Felina, a de nome tão adequado, aquela
que é ao mesmo tempo a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o
perfume do meu espírito, quer de noite, quer de dia, em plena luz ou na
sombra opaca, no fundo de seus olhos adoráveis vejo sempre, nitidamente, a
hora, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem
divisões de minutos nem de segundos, uma hora imóvel que não é marcada nos
relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como um olhar.
E, se algum importuno me viesse interromper enquanto o meu olhar repousa
sobre este delicioso relógio, se algum Gênio descortês e intolerante,
algum Demônio do contratempo me viesse dizer : – “Que é que estás a mirar
com tamanha atenção? Que buscas nos olhos dessa criatura? Vês acaso neles
a hora, mortal pródigo e vagabundo?”- eu responderia sem hesitar: – “Sim,
vejo a hora: é a Eternidade.”
Pois não é, senhora, que fiz um madrigal verdadeiramente meritório e tão
cheio de ênfase quanto vós mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar
esta preciosa galanteria que não vos pedirei nada em troca.

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POEXISTÊNCIA

Salvador Dalí

A linguagem é por mim penetrada
como um corpo que amo,
em silêncio,
poeta e sangra.

M.V

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Salvador Dalí (Spanish, 1904-1989). Apparition of a Face and Fruit Dish on a Beach, 1938. Oil on canvas. 45 x 57 in. (114.3 x 144.8 cm). The Wadsworth Atheneum, Hartford.Deitados estavam

Deitados estavam
os finos riscos de meus dias
e indiscretos me fitavam
não sei dizer de tamanha agonia

Concretos blasfemavam
os fatos vazios de meus olhares
e esculpidos me rasgavam
em partes de tantos lugares

Inseguros dançavam
os corpos cor de rosa das meninas
e atentos arrepiavam
até alma por demais fugidia

Rastejantes se encontravam
as sombras que nunca tiveram lares
e belas se despiam
rasgando cinzentos mares

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