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Posts Tagged ‘fotografia’

“Pudesse este acolher o efêmero, admitir a transitoriedade de todas as coisas, abraçar o nômade em sua transição fugaz, pudesse o sujeito dizer sim ao estrangeiro, esse passageiro da diferença, e o estranho haveria de se conjugar”. Neusa Santos no ensaio O estrangeiro: nossa condição, p. 163

Poesia

Nas tardes agora longas,
sinto-me breve como um sopro.
Iludida pelo perfume que dura mais
apenas para adiar o outro que vai.

Nas luzes extensas se escondem
as sombras que virão mais fecundas.
E a tarde há de esvair-se em noite
porque assim querem as Fúrias mudas.

Adivinhe o quanto demora
e multiplique pelas contas da hora.
Veja o quanto ainda se chora
pela onda que já quebrou lá fora.

Tanta beleza, que já foi embora
Tanta beleza, de volta

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POR LÁ EU IA

poesia

Tanta letra sortuda
A divagar viagem minha
Na sombra do teu colar
Olhar que tudo via

No amor e aonde vá
O vulto da melancolia
Em cordas de afinar
Em vestes daquele dia

Não há mais o esperar
Os vultos já dão partida
Desista de aqui ficar
Tua alma um corpo guia

Tanta letra sortuda
A divagar viagem minha
Na sombra do teu colar
Olhar que tudo via

E bela há de brilhar
Em si mesmo metida
No silêncio do teu tear
Costure-se poesia

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POESIA

A corromper a paisagem e
sombrear o olhar, estão as
mesmas flores murchas
que insistem em multiplicar.

São mansas, delicadas, nelas
se acredita sem ao menos hesitar.
Mal sabem que as pétalas gastas
são os piores venenos a encontrar.

Ressentidas, acham que as belas
lhes tomam sol, água e ar.
Esquecem-se assim de si mesmas
quando insistem em nas outras reparar.

Se por teu caminho alguma
flor murcha de repente atravessar,
não se culpe por ter amado, nem deixe
que a inveja alheia lhe coloque mal olhado.

O tempo pra todos há de passar
e as flores murchas…
e as flores vivas…
Todas elas sentirão seu suspirar.

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Foto de Graciela Iturbide

Sentada diante do espelho, ela o olhava. Maravilhava-se aos poucos e sutilmente com a sua cor muito branca. Como ele era branco! E como brilhava! Parecia feito de um cetim dos mais finos, iguais aos das moças elegantes da cidade. Admirava seus contornos, o leve decote, as mil e uma pedrinhas que o enfeitavam quase por inteiro da cintura pra cima. Aquelas pedrinhas muito limpas e novas trouxeram de volta na sua lembrança outras pedrinhas, sujas e não tão novas com as quais ela e seus irmãos brincavam nas tardes de sol. Tinha saudade, mas não muita. Estava bastante animada e ansiosa para se prender a sentimentos melancólicos. Continuava mirando-o por meio do reflexo desenhado no espelho. Notou a delicadeza da costura de cada renda que cobria seus braços, a harmonia de cada detalhe, ele parecia divino de tão belo, solene quase.
Era ele o seu vestido de casamento. Era ela a sua imagem aparentemente ausente de qualquer tormento. Do vestido voltou-se para seu rosto. Ela estava achando-se bonita naquele dia. Não dotada de uma beleza exuberante e sofisticada como a trazida pelas mulheres da cidade, mas revestida por uma beleza delicada, tímida até, resultado da leve maquiagem que lhe puseram sobre a pele. Apenas um pouco de pó nas faces, um batom da cor da sua pele e uma fina camada de lápis preto na membrana dos olhos bem negros. Ela admirava a sua beleza! Só aquele pente parecia não combinar. Nunca gostara daquele costume. Desde cedo sua avó lhe ensinara que as mulheres mexicanas deveriam usar um pente sobre a cabeça prendendo com ele parte dos cabelos que, por rebeldia natural e primitiva, caiam soltos diante dos olhos. O pente era sinal de que a moça havia sido criada seguindo os costumes dos povos ancestrais e, o que era mais importante, significava que ela mantinha os olhos sempre descobertos para sorver da beleza e da sabedoria do mundo e, ao mesmo tempo, os cabelos bem presos ao redor do pente, porque cabelos soltos ao vento eram sinal de muita liberdade e a avó sempre dissera: liberdade demais, juízo e felicidade de menos.
Mas o pente destoava do belo rosto e do delicado vestido. Apesar de branco parecia não combinar com nada sendo, definitivamente, peça fora do conjunto. Além disso, há tempo as mulheres da cidade já não o usavam. Ele ainda persistia apenas em vilarejos rurais próximos às áreas urbanas e apenas em algumas famílias. Mais um motivo para deixar enfim de usá-lo.
Já ia fazendo um movimento para tirá-lo quando a avó apontou no quarto onde estava e ia avançando em passos bastante lentos devido aos caprichos do tempo, mas ainda firmes e conhecedores do chão. Aproximando-se da neta, ela mirou no espelho seu reflexo mais o dela. Esboçou um sorriso pequeno, mas sincero, e disse. Vai muito bela. A mais bela das noivas de pentes que essa vila daqui já viu. Deixe-me tocar nele pra ver se está quente ou frio. Olha! Mas não é que vai bem quente esse pente. Sinal de que teus pensamentos estão muito agitados, sinal de que estás alegre minha filha, o pente não nega a fervura ou o sofrimento que trazemos aqui dentro – e apontou para a cabeça já tomada pelos cabelos brancos. Agora vai que todo mundo já vem chegando.
Guadalupe assim o fez. Apressou-se na contemplação e se esqueceu do pente, afinal, tantos anos com ele guardando os cabelos e os pensamentos, não há quem não se acostume.
Lá fora o movimento era quase frenético e o dia bastante quente. Guadalupe se impressionou com o número de pessoas que chegavam, com a quantidade de rosas que o irmão buscara em uma fazenda próxima, rosas de todas as cores, cheiros, de todas as formas e contornos. Ela não cabia em si de tanta felicidade. Ai, se eu continuar assim não duvido nada que esse pente derreta de tão fervente que vai minha alma! Enquanto divisava o horizonte da festa, seus olhos brilhavam e procuravam ávidos por Pedro no meio da multidão que já se configurava. Ainda não o vira, decidiu dar uma volta a fim de trocar com ele algumas palavrinhas antes do início da cerimônia.

Foto de Graciela Iturbide

Pedro ela conhecera ainda adolescente. Com uns 14 anos e coração de menina já pulsando e provando das dores e ilusões da vida. Como ele era lindo e como suas palavras eram doces, suas mãos quentes, seu coração próximo. Ela o amava profundamente. No começo tudo fora um pouco difícil. A família de Pedro era rica, uma das mais tradicionais da cidade de Alcobaça, a cidade próxima do lugar onde Guadalupe vivia, e a família dela, em contrapartida, havia sido empobrecida pela última guerra com os vizinhos ricos do norte. Alcobaça e algumas outras cidades do interior do México eram vítimas de constante exploração pelos estados americanos que faziam fronteira com o México. Os americanos queriam explorar as mulheres e o trabalho dos homens instalando as suas fábricas “maquiladoras” na região. Algumas cidades vizinhas que não reagiram nem opuseram resistência à dominação viram as suas mulheres serem exploradas de todas as formas, seus homens serem reduzidos ao mínimo de sua já mínima dignidade e sua terra ser exaurida até a mais última grama de ouro, até o derradeiro pó de riqueza natural e mineral. Em Alcobaça, eles fizeram diferente. Levantaram-se contra a dominação como se estivessem levantando-se contra um gênio do mal. Travou-se uma perigosa guerra, a liberdade foi prevervada à custa de algumas vidas que espontaneamente deram-se em nome dela. Os pais de Guadalupe morreram na guerra e restaram apenas ela, seus dois irmãos e sua avó que lhe ensinara quase tudo da vida e pouca coisa da morte.
Mas as diferenças entre Guadalupe e Pedro foram superadas pelo amor que ele tinha por ela. Nada parecia detê-lo e quanto mais diziam que não, mais sua vontade sussurrava que sim. E tamanho amor chegou de fato ao casamento. Aí estavam eles. Aí eles estavam.
Tocaram-se belas e alegres músicas, distribuíram-se largos e expressivos sorrisos, trocaram-se alguns interessados olhares, a festa rendeu ótimas felicidades embaraçadas e preparou o terreno para que, como aquela, outras se repetissem indefinidamente, amorosamente.
Guadalupe não coube dentro de si de tanta felicidade. Pedro acreditava possuí-la de fato. Não havia mais possibilidade de perda, nem para ele, tampouco para ela. Os irmãos de Guadalupe sentiram-se orgulhosos e a avó, bem, a avó continuava olhando desconfiada como sempre. Esboçando sorrisos sinceros, mas atentando para alguns alheios mistérios. Seguia ouvindo muito, falando pouco, era uma só ela e seu pente, pois ela ainda o usava e pretendia usá-lo por toda a vida que ainda lhe estava guardada.
Os anos se passaram. O tempo cumpriu seu movimento. O suceder das noites e dos dias, o mudar das estações, o adquirir de marcas, o enfraquecimento de ilusões. O tempo misterioso de que tantos falam, do qual todo mundo sabe alguma coisa, mas do qual ninguém entende razões, caprichos e paixões. O tempo passou e foi desnudando destinos, assim como o pente das mulheres de Alcobaça desnudava seus rostos.

(mais…)

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Nas imagens, uma combinação perfeita de elementos salta aos olhos. O clima, a expressão do espaço, as formas dos elementos, a geometria da realidade, a pureza e os limites do preto e branco, a perspicácia do movimento do olhar, a sondagem inescrupulosa do outro, a saída de dentro de si mesmo, o completo clico do movimento catártico é o que se tem ao disciplinar o olhar na direção de cada fotografia produzida pelo francês Henri Cartier-Bresson.

Não há muito a dizer sobre sua obra, posto que ela fala por si só. Tal como qualquer outra legítima obra de arte, ela não se explica, simplesmente paira, pungente e humana sobre o mundo.

Em recente lançamento da editora Cosac Naify, estão reunidas algumas das obras-primas do fotógrafo destinadas a retratar o velhíssimo e sempre novo conceito de moderno. Sem dúvida, nela há muitos dos seus instantes de eternidade, dos seus enamorados momentos que, com certeza, fazem do livro mais do que um presente pelo deleite aos olhos, pela completude imagética do ser.


Henri Cartier-Bresson: O Século Moderno
Org.: Peter Galassi
Trad.: Cid Knipel
Cosac Naify
376 págs. – R$ 185

Vi no site da revista Cult

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A mesa-redonda Natureza em Foco aconteceu nesta terça-feira, 18 de agosto, no Auditório Monsenhor Salim – Campus II da PUC-Campinas e contou com a participação dos fotógrafos Haroldo Palo Júnior e Adriano Gambarini, tendo como provocador o biólogo Rubens Rosa da Revista Terra da Gente.
A mesa é uma das atrações que compõem a programação do III Seminário Imagem a Atualidade organizado pela PUC-Campinas em parceria com a Câmara Municipal da cidade. Para quem não teve a oportunidade de assistir à mesa, na reportagem abaixo seguem algumas informações sobre a III Semana Hércules Florence, organizada pela Prefeitura Municipal de Campinas e também sobre o III Seminário Imagem e Atualidade da PUC-Campinas, especialmente sobre a mesa-redonda Natureza em Foco.
Vale a pena conferir a programação do Seminário, bem como as exposições de fotografia que estarão pelos campi da universidade até o dia 31 de agosto e, com isso, aprender a olhar a fotografia, seja ela qual for, de uma maneira mais crítica e reflexiva.

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Retratos, imagens, sorrisos, traços e expressões, letras, palavras mudas ou absurdas que não existem mais nesta realidade conhecida, mas fazem lembrar outro tempo. O tempo em que as almas imortalizadas e rendidas às lembranças de um retrato ou às formas de um texto existiram para nós que ainda aqui estamos. Nos túmulos onde descansam os corpos já ausentes de almas, em algum canto há um retrato ou uma frase que luta a intrigante batalha de traduzir em pouco, muito pouco, o que aquelas pessoas, fruto da impossibilidade deste retrato, foram um dia.

Os epitáfios e as fotos são constantes nas pedras da saudade, são como um conforto para aqueles que olhando a foto ou lendo a frase, ligam o mármore, o granito, ou seja lá a rocha que for, a uma pessoa que para uns é apenas mais um retrato e para outras é uma saudade, uma lágrima, um aperto provisório ou eterno. Mas o retrato dos túmulos ou as frases podem e não podem dizer muita coisa sobre aquele ou aquela que representam.


Algumas fotos passam um sorriso belo, gratuito e dão a impressão de que aquela pessoa foi feliz e fez seu mundo feliz. Talvez, essa seja a opção da maioria dos familiares que aqui ficam, lembrar daquele que se foi por meio de seus sorrisos que nem sempre foram tão belos, gratuitos e sinceros. O fato é que depois da morte tudo muda. A aura de nobreza e santidade lançada por seu manto negro é certa como sua vinda.



Alguns retratos, por sua vez, são sisudos, nem um pouco simpáticos, chegam a surpreender quem os olha e, nestes casos, quem garante que aquela alma ali retratada não foi, ao longo da sua efêmera primeira passagem, alguém alegre, repleto de coragem e simpatia, que fez o melhor que pode dentro dos limites de suas contradições e conflitos interiores. Por isso, falo em impossibilidade do retrato. Não há como retratar uma vida, uma personalidade. O instante fotográfico é mágico, mas é particular. Uma foto no canto dos que já foram pra outro canto é fascinante por despertar pensamentos em conhecidos e desconhecidos, que se sensíveis para tal, por vezes desfilando entre as ladeiras de um cemitério, se pegam pensando no que foi aquele retratado, em como viveu, no que realizou e onde estará agora. Já para os que conhecem o retratado, o retrato tem o estranho poder de enganar a saudade ou aumentá-la ainda mais.

Já os epitáfios são de todo interessantes. As palavras são uma forma muito particular e especial de se chegar ao coração das pessoas, à alma que ali no túmulo já não mais se encontra. Alma que nunca sequer ali se encontrou. A frase, quando sincera e escolhida para retratar não para apenas para elevar, toca mais que a imagem e tem a estranha função da palavra que cala por meio da outra já dita. Epitáfios são lindos e tristes na mesma proporção. Fazem os vivos pensar na morte, não apenas nos mortos, como as fotografias. Fazem os vivos pensar na vida, em como ela é efêmera e, ao mesmo tempo, convencida a ponto de julgar-se traduzível em uma foto ou em uma frase.


Por mais linda que seja a foto, por mais emocionante e reflexivo que seja um epitáfio, ambos ainda são instrumentos de seres humanos que se fazem tão pequenos diante da certeza da morte e da incerteza do que vem depois dela, do temor da outra margem – onde poderemos evoluir no sentido de sermos plenos, alheios às pequenas questões, superiores às mesquinharias de todo dia, entregues à completude do que vale a pena ser vivido, lembrado, admirado. Mas os cemitérios, nosso depósito de lembranças e saudades incrivelmente personificadas em túmulos de pedra, não seriam os mesmos sem as fotos e as frases. Eles são elementos desta cultura que se liga às ilusões do pouco e do bruto, querendo atingir o muito e o profundo. A pergunta é: quem poderia viver sem elas, as ilusões?

Cada povo em cada cultura cuida e venera seus mortos de maneiras diferentes. Talvez a cultura dos mortos neste nosso país Brasil, seja a extensão de terrenos onde jazem ilusões sob a terra, ilusões porque o corpo ali não mais existe na grande maioria dos casos, mas a lápide torna-se impregnada de lembranças, saudades, dores e detalhes. Detalhes como a foto em um canto ou a frase noutro canto. Retratos que vão além do retrato, em circunstâncias aonde a saudade vai além da própria saudade, onde as pedras ganham um indecifrável significado, onde a presença e a ausência da alma se confundem em meio às certezas e contradições que decorrem da impossibilidade deste retrato.


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