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Posts Tagged ‘teatro’

Assista a um trecho do filme Moscou, de Eduardo Coutinho que, basicamente, registra a montagem da peça As Três Irmãs, de Anton Tchekov, sob a direção de Enrique Diaz. A peça tem como enredo central um drama protagonizado pelas três irmãs que sonham em voltar para Moscou, cidade de onde guardam momentos de uma infância feliz.

O filme de Coutinho tem espaço para a realidade e a para a representação, as fronteiras entre esses dois campos da experiência humana se fazem tênues, trata-se de realidade, mas, ao mesmo tempo, tudo não passa de uma representação.
Esses diálogos que ele faz ao longo do filme entre o real e a ficção aliados ao bom desempenho dos atores do grupo teatral e à ótima qualidade do texto de Tchekov têm tudo para fazer do filme mais um grande sucesso do diretor.

Vi no site da Bravo

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Cena do espetáculo A Alma Boa de Setsuan

Dos melhores textos do dramaturgo e escritor Bertold Brecht um deles, pela força dramática, tom de crítica e denúncia social, é sem dúvida alguma A Alma Boa de Setsuan que está em cartaz no teatro da PUC-SP, o TUCA, em São Paulo. A peça que inicialmente iria ficar em cartaz apenas por três meses já está sendo apresentada há cerca de um ano e vai encerrar definitivamente a temporada de apresentações em julho. Tanto tempo em cartaz com certeza de público lotado em quase todas as apresentações só pode ser sinal de uma peça que encanta e surpreende quem vê do primeiro ao último minuto.

De fato, A Alma Boa de Setsuan é de uma beleza completa e pungente capaz de emocionar no mesmo movimento em que leva à reflexão e reconhecimento de nós mesmos. Fora a inquestionável qualidade do texto, a representação dos atores é um capítulo à parte. Denise Fraga está simplesmente completa no papel da protagonista da peça, Chen Tê, a alma boa que reside no pequeno vilarejo de Setsuan. Chen Tê é uma prostituta que vive querendo ajudar a todos e, nesse caminho, sempre acaba por prejudicar a si mesma. A saída que ela vê para resolver essa questão é se disfarçar de um tal primo, Chui Ta, que incorpora todas as características que Chen Tê não tem.

Tem-se, portanto, um jogo de ambivalência muito característico em diversas peças teatrais nas quais um mesmo personagem se faz passar por uma outra pessoa e vive duas vidas ao mesmo tempo, perfeita metáfora para revelar os dois lados de cada um de nós. No caso da peça de Brecht, um lado é ingênuo, aquele que cede, perdoa, ama, está sempre disponível e deseja apenas fazer o bem, e o outro é o lado que castiga, que é duro, firme e astuto. A personagem de Denise Fraga convive com os dois lados dentro de si e os representa na peça de forma artisticamente perfeita.

Cena do espetáculo A Alma Boa de Setsuan

Além de Denise, outros grandes nomes do teatro nacional compõem o elenco como Ary França que, na peça, incorpora o papel de uma espécie de mensageiro divino que sai em busca de uma alma boa que seria a última esperança para o mundo. Antes de refletir sobre toda mensagem transmitida pela peça, vale ressaltar, já que se fala de atores, que o trabalho do ator nesta peça é completo e harmônico.

Todos têm um trabalho de corpo que confere a cada um deles um estilo próprio capaz de levar a plateia a risos e reações diversas sem que sequer uma palavra seja dita. Esta se envolve apenas pelos gestos dos atores, pelos detalhes da interpretação, por aquela força muda que alimenta a potencialidade das palavras sem a qual estas últimas não são nada. O cenário, o jogo de luzes, os detalhes dos objetos, das roupas, tudo respira de forma harmoniosa, contribuindo para causar uma sensação de prazer e completude diante da manifestação pura e sublime da arte.

O segredo de um grande espetáculo está na combinação de diversos elementos que vão desde o trabalho dos atores, luz, cenário, música e silêncio até a qualidade do texto e o potencial que este tem em atingir o imaginário de cada um que assiste ao espetáculo. O texto de Brecht não se sustentaria se não fosse o excelente trabalho de corpo e voz dos atores, a delicadeza dos cenários, os tons e momentos de cada recorte de luz, no entanto, também digo que todos esses elementos não se sustentariam sem a qualidade do texto de Brecht que transpõe os limites das futilidades cotidianas, dos barulhos, das superficialidades, da pressa e encontra sua essência no olhar crítico sobre o ser humano, sobre a sociedade e sobre a própria vida.

Cena do espetáculo A Alma Boa de Setsuan

Em seu texto, Brecht faz pensar em como as almas boas são raras, em como o mundo precisa delas e, principalmente, em como elas inevitavelmente sofrem por seres boas demais. Isso por que, o mundo que as rodeia na maioria das vezes é mal, interesseiro, mesquinho ou simplório e invisível demais para ser notado.

Apesar do pessimismo e da precariedade do caráter humano presentes na peça, ela nos mostra que as almas boas são de extrema importância e que, mesmo que o caminho seja difícil, o mundo, mesmo sem saber valorizar e reconhecer, precisa delas, assim como elas precisam do mundo. Brecht mostra que é preciso encontrar um caminho nesta selva de famintos nas quais fomos simplesmente despejados,que não se deve desistir e que ser bom, apesar de tudo levar a crer que essa é uma característica que não tende a compensar, é o que de melhor podemos fazer a nós mesmos e à nossa consciência.

Afinal, assim como a arte não existe sem paixão, tampouco a vida respira sem uma simples fresta de bondade por mais cansada e desiludida que esta esteja. É por essa fresta que entra luz, a verdadeira luz de um belo espetáculo! Assim como dizem as últimas palavras de A Alma Boa de Setsuan “Deve haver uma saída. Tem de haver”!

Cena do espetáculo A Alma Boa de Setsuan

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“Dai, e dar-se-vos-á, no seio nos será lançada uma medida boa, e cheia, e recalcada, e acogulada. Porque com a mesma medida com que medirdes para os outros será medido para vós.”

Evangelho de São Lucas, cap.6, versículo 38.

Neste meu espaço coloco a frase acima visando fazer uma reflexão sobre o homem – suas ilusões e relações – e também uma referência ao texto ousado e polêmico de William Shakespeare, escrito em 1604, Medida por Medida. Um texto que aborda temas como poder, corrupção e erros de conduta, ou seja, temas que permanecem atuais quatro séculos depois, reafirmando o espírito visionário e atemporal de Shakespeare. Trata-se de uma comédia de intrigas, mas com um terno desdém pelas misérias humanas em um mundo de tiranos que reprimem, mas que ao se depararem com seus abismos (e todos os têm) são transformados em meros objetos de pavor e fecham os olhos.
A construção da peça também mostra que há algo de servil no rigor e na coerência em uma realidade onde certas atitudes podem até se justificar de mil maneiras, mas nunca são de fato perdoadas porque vis. Com toda sutileza e intensidade shakespeariana, a peça aborda o fato de que, muitas vezes, o drama a que chegamos em nossa vida é tanto e tamanho, que imploramos pela morte. E quando esperamos já ter encontrado tudo, vemos que nossa própria morte por vezes nos é negada, e aí nos traem nossos mais pulsantes desejos.
O texto de Shakespeare nos ajuda a perceber que seguimos medindo uns aos outros, medimos a nós mesmos e seguiremos medindo porque ao ser humano parece que medir seja, de fato, a medida de todas as coisas. Embora medir seja inevitável, só lembro aos navegantes, com meu tradicional aviso, que não esqueçam de que também serão medidos na mesma medida em que medirem os outros, como nos lembra a frase que fica lá em cima. Neste sentido, esta postagem serve mais como um alerta. Não quer explicar o texto de Shakespeare – por si só um tanto distante e alheio a explicações – já que este não é o ponto central dela, falo da peça aqui como um objeto de referência à mensagem trazida no início. Tampouco a postagem quer dar lição de moral -posto que esta pretensão não me agrada nem um pouco – é mais, como dito, um alerta e uma constatação de nossos vícios e eternos companheiros desta passagem efêmera e inexplicável por esta que mede e é medida: a vida!
Complementaria – fazendo uso dessa relação frase, reflexão, teatro – dizendo que a nós medidores e medidos resta a sensibilidade de reconhecer a melancolia, a cumplicidade e a paixão próprias do teatro. A mensagem e a individualidade de uma música que traz a gratuidade e a exclusividade da lembrança. A intensidade e a satisfação pela espera de coisas pelas quais vale a pena esperar.
Enfim, nosso consolo é a ilusão de acreditar-nos capaz de medir o que não tem medida, porque se a vida é a medida o que a constitui no seu inexplicável é incapaz de qualquer forma de mensurabilidade. Eis o limite de nossas medidas, as coisas que medem, mas não têm medida, como um belo texto de teatro, tal como o de Shakespeare, como uma sugestiva música carregada de harmonia, tal como uma história que dos livros se revela bem contada. Tal como todas as formas de arte, em toda sua manifestação e mistério, irreverência e atrevimento, contemplação e deciframento. Eis o invisível, que existe mesmo sem ser visto, porque mede com a dignidade e a astúcia daquele que não tem medida. É justamente tudo o que não explicamos, tudo o que sentimos antes de pensar, tudo que nos toca antes de simplesmente influenciar. Não é a toa que o homem explica apenas aquilo que tem uma medida, é só isso que ele mede. Mas todo o resto, o resto que ele não mede, ele não consegue explicar, acaba explicado e medido. E assim, revela-se o diáfano rio de nossas limitações, de seres que medem bem menos do que são medidos pelos mistérios do outro lado da sua margem, pelas medidas infinitas e intocadas e, por isso mesmo, as mais fascinantes e ardentemente desejadas.

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