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Posts Tagged ‘Dom Quixote’

Devolveu-me um certo Dom Quixote de La Mancha o gosto de uma leitura fluente e livre. Livre não dos compromissos da boa literatura, e sim dos percalços da má. Com sua dose de fantasia, o romance combina tanto a crítica à própria literatura, quanto o sabor do que pode existir de melhor nela: as histórias.

Elas saltam sobre o enredo, acumulam-se. O leitor sai de uma para logo entrar em outra, mas, em nenhum momento, perde-se o espírito da obra ou o seu propósito inicial, que vem a ser a crítica às próprias novelas de cavalaria e aos demais gêneros da produção literária de então.

Cervantes recupera assim toda uma tradição literária e, como nas grandes obras, faz viver, ou melhor, reviver, os grandes clássicos. Desde Aristóteles até Homero, desde a Grécia até Roma, desde os mitos até as narrativas de pastoras e princesas. E coloca de fato a literatura como a grande protagonista de sua história, afinal, Dom Quixote não existiria se não fosse por ela.

Sem os romances meticulosamente queimados pelo não menos meticuloso cura do seu vilarejo, o fidalgo da Mancha não teria enlouquecido. Nem se imaginado de repente um cavaleiro andante, enamorado da mais formosa das donzelas, sua Dulcineia do Toboso. Sequer teria por escudeiro um servo tão leal quanto peculiar como o inacreditável Sancho Pança, tampouco seguiria saltando de encantamento a encantamento com seu corajoso cavalo Rocinante.

A loucura perpassa Dom Quixote, mas não se faz como loucura aleatória. A poética de Aristóteles tão requisitada pela obra é aqui empregada e a verossimilhança aproxima o leitor da história, por mais fantástico que seja seu enredo. E reside aí o grande lance dessa eterna grande obra, fazer do fantástico familiar pela preservação da arte.

Particularmente, o livro fez-me lembrar a razão de gostar de literatura, por apreciar ouvir histórias, e também me fez reviver o tempo em que aprendi que literatura não era só história, apesar de sempre o ser.

Mais ainda, Dom Quixote me fez novamente escrever textos assim, levemente críticos, como esse, que há tempos não escrevia por estar mais exercitando a escrita que os comentários da escrita. E a isso também sou grandemente agradecida, como as damas que o eternamente honroso Cavaleiro da Triste Figura ajudou a salvar!

O Impressões aproveita para desejar a todos um Feliz Natal e Ano Novo!

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Entre todas as tragédias gregas, Édipo seria aquela que melhor teria seguido os termos da poética aristotélica

“Devem casar-se as fábulas mentirosas com a inteligência dos que a leiam, escrevendo-se de sorte que, tornando crível o impossível, aplainando os excessos, suspendendo os espíritos, admirem, suspendam, alvorocem e entretenham, de modo que andem a passo igual a admiração e a alegria; e todas essas coisas não poderá fazer quem fugir da verossimilhança e da imitação, em quem consiste a perfeição daquilo que se escreve”. (Cervantes, Dom Quixote, p. 298)

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A pastora Marcela: a quem o céu não quis que amasse por destino e que se fez entregue à solidão dos campos

“Fez-me o céu, de acordo com o que vós dizeis, formosa, e de tal maneira, que, sem poderdes fazer outra coisa, a que me ameis vos move minha formosura, e pelo amor que me mostrais dizeis e ainda quereis que esteja eu obrigada a amar-vos. Eu sei, com a natural razão que Deus me deu, que tudo o que é formoso é amável; mas não consigo compreender que, em razão de ser amado, esteja obrigado o que é amado por formoso a amar a quem o ama. […] E, assim como a víbora não merece ser inculpada da peçonha que tem, posto que com ela mata, por ter-lha dado a natureza, tampouco eu mereço ser censurada por ser formosa, pois que a formosura na mulher honesta é como o fogo afastado ou como a espada aguda, que nem ele queima nem ela corta aquele que deles não se aproxima. A honra e a virtude são adornos da alma, sem as quais o corpo, ainda que o seja, não há de parecer formoso”. (p. 179 e 180)

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